Cornualha, viagem tão boa quanto um bestseller

Cornualha, viagem tão boa quanto um bestseller

Heitor e Sílvia Reali

01 de outubro de 2020 | 18h08

Cornualha é o centro simbólico de alguns dos meus romances preferidos. Mas antes dessas leituras, era a região dos celtas e druidas
crédito: viramundo e mundovirado

“Essa viagem para a Cornualha, Inglaterra, vou contar para o resto da minha vida. Por quê?”
O clima ali às vezes incrivelmente severo, vilas em estilo gótico puro plantadas em penedos sobre o mar bravio, extensões de falésias, pântanos, monólitos que são marcos de templos do Neolítico, ruínas de castelos sombrios, além de superstições para dar e vender ao resto do mundo, me fizeram entrar numa nova dimensão da realidade. Aquela que corre por dentro do fantástico.

Vilas e vales em que manhãs são encobertas por uma neblina de feitiço
crédito: viramundo e mundovirado

A motivação maior desta viagem estava numa montagem cinematográfica e literária. A natureza da mítica Cornualha foi inspiração para obras-primas da prosa inglesa, e de tabela de filmes geniais baseados nesses livros. E, ela me provocou a estranha e euforizante sensação de estar dentro de um livro ou filme.

As paisagens da Cornualha sempre foram personagens de destaque entre alguns dos mais importantes bestsellers ingleses
crédito: viramundo e mundovirado

A viagem pela Cornualha está longe de ser apenas um passeio. O itinerário está impregnado de literatura fantástica, policial, de romances ardentes, do fascínio pela cultura dos celtas, e de histórias medievais. Consagrados escritores ambientaram em suas paisagens, que se mantêm praticamente as mesmas, suas histórias, fossem elas reais ou fictícias: Arthur Conan Doyle (1859-1930), Agatha Christie (1890-1976), Daphne du Maurier (1907-89), Virginia Woolf (1882-1941), J.R. R. Tolkien (1892-1973), D. H. Lawrence (1885-1930), Marion Z. Badley (1930-99), Willian Golding (1911-1993), e Rosamunde Pilcher (1924 -).

Ao me aproximar mais dessas ruínas de Tintagel (Castelo do Rei Arthur) fui contagiado pelos romances medievais dos Cavaleiros da Távola Redonda
crédito: viramundo e mundovirado

No cinema, dentre muitos filmes de suspense, terror, de piratas, de Cavaleiros da Távola Redonda, uma dobradinha famosa se formou entre Daphne du Maurier e Alfred Hitchcock. O cineasta que de bobo não tinha nada, percebeu logo o filão de ouro nos livros de Du Maurier e os transformou em blockbusters. Para citar alguns: “Estalagem Maldita”, “Rebecca” (no qual o cineasta britânico ganhou o Oscar de 1940, pelo melhor filme do ano), e o “Os Pássaros”.

Polperro. Aqui entrei numa realidade paralela, surreal
crédito: viramundo e mundovirado

Do cinema para a vila litorânea de Polperro, onde Silvia e eu estávamos. Mas poderia ser Fowey, ou outras tantas aldeias da Cornualha. O tempo mudara de forma abrupta, normal para aquela região, dizem, mas não para mim. A tarde antecipou a noite, as fachadas das casas cinzentas agora me pareciam sinistras, e uma névoa encobriu a aldeia. Me senti estranho com o surrealismo das ruas desertas. Não parecia uma mudança de minutos, mas de séculos. Embora com o pé na realidade foi impossível não sublimar o suspense.

E mais, sob cerrada neblina onde só se distinguia silhuetas, o vento surgiu num registro quase operístico. Vi o clarão. O trovão explodiu e raios fragmentaram o céu. A neblina ficou mais forte. Procuramos algum pub, loja, o escambau a quatro para entrar e … nada. Tudo fechado. Devil! Praguejei! Sem dissociar cinema e literatura me vi no melhor estilo de um filme P&B de mistério.

O clímax final se revelou num flash de raio: um vulto encostado na parede. Meus Deus!, ele tinha olheiras fundas. Abriu uma porta e nos convidou a entrar. Fiquei o tempo todo na defensiva. Ele ofereceu um chá bem quente com cookies. Teriam veneno? Estaria vivendo naquele momento uma realidade paralela. Maldita imaginação de filmar um livro e ler um filme que nunca me abandona.

Essa região encerra uma infinidade de segredos, lendas, superstições e mistérios em seu labirinto aquoso de terras movediças. Talvez por isso tenha sido cenário do mitológico livro O Cão dos Baskervilles, de Conan Doyle
crédito: viramundo e mundovirado

Afinal, a viagem para a Cornualha foi tão boa como um bestseller

Nas feições góticas dos vilarejos se destacam as silhuetas de cúpulas de igrejas, lápides e cruzes celtas recobertas de musgo, e ruínas de castelos sombrios. Um cenário que nos coloca na zona fronteiriça entre realidade e tudo o que a transborda – magia e superstição
crédito: viramundo e mundovirado

Considere quando ir:
Onde ficamos
Em St. Ives, Boskerris Hotel (www.boskerrishotel.co.uk). Situado na praia de Carbis Bay, e somente 5 minutos a pé da ‘Southwest Coast Path’. Uma trilha de aproximadamente dois quilômetros até o centro da cidade. Ampla residência transformada em hotel, com charmoso bar, sala de leitura e varanda. Esta, ideal para presenciar o pôr do sol, acompanhado de uma cerveja preta artesanal de St. Ives. Quartos amplos e excelente cornish breakfast
Em St. Ives, Primrose Valley Hotel (www.primroseonline.co.uk). Sua grande vantagem é a localização a 5 minutos a pé do centro da cidade; tem acomodações mais simples.
Em Fowey, The Old Quay House (www.theoldquayhouse.com). Localização perfeita, no badalado centrinho de Fowey. Decoração primorosa em todos os quartos, com vista privilegiada do estuário. Pode-se afirmar sem susto que é o melhor hotel da cidade.

Quem disse que não se come bem na Inglaterra?
Em St. Ives, The Porthminster Café (www.porthminstercafe.co.uk). Moderno restaurante com vista do porto e farol de Fowey. Sua especialidade são peixes e frutos do mar. Não deixe de conhecer esse restaurante, um dos mais fotogênicos e aclamados da Cornualha.
Em Fowey, The Old Quay Restaurant (www.theoldquayhouse.com). Com localização privilegiada em frente ao estuário, esse restaurante premiado contradiz a fama de que na Inglaterra não se come bem. Aqui a especialidade são os peixes grelhados e a cozinha baseada em pratos tradicionais da região.

Para saber mais
Trens
. Para alcançar as principais cidades do sudoeste da Inglaterra os trens que partem das Estações de Paddington ou de Reading são a melhor opção para alcançar St. Ives. Neles, entre uma paisagem e outra, enquanto você sacia o olhar, pode ir tomando um chá, ou uma cerveja escura e forte, mordiscando salsichas, queijos e pães crocantes preparados com diferentes grãos e frutas secas.

Aluguel de carro. Um jeito fácil de percorrer toda a região da Cornualha pelas ótimas estradas com sinalização perfeita. Cidades pequenas, sem trânsito, mas com estacionamento bem complicado já que na maioria delas as ruas são estreitas. A melhor pedida é alugar um carro com “chauffeur”. O custo-beneficio vale: não custa caro além de oferecer a vantagem de não perder tempo na escolha de itinerários, e você se despreocupa de mais duas coisas: garimpar estacionamento e correr o risco de se atrapalhar com o volante do carro à moda inglesa, à direita. Foi o que fizemos. Contate: Driver Guides Tim Uff , tel.: 07969-281805

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