Coyoacán, em poucas quadras todo México

Coyoacán, em poucas quadras todo México

Heitor e Sílvia Reali

06 de março de 2020 | 13h18

ilustração de Frida e Diego

Frida e Diego, o casal de moradores mais renomado de Coyoacán
Ilustração Reali Servadei

Você acha impossível conhecer um país em poucas quadras? Pois, afirmo que pode. Coyoacán, um dos mais vibrantes da capital mexicana, é a síntese do país. Caminhar por suas ruas é um debruçar na história, música, artes populares, arquitetura, gastronomia e de lambujem conhecer seus marcantes personagens. Mas, atenção, isso não quer dizer que essa caminhada aconteça em poucas horas. Ah! isso não. São tantos atrativos, museus, lojas e barraquinhas de rua que toma tempo! E, cada item é tão intenso – o que em termos de México é redundante – que é imprescindível tomar fôlego na forma de um sorvete, um taco, ou para os mais extenuados, meu caso, uma dose de tequila 100% agave azul, goela abaixo, derecho, como ensinam aos incautos viajantes: “Deve queimar, pero sin molestar”. Pude dar um tempo também para meus braços cansados de carregar sacolas. Não sou do tipo shop till you drop, mas como é que o coração podia resistir se resolvi levar o México na bagagem?

Turisbus é como um mural em movimento:
Ilustração Reali Servadei

Bairro cheio de personalidade, Coyoacán é quase um oásis de frescor em meio aos modernos arranha-céus e o trânsito caótico da capital mexicana. Há ruas tranquilas, como a  Francisco Sosa – dizem ser a mais bonita – com seu calçamento de pedra e casas solariegas, casarões em tintas fortes, que deságuam em pequenas praças arborizadas com igrejas coloniais de pórticos solenes. Essas pracinhas têm sempre um emaranhado de fios repletos das típicas bandeirolas de papel nas cores laranja, fúcsia, turquesa, verde limão, e recortadas com desenho de caveiras, guitarras, flores, de corações transpassados, e nos fazem pensar que chegamos no dia da padroeira.

E ainda têm cores em movimento como o bonde vermelho fogo, e o turisbus, ônibus de dois andares com turistas acocorados no piso panorâmico superior. Alguém é doido de ficar fechado no andar de baixo? O turisbus é todo decorado com os atrativos do bairro, mas, quem sobressai é sua mais famosa moradora  – Frida Kahlo. Essa mulher, pequena e frágil, não marcou apenas o bairro ou o país, marcou época.

A Fonte dos Coiotes
Ilustração: Reali Servadei

Bom, se é para ser atingida em cheio sem clemência nesse passeio pelo México,  resolví começar o percurso do Barrio Mágico, como dizem ali, direto no coração – a Praça Central. Efervescente é pouco. Para chegar até a Praça Hidalgo, o calor estava diluído sob as árvores, mas nesse espaço mais aberto o sol mostrava toda sua força. Os repuxos d’água da fonte até que se esforçam para dar uma sensação de refresco. É a Fonte dos Coiotes, no idioma náhuatl – coyoacán. O coiote está sempre presente na literatura mexicana. Diz a mitologia que o animal é símbolo da astúcia, da beleza e sensualidade masculina, e era o deus da dança e da música para os astecas. Todos os casais de namorados tiram a clássica selfie ou instagramam na fonte com os encharcados coiotes atrás.

Cerâmica colorida
Ilustração: Reali Servadei

Do outro lado da praça fica a imponente catedral dedicada a São João Batista. Decidi então que vou bisbilhotar a esmo, e o melhor jeito é não perguntar nada pra ninguém. É só seguir  a música, pois, sempre tem uma turma de músicos ou dupla de cantores se apresentando. Barraquinhas de rua oferecem de um tudo para comer e os mais chamativos são os doces, em geral bolos fofos, recobertos de suspiro turquesa ou rosa choque e pipocados com balas de goma, pastilhas ou granulados coloridos. Outras barraquinhas mostram cerâmicas, canecas, e peças do o criativo artesanato. Outra ainda expõe as máscaras para a luta livre mexicana e mais adiante uma vende piñatas que são objetos de papelão em formato de estrelas, abarrotadas de guloseimas para cumpleanõs. O aniversariante com os olhos vendados e munido de um bastão deve estourar o pacote.

Coiote entalhado em madeira, uma das peças de artesanato exposta no Mercado de Artesania
Ilustração: Reali Servadei

Pralapracá vendedores ambulantes se misturam aos moradores, e aos viajantes e formam um terroir único e colorido. Onde já se viu coisa mais mexicana do que cores fortes e contrastantes? Surrealista, over. Caveiras macabras ou sorridentes, de todos os tamanhos e em diversos materiais estão por toda parte: estampam de camisetas a canecas ou espantam de esqueleto inteiro em tamanho natural, vestidas com chapelões, xales, e até marionetes para as crianças. Por fim passei a simpatizar com elas, mas meus preferidos são os alebrijes, animais fantásticos feitos em papal machê, meio dragões, meio louva-a-deus, recobertos de grafismos variados. Os alebrijes, as Árvores da Vida e os coiotes são os objetos que mais se destacam no mar de cores e formas do Mercado de Artesanias.
Por tudo isso Luis Buñel, cineasta espanhol naturalizado mexicano, rodou em 1954 em Coyoacán, algumas cenas do “A ilusão viaja de bonde”. Nesse road-movie ao longo do percurso do bonde, ele revela a diversidade de um México citadino.

Barraquinha da caprichosa artesã com vestidos, batas, bolsas e mantas bordadas
Ilustração: Reali Servadei

Quer conhecer uma boa fatia da comida mexicana, a primeira gastronomia da história declarada pela UNESCO como Patrimônio da Humanidade? Já se sabe que se a gente quer conhecer rápida e profundamente um país o lugar perfeito é o mercado. Certo? No Mercado de Coyoacán os moradores se abastecem de frutas, temperos, legumes, flores, além de pimentas de todos os tipos de ardência como a jalapeño, habanero, poblano, caiena, para citar apenas algumas. E, no fim da empreitada, com sede e fome é ali mesmo que fazem suas refeições. Fiz o mesmo. Primeiro foi a cerveja Espantapájaros escolhida por seu sonoro nome. Na sequência foram uma tortilla de milho que depois de dobrada e recheada com queijo vira quesadilla, um taco crocante e macio recheado de carne moída e molho de guacamole. Quando me veio a imagem de uma jibóia, e pensei recusar o huitlacoche, a cozinheira disse que eu estava com sorte, pois, era época desse fungo que cresce nas espigas de milho. Uma iguaria!

Ao deixar o mercado passei por verdadeiro túnel de roupas penduradas, a grande maioria de vestidos e xales à la Frida Kahlo. A artista inventou um figurino para si própria inspirado nas índias mexicanas.

Cactus no jardim da Casa Azul
Ilustração: Reali Servadei

Magdalena Carmen Frida Kahlo y Calderón nasceu em 1907 nessa casa em Coyoacán, hoje Casa Azul, museu dedicado a artista. Aos sete anos ela contraiu pólio e aos 18 sofreu um grave acidente numa jardineira, tipo de ônibus pequeno. Quebrou a coluna em três lugares, teve onze fraturas na perna direita, o pé esmagado e sequelas para o resto da vida. Nessa casa ela também se casou com Diego Rivera, renomado muralista mexicano, 20 anos mais velho.

Hoje as pessoas na fila para comprar ingressos, que quase sempre dobra a esquina da Rua Londres, pontilham de cores o muro cobalto puro da casa. E, depois de cruzar a alta porta a tonalidade azul intensa faz contraponto com o verde exuberante da vegetação. Nas primeiras salas fotos, quadros e a coleção de ex-votos mexicanos: pinturas de dimensões pequenas onde o artista reproduzia um milagre. Em seguida o cômodo mais impactante, a cozinha com o piso, mesa e cadeiras em tom amarelo girassol – exigência da moradora – louça, cucharonas, colheronas de pau, pratos, potes, alguidares para os molhos e outras maravilhas. Frida era ótima cozinheira e se regalava com o desmedido apetite de Diego.

No andar de cima em um nicho do corredor fica a cama de Frida. Na convalescença de tantas cirurgias, tornou-se pintora e mandou colocar sobre a cama um espelho para pintar seus autorretratos. Ao lado, em uma espécie de varanda fica o ensolarado ateliê com tintas, pigmentos, pincéis, e sua cadeira de rodas diante do cavalete. Igualmente bonito e triste.

ilustração vestidos de Frida

Os vestidos de Frida
Ilustração: Reali Servadei

Em anexo à casa, a exposição permanente, “As aparências enganam”, mostra os vestidos, saias rodadas e longas, as huipiles, que são batas bordadas com flores ou grafismo mexicano, o vestido de casamento, xales, sapatos, botas, colares, enormes brincos, perfumes, próteses e coletes ortopédicos da pintora. Também vemos os enfeites de cabelo. Ela fazia grossas tranças que rodeavam a cabeça entrelaçadas a fitas e flores.

Poucos países têm uma pessoa a quem a gente pode dizer “se vc quer conhecer a verdadeira alma deste povo, conheça essa mulher”. Em seus retratos vemos seu olhar inquietante. Em carta a um amigo pintor, Pablo Picasso escreveu: “Olha esses olhos. Nem você nem eu somos capazes de nada parecido”.

E, assim também é o bairro dos coiotes, Coyoacán, espécie de fotografia de um México frenético e apetitoso. Eletrizante. Nada igual no mundo.

 

 Virgen de la Guadaloupe

Nem a Virgen de la Guadaloupe enflorada e coroada de angelitos, escapou da sanha colorista mexicana
Ilustração: Reali Servadei

Quando ir:
Viaje com quem é de lá: Aero México que oferece voos diretos São Paulo-Cidade do México e com mega promoções

Quem organiza: Operadora Sanchat Tour que está há mais de 25 anos no mercado

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