Em Cunha, driblando a pandemia

 Em Cunha, driblando a pandemia

Heitor e Sílvia Reali

06 de julho de 2021 | 18h39

         

Contemplário. E não é que os pesquisadores da Universidade do Kansas descobriram que o aroma da lavanda diminui as ondas cerebrais? Daí que encoraja a meditação e apazigua a mente
crédito: viramundo e mundovirado

Não fui eu que decidi voltar a viajar, foi a vida. Assim, seguindo a bola cantada de toda segurança contra o covid-19, e não dando um passe, opa! passo, em falso, parti. Precisava de uma viagem panorâmica, daquelas com um caleidoscópio de paisagens, sem roteiro ou guia. Um lugar no qual posso exercer a liberdade e a imaginação. E, Cunha, a 240 quilômetros de São Paulo, foi a escolha natural. Uma viagem para lá tem mais camadas do que uma cebola tamanho família.

crédito: viramundo e mundovirado

Há em Cunha experiências para todos os sentidos. Até para aqueles escondidos na alma. As fadas, dizem os nórdicos, aparecem ao amanhecer nas montanhas e bosques, entoam canções mágicas nos ouvidos das pessoas e enchem-lhes o coração de pensamentos encantadores. Essa sensação, senti logo na neblinosa madrugada do primeiro dia no jardim da Pousada Candeias, e se prolongou depois nas caminhadas pelos campos de lavanda do Contemplário.


Utilizada como incenso, ou algumas gotinhas colocadas no difusor de aromas, dizem as bruxas que favorece o amor e mantêm a harmonia nos relacionamentos
crédito: viramundo e mundovirado

Foram os romanos fissurados por banhos em termas que aclamavam que a lavandula, do latim lavare, lavar, era a erva perfumada para esse momento de trégua. Mas a lavanda ganhou a palma de ouro entre os franceses que adoram perfumes. Nas terras da  Provença, quase toda forrada dessas florzinhas, viajantes vão para ver, fotografar aquela beleza toda, chamada de ‘tesouro azul’.

E, agora a lavanda escolheu deixar Cunha cheirosa.

Assista o vídeo ‘A viagem da lavanda’

Pico da Macela
crédito: viramundo e mundovirado

Se o aroma se fixa entre as flores da lavanda, prestei atenção no vento que sopra entre as araucárias, rico em modulação. Ele se fez mais presente nas caminhadas que para mim são outra forma de resetar a mente. Caminhar, um desafio nas subidas e descidas, no encantamento das paisagens a cada curva. Dizem que só vemos a realidade de um lugar quando conhecemos as pessoas que ali vivem. Será sorte o que tive, ou a hospitalidade é a personagem principal dessa região?

Cunha concilia para os trekkers e ciclistas montanhas e cachoeiras. Para as primeiras, a mais alta é a imponente Pedra da Macela, com 1.840m de altitude, onde em dias claros, se avistam a baía e a cidade de Paraty, a Baía Grande e Angra dos Reis. A subida é íngreme, mas a vista lá do alto vale, e muito, todo esforço. Depois da suadeira na trilha da Macela, mergulhar na cachoeira do Pimenta é só para corajosos.


Cerâmica de alta qualidade e beleza são produzidas nos fornos do dragão ou noborigama
crédito: viramundo e mundovirado

Existem aquelas viagens que nos marcam na memória, não apenas pelas paisagens, mas também por algo a mais, como seus habitantes levam a vida. Nessa pegada fui conhecer a cerâmica produzida nos ancestrais fornos do dragão, ou como é mais conhecido Noborigama. Essa técnica de origem chinesa se baseia em fornos de quatro a cinco câmaras, construídos em rampa. As peças queimam durante 35 horas, atingem temperaturas até 1.400º centígrados, e demoram três dias para esfriar. O resultado é uma cerâmica de grande qualidade, resistência e beleza. A visita se estendeu por três ateliers, todos com peças de bela feitura, cores e texturas originais: Aldea Terras de Cunha, Suenaga & Jardineiro e Flávia Santoro.

Cogumelo shiitake do Fruto da Serra
crédito: viramundo e mundovirado

O ideal da vida é a variedade e a intensidade das experiências, e dando continuidade ao conceito de minhas viagens nas quais sempre procuro esse bisogno de piú – esse preciso ver mais – fui ao encontro do cultivo do cogumelos shiitake, do produtor Milton de Andrade, no Fruto da Serra Shiitake. Seu conhecimento e dedicação se revelam na qualidade desses cogumelos, excelentes fontes de vitamina B, C, D, além de incluir potássio, fósforo, cálcio, magnésio, ferro, cobre, e utilizados, desde a antiguidade na medicina chinesa.

Lombo suino com risoto de pinhão da Casa da Serra
Restaurante do Gentil
crédito: viramundo e mundovirado

E no gancho dos cogumelos, como não falar da gastronomia para uma cidade cujo primeiro nome foi “Boca do Sertão”? Isso lá pelos idos de 1695, no tempo das carruagens pela Estrada Real. A paragem obrigatória de todos os tropeiros que iam de Minas a Paraty, virou vila, virou cidade. E a culinária serrana, comida de fazenda ganhou fama. Sabores e saberes que fazem parte do patrimônio de Cunha.

Um roteiro gastronômico vale um artigo exclusivo que fica para outra vez. Como sempre acontece, nesses casos, haverá omissões, mas que fazer? Mas de uma coisa estou certo de que a relação que segue agradará aos amantes da boa gastronomia, pois ali se encontram pratos com receitas para todos os paladares, em que se mesclam os melhores sabores: Il Pumo Gastronomia, Fruto da Serra Bistrot, Restaurante Quebra Cangalha, Casa da Serra Restaurante do Gentil, Restaurante do Gnomo, Canto das Cachoeiras e O Olival. E, para se abastecer de queijos artesanais meu pedido vai para o Mantiqueira 151.

Não é preciso ir longe para encontrar inspiração para o dia de hoje
crédito: viramundo e mundovirado

Não há ponto final numa viagem a Cunha. Mas é o escritor Julio Cortázar que melhor fecha essa prosa: “há uma hora em que desejamos ser nós mesmos. É o momento que a porta se abre para nos deixar ver o campo onde relincha o unicórnio.”

crédito: viramundo e mundovirado

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