Fantasiando a viagem

Fantasiando a viagem

Heitor e Sílvia Reali

28 de maio de 2020 | 15h53

Arcadas da Academia de Direito do Largo de São Francisco
aquarela de J.W.R

Enfurnados no abrigo antivírus em que nossas casas se transformaram, resolvi pensamentear em viagem a uma São Paulo antiga. Para atiçar o pensamento, busco não as descoradas fotos de época em tons sépia mas as aquarelas do artista José Wasth Rodrigues. Ao colorir as velhas imagens, o historiador, desenhista e pesquisador Rodrigues, nos aproxima muito mais de uma realidade que ficou esquecida no passado. E a trilha sonora que escolhi para avivar essa viagem é o mais belo trecho da ópera Nabucco de Giuseppe Verdi: “va, pensiero, sull’ali dorate” (vai pensamento, sobre as asas douradas).

Igreja e Convento do Carmo
aquarela de J.W.R.

Convento do Carmo
Igreja e Convento do Carmo, o coração de São Paulo sob o celeste do céu. Cantante passa um carro de junta de bois, dois guias e dois cabeçalhos, guiados pelo candeeiro e rangendo as rodas, como dizem por aqui. Esse primeiro veículo de transporte do Brasil, carrega de pedras a cana de açúcar e até noivos para o casamento. Faça chuva ou sol, ninguém sai de casa sem um chapéu e o inseparável guarda-chuvas, pois, a cidade é a ‘terra da garoa’.

Rua 15 de Novembro
aquarela de J.W.R.

Rua 15 de Novembro
Antes era Rua da Imperatriz, mas agora o nome é para fixar na memória a data da República. Nas ruas onde andar era uma aventura dando topadas nas pedras não parelhadas e de má qualidade, circulam escravos libertos carregando mercadorias para as lojas de fachada colonial. O casarão amarelo ostenta janelas em muxarabiê, detalhe da arquitetura árabe que chegou com os portugueses. As treliças em madeira têm a finalidade de sombrear o interior, sem perder a ventilação. Mas, a valia maior delas é que as sinhazinhas podem espiar os rapazes solteiros e o movimento das ruas sem serem observadas.

Igreja da Consolação,
aquarela de J.W.R.

Igreja da Consolação
Diante da fachada colonial que ganhou um doce tom azul bebê, contra o céu límpido, o que mais se ouve são andorinhas e maritacas. No piso coberto de pedregulhos e saibro, o quiosque ao estilo francês belle époque vende refrescos, e as escravas forras, conhecidas como quitandeiras, costumam passar equilibrando os tabuleiros na cabeças. Um pano alvo protege as iguarias como cocada-de-fita, pé de moleque, broas, biscoitos, e uma aguardente de cana recém-chegada do engenho dos ex-patrões.

Rua Direita
aquarela de J.W.R.

Rua Direita
Na região da Sé fica uma das mais movimentadas ruas do centro que termina na Praça do Patriarca, com a Igreja de São Pedro dos Clérigos ao fundo. Na Direita, vivem alguns barões, há também sobrados de comércio variado no térreo e moradia da família no andar de cima. As lojas têm o costume herdado dos mouros, vindo com os espanhóis e portugueses de pendurar os artigos na fachada, de roupas e redes a utensílios para a lavoura.

Quem foi que disse que viajar hoje é impensável? Não viajamos nos poemas, nas telas, na música? Também podemos viajar nos sonhos ou acordados com a ajuda das poéticas asas douradas do pensamento.

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