Inhotim, Eldorado das Artes Contemporâneas

Inhotim, Eldorado das Artes Contemporâneas

Heitor e Sílvia Reali

22 Novembro 2018 | 11h03

 


 

Inhotim

Jardim de Narcisos. de Yakoi Kusama
crédito: Viramundo e Mundovirado

Se a primeira impressão fosse tudo, talvez não déssemos a menor bola para Brumadinho, a 60 quilômetros de Belo Horizonte, pois a estrada segue paralela a uma paisagem sem atrativos. Mas quando nos aproximarmos do centro dessa cidade de 30 mil habitantes nosso olhar se rende: ela não apenas lembra uma vila do século 19, com seu casario colonial e carroças puxadas a cavalo, como reúne uma multidão de carros e pessoas, o que indica a presença de algo mais, além das lojas de artesanato e restaurantes.

Inhotim

obra de Helio Oiticica
crédito: Viramundo e Mundovirado

Brumadinho, que quase sempre amanhece envolto em névoas, ganhou desde 2006 um lugar de destaque no turismo de arte em nosso país assim como mundo afora. Ali, em um espaço cavado no contraste da exuberante mata atlântica com a frieza de montanhas nuas devastadas por mineradoras, entre o sol e a bruma, nasceu o Instituto Inhotim, centro de arte contemporânea e jardim botânico. Museu a céu aberto, que se espalha em área de 110 hectares, e considerado caso único no Brasil quando se fala em arte contemporânea.

Inhotim

Se Inhotim é prato cheio para as experiências sensórias da visão e dos aromas, ela também tem seu ponto forte no canto das aves
crédito: Viramundo e Mundovirado

Conta-se uma historinha – já que estamos em terras mineiras – que o nome Inhotim provém, do antigo proprietário dessas terras, um inglês de nome Tim, e chamado em bom ‘mineirês’ de nhô Tim.
Já na chegada ao Instituto uma coisa fica evidente: Inhotim é exibicionista, e muito mais na primavera. Tudo ali se projeta com o propósito de cativar os sentidos. Palmeiras sussurram anunciando idílicos jardins. Em sua maioria desenhados por Luiz Carlos Orsini os jardins acolhem lagos, pavilhões e galerias. Cada um se ergue em visão futurista: são projetos assinados por arquitetos de fama inconteste que, por sua vez, abrigam obras de artistas do primeiro time nacional – Lygia Pape, Tunga, Cildo Meireles, Hélio Oiticica, Adriana Varejão, Miguel Rio Branco – assim como de outros países. Dentre eles Matthew Barney, Yayoi Kusama, Doug Aitken, Chris Burden, Olafur Eliasson, Rirkrit Tiravanija.

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Pavilhão Som da Terra, de Doug Aitken
crédito: Viramundo e Mundovirado

As instalações cutucam a imaginação. Cabe ao espectador decidir como vê a arte ali exposta e interpretar o que o artista materializou. O que importa são as sensações! Difícil citar apenas uma ou outra, mas vamos lá: é o que acontece com o Sound Pavillion. Além de oferecer uma vista magnífica do lugar, o toque mágico está em ouvir, lá dentro, em tempo real, o som que vem do profundo da Terra. Depois, entre caminhos tortuosos e sombreados, dois enormes domos geodésicos de aço e vidro abrigam gigantesco trator que ergue uma árvore de resina. Já nos jardins emoldurados pelo volume das montanhas e do céu, nos deparamos com uma árvore de bronze suspensa por hastes metálicas em meio a cinco outras, estas de verdade, naturais, sobre um descampado de terra vermelha. Outra instalação tem enormes vigas de ferro que lançadas numa poça de cimento criaram uma escultura que arrepia, pois lembra os destroços de 11 de Setembro.

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Viveiro Educador – O viveiro se constitui um complexo horticultural destinado a pesquisas científicas, manutenção da coleção botânica e atividades educacionais.
crédito: Viramundo e Mundovirado

O patrimônio de Inhotim vai além do artístico. Inclui o objetivo de intensificar a propagação de plantas nativas, popularizando o conhecimento da flora brasileira, assim como fomentar a educação ambiental, os estudos e resgastes florísticos e a catalogação de novas espécies botânicas. Por isso, desde 2010, Inhotim é também o mais novo Jardim Botânico do Brasil.
Em área de 100 ha abriga 4.800 espécies distribuídas em 167 famílias botânicas. Os destaques ficam por conta das 1.300 variedades de palmeiras – que incluem essa coleção entre as maiores do mundo – além da significativa coleção de orquídeas e bromélias, e do acervo de 500 espécies de Araceae (imbé, antúrio e copo-de-leite), cuja expressividade o coloca como o maior do hemisfério sul. Mas é apenas uma parcela de um país detentor da maior diversidade floral do mundo.

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Exposições permanentes de artistas brasileiros e estrangeiros
crédito: Viramundo e Mundovirado

Criado pelo empresário Bernardo de Melo Paz, o Instituto Inhotim tem ambição de ser referência em arte contemporânea no País e, claro, no mundo. Seu acervo hoje conta com mais de 600 obras, 80 delas em exposição e de vários artistas brasileiros e estrangeiros. No entanto, assim como no conto “O Edifício”, do escritor mineiro Murilo Rubião, cuja construção não tem fim, o centro de arte nunca será finalizado: a cada ano surgirão novos pavilhões, e outras instalações serão distribuídas em seus jardins paradisíacos, fazendo de Inhotim um polo permanente de inesquecíveis experiências sensoriais. 

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crédito: Viramundo e Mundovirado

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