Museu Van Gogh – muito mais do que se vê

Museu Van Gogh – muito mais do que se vê

Heitor e Sílvia Reali

30 Junho 2018 | 19h35

 

O Velho Camponês, de Van Gogh

Detalhe quadro “O Velho Camponês”
crédito: Viramundo e Mundovirado

 

Até agora, mesmo passados tantos anos, não consigo encontrar uma definição para o meu amor por Vincent. O afeto e a busca dessa razão me aproximam cada vez mais dele – e de sua arte. Por isso fiz tantas viagens à procura de Vincent. Ainda assim continuo sempre girando nesse misterioso e apaixonante redemoinho.


 

Ilustração Reali Servadei

Em muitas das cartas, Vincent desenhava o quadro que estava realizando para que seu irmão Theo pudesse acompanhar seu trabalho. No museu elas ganharam o status de painéis, atentando os visitantes para o vigor e a espontaneidade das pinceladas
ilustração: Reali Servadei

Uma das viagens foi ler as 700 cartas confessionais que ele escreveu ao irmão Theo. Ali está, em palavras, sua pintura. As cartas escritas em Auvers-sur-Oise, por exemplo, falam de seu entusiasmo pela paisagem e pelos trigais amarelos que anseia transformar em telas luminosas. Viajei então para esse lugarejo francês onde Vincent viveu seus últimos 70 dias, criou mais de 30 desenhos e 70 quadros. Hoje, muitos deles ocupam lugar de honra nos grandes museus do mundo. Em Auvers, no interior de seu quarto minúsculo e sem janelas, dotado apenas de uma claraboia no teto, me perguntei como terá sido ficar nessa cela para quem sempre buscou a luz. Contudo ali não há nem mesmo uma única tela sua para ser admirada. Pude, porém, seguir os passos de Vincent e observar o que ele pintou – a igreja, os campos de trigo, e as casas vizinhas – buscando entender o que existe além do que meus olhos alcançam.

 

ilustração Reali Servadei

“ Jovem camponês”
ilustração: Reali Servadei

Mas eu queria mais. Queria ficar frente a frente com Vincent. Que perigosa aventura! Queria sentir seus gestos, o movimento do pincel naquela massa quase argilosa em que transformava a tinta espessa. Ver sua ousadia ao pintar o que nunca antes fora retratado, como o sol visto de frente, a turbulência, o movimento da luz e das estrelas.

Foi quando o inesperado fez a vida virar do avesso e me colocou a um passo desse desejo. No guichê da companhia aérea me disseram que devido ao cancelamento da minha conexão, poderia fazer stopover ali em Amsterdã. Teria quase 24 horas na cidade! Pensei nos canais, na arquitetura das casas em tijolos aparentes, no mercado flutuante de flores, nas casas-barcos, nos cafés. Não é algo que poderia tirar no cara e coroa. Mas topei de imediato, porque era a hora: iria ao encontro de Vincent.

ilustração: Reali Servadei


Bikes são o transporte mais utilizado pelos holandeses, e por nós para chegar ao museu
ilustração: Reali Servadei

Escolhi um pequeno hotel próximo do museu porque desejava chegar como os holandeses que ziguezagueiam por toda a cidade de bicicleta. Afinal, eu me sentia em casa, como acontecia diante dos quadros, já que sempre os vi dentro de mim.

Nas primeiras horas da manhã eu me plantei em frente ao Museu Van Gogh. O projeto do edifício tem a assinatura do arquiteto holandês Gerrit Rietveld, criador, inclusive, da mítica Cadeira Vermelha e Azul. Em 2016 um imponente hall todo em vidro foi acoplado ao museu para, segundo os arquitetos, capturar a mesma atmosfera ensolarada que se desprende das pinturas. Só que uma placa, bem no meio do caminho, jogou por terra meu entusiasmo apaixonado: D’ONT TAKE PHOTOS.

Ilustração: Reali Servadei


Museu Van Gogh sempre lotado de visitantes
ilustração: Reali Servadei

O segundo aviso foi o golpe de misericórdia: “Deixe todos os seus pertences nos armários” . Um caderninho de anotações pode? E alguns gizes de aquarela? Yes! Tô salva, poderei colher minhas recordações em desenhos! Como dizia Ferreira Gullar: “Quem ama a pintura sabe que a pintura é fonte de palavras”. Agora, finalmente dentro do museu, meu coração me sacudia o peito.

Não estava sozinha, são centenas de visitantes. Sonhei durante anos com esse espaço como lugar sagrado, e me via na maior muvuca, com dezenas de pessoas rodeando cada tela. Ah, fosse eu a rainha da Inglaterra nessa hora! Ela manda fechar toda uma loja de departamentos só para fazer suas compras em real sossego. Na falta de tanto poder, aguardei paciente a minha vez.

Mesmo distante das telas, o impacto das cores exaltadas e a dramaticidade dos traços me causavam um sentimento que nunca sentira diante das reproduções nos livros.

 

ilustração: Reali Servadei

“O Mar em Saintes-Maries”
Ilustração: Reali Servadei

Nas telas, são linhas de extraordinária força, quase sempre para o alto, sejam ciprestes, roupas, mar, rugas, galhos, ramos de flores, listas, rio, trigal ou simples telhados de sapé.

Vi pessoas de vários lugares do mundo conversando umas com as outras e expressando ideias as mais diferentes. E elas notavam coisas que eu nunca havia imaginado. Reconheci na sequência a igreja, os campos de trigo e as casas de Auvers-sur-Oise. Também me debrucei quase sem fôlego sobre originais das cartas a Theo.

 

ilustração: Reali Servadei

“O quarto de Vincent em Arles”
ilustração: Reali Servadei

Um dos quadros, “Noite Estrelada”, até hoje desafia explicações. Será que Vincent conseguiu, mais do que sentir, ver a pulsação do universo? Outra tela instigante retrata seu quarto em Arles, que ele descreve com simplicidade a Theo: “as paredes são violeta pálido, o chão de ladrilhos vermelhos. A madeira da cama é o amarelo da manteiga fresca, os travesseiros e o lençol são de um verde limão muito claro. A colcha é vermelho escarlate. A janela, verde”. Na tela, tamanha simplicidade ganha uma força extrema.

Os persas definem em um ditado perfeito a intensidade com que olhamos algo, tal como eu olhava o quadro: “Tinha dois olhos e pediu mais dois emprestados”. Anna e Jan, casal de Haia, que puxaram conversa comigo, acreditam que Vincent conseguiu traduzir nesse quadro o gezellig – aconchego e conforto – algo cultuado por todos os holandeses.

 

ilustração: Reali Servadei

Um dos canais de Amsterdã com as casas de telhados escalonados
ilustração: Reali Servadei

Seduzidos pela vitalidade que emana de seus quadros, todos querem levar Vincent para casa. E eu, mais ainda! A grande loja do museu oferece artigos os mais inesperados, desde óculos, sacolas, e guarda-chuvas, passando por canecas, camisetas e echarpes, até vestidos e malas com estampas de girassóis, estrelas, campos de trigo.
Deixei o museu com um sol dentro do peito, e outro se refletia sobre os canais margeados pelos prédios baixos, onde as gaivotas são donas dos telhados escalonados.
Descobri que museus são o retrato de um país, e o Museu Van Gogh é outra viagem dentro de Amsterdã.
E, quero mais.

Museu Van Gogh: Museumplein 6, Amsterdã
Saiba mais sobre horários e compra de ingressos em www.vangoghmuseum.nl

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