Na Noruega, uma hospedagem iluminada

Na Noruega, uma hospedagem iluminada

Heitor e Sílvia Reali

25 de fevereiro de 2020 | 12h18

Farol de Ryvarden (1849), em Sveio, oeste da Noruega
crédito: visitnorway

Nada como acordar em um pequeno espaço no topo de um rochedo, com vista panorâmica da natureza selvagem do litoral norueguês, com seus fiordes e falésias. O mar, naquela hora, estava daquele jeitão com toda sua estranha violência. Suas altas ondas partiam para cima e sem freio arremessavam-se contra as rochas e a cada encontro criavam um rebuliço de espumas que se diluíam em névoas. A moldura sonora orquestrada pela algaravia de gaivotas arrebatava. Não via algo assim, desde “Os Pássaros” (Alfred de Hitchcock, 1963), só que desta vez real. Ventos que surgem sem cerimônia de todos lados, completam este lugar que permite um clima fantasioso para sonhar e estar só. Um farol!

Lindesnes Farol (1656), no extremo sul da Noruega é um dos mais procurados pelos viajantes que buscam experiência única
crédito: visitnorway

Algo me fascina nessas sentinelas do mar. Recentemente o filme “O Farol” (Robert Eggers, 2019), na sua ambiguidade entre sonho e o real, e mais no HQ “Solitário” do cartunista Christophe Chabouté sobre a vida de um faroleiro, trouxeram-me de volta o desejo de viver um tempo num farol. O farol deseja ser visto com os olhos do passado, de um tempo em que na literatura era um dos grandes instigadores de histórias de sonhos ou terrores. Mas a grande maioria deles vai se apagando graças ao GPS e outros avanços tecnológicos. E pensar que uma fogueira encimava o mítico farol de Alexandria, que com quase 100 metros de altura era uma das Sete Maravilhas do Mundo Antigo e destruído no século 14.

Muito mais que as imagens sugerem, por trás do farol está seu enigma que se desdobra em mitos e símbolos, mas não quero entrar nessa questão. Só sei que o prazer das novas descobertas e o acaso no meu flanar pela Noruega me levaram a um farol-hospedagem.

Interior de um dos quartos do Ryvarden Farol
crédito: visitnorway

Dos mais de 200 faróis da costa norueguesa, aproximadamente 60 foram transformados em originais pequenas hospedarias, a maioria no sudoeste do país. Locais para reviver a epopeia dos faroleiros em perfeita solidão, ‘a tu per tu con il mare e il vento’, como diz um ditado italiano. As acomodações, geralmente na casa do guarda-farol, são simples mas aconchegantes. A sensação de pernoitar numa hospedagem singular incentiva o viajante a novas emoções. É aí que a imaginação fértil brilha. “Estou aqui”, parece dizer a sentinela do mar quando seu feixe de luz dá uma volta percorrendo a escuridão. “Eu estou só no Universo”, grito. Impossível não se abastecer de reflexões num lugar desses.

Andenes Farol, na ilha de Andoya, litoral de Tronso, norte da Noruega. Se hospedar num farol e ainda de bônus observar a aurora boreal, aí é demais, não?
crédito: visitnorway

Tempo e esforço são necessários para chegar em alguns deles, pois muitos são acessados só de barcos. Algo que gosto, porque o trajeto já é destino. De repente, o perfil majestático e lá está ele, em contraluz, no meio do nada, numa única rocha às vezes do tamanho de uma quadra de tênis que aflora à superfície do mar.

Devido à sua localização idílica e dramática de frente para o mar, essas hospedagens são cada vez mais populares para experiências únicas. Portanto dependendo da época, principalmente verão, é preciso fazer reservas com antecedência. Considere também verificar se a hospedagem é completa, ou como é comum na Noruega precisar levar sua roupa de cama e banho. Em muitos dos faróis também é necessário levar comida.

Lyngor Farol. Aqui vale um historinha pitoresca. Quando cheguei para me hospedar no farol, uma inglesa que se hospedara sozinha por três dias deixava o lugar. Conversou comigo com tanta vivacidade que me sugeriu uma Penélope quando do retorno de Ulisses
crédito: Rune L. Larsen

Depois de duas noites, e uma delas embalado numa orgia de trovões, deixo o farol de Lyngor, na ilha de Kjeholmen, em Tvedestrand, a 240 km a suldoeste de Oslo, com o desejo extraordinário de horizontes sempre novos, e o fôlego de ir adiante e buscá-los.

 

crédito: viramundo e mundovirado

 

 

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