Neuquén, odisseia visual

Neuquén, odisseia visual

Heitor e Sílvia Reali

06 de setembro de 2019 | 16h55

Rochedos com pouca neve nas encostas

Tem hora que a gente precisa de aventura na veia, e a adrenalina é Neuquén na Patagônia argentina
crédito: viramundo e mundovirado

Neuquén na Patagônia argentina é suspense à moda antiga para os viajantes que procuram suas próprias descobertas. Em toda e qualquer época do ano. Seus espaços, verdadeiras guloseimas visuais, em milhares de anos não ganharam cicatrizes. Oops! Mentirinha. Algumas regiões ali sofreram ataques furiosos de vulcões, mas estes não contam, certo?

Diferente da ciclópica empreitada descrita por Homero, e a fim de aventurar-me em suas estações arteiras – inverno, verão, outono – voei para lá nessas três épocas distintas. Cruzei de norte a sul essa região que já é xodó para campeonatos mundiais de rafting, motocross, e corrida de montanha, e quando a natureza deixa de ser coadjuvante para ser protagonista. E são nessas paisagens que minha odisseia visual vai ser revelada, não em versos, mas em capítulos.

Capítulo 1- De volta a Era do Gelo

Pequena idade em frente a um lado e rodeada de montanhas nevadas

Dentre os novos e alternativos circuitos para curtir neve, Caviahue está na linha de frente
crédto: viramundo e mundovirado

O inverno glacial bateu às portas! Foi a primeira impressão quando cheguei em Caviahue, noroeste da capital neuquina, quase fronteira com Chile. A vila é rodeada de montanhas cobertas do glacê branco da neve, riscada pelo desenho das araucárias e bordeja um lago que reflete a luz dourada do dia, ou a lua. Pode haver localização melhor? Não há apelo de badalação dos resorts de neve nem mesmo de cidade como centro de esqui, repleta de atrativos alternativos. Em Cavihaue vive-se a neve.

É nessa geografia que minha aventura começou. Ali encontrei todo tipo de acomodações: hotéis com arquitetura e design modernos, hosterias, apart hotéis e chalés em madeira. Em todos, reina a gastronomia regional argentina, que nessa estação fria deve ser bem calórica e acompanhada pelos vinhos emblemáticos – malbec ou torrontés.

Pewquena aldeia praticamente soterrada por neve


Copahue, viagem real com toques de fantástico
crédito: Viramundo e Mundovirado

Todas as atividades de neve podem ser curtidas: esqui, snowboard, trenó puxado por cães, moto de neve, patim sobre gelo, e o meu preferido, o esqui nórdico. Diferente do alpino que se pratica em descenso em pistas especiais nas encostas montanhosas, definidas pelo grau de dificuldade, o nórdico é praticado em trilhas pré-estabelecidas e de acordo com o preparo físico. Em Caviahue essa atividade é pra lá de especial porque dá para andar pelas trilhas iluminadas pela luz do luar.

Na manhã seguinte pensei que nada se rivalizaria com o passeio sob a lua. Não é que foi ainda melhor? Pude alcançar a cratera do vulcão Caviahue (2.700m) em veículo equipado com esteiras. Na subida depois de uns 17 quilômetros, fiz uma pausa na pequenina Copahue, que para mim era onde começava o reino do gelo. Os telhados eram a única pista a indicar que haviam casas debaixo daquele montão de neve. Os moradores durante o inverno até precisam abandonar a vila que fica completamente soterrada. Só o riacho e suas bordas ficam livres porque a água que corre é quente. Aliás ferve, pois são as termas de águas sulforosas e as fumarolas a sinalizar que o vulcão mora ao lado.

Outro esporte que curti como menino foi o sledge (trenó), ou seu primo rico o skeleton onde a gente fica de bruços. Mais do que um esporte é uma travessura. Descer encostas nesses trenós conduz ao túnel do tempo e me fez voltar à infância. Não por menos o último cartoon da série “Calvin e Haroldo”, de Bill Watterson, termina com os dois gritando “vamos explorar!”.

Capítulo 2- Seduzido pelas cores

Casa de madeira rodeada por uma floresta de folhagem colorida

Na Villa La Angostura há aldeias mapuches, gastronomia com produtos únicos, e o outono onde a natureza carrega a paleta de pintor expressionista
crédito: viramundo e mundovirado

Do inverno com paleta minimalista em sutis e frias tonalidades de branco para o expressionista em tons quentes do outono. Ulisses tapou os ouvidos para não ser tentado pelo canto das sereias, mas fecharia os olhos para não ser atraído pelas paisagens multicoloridas da Villa La Angostura? Localizada ao sul da capital Neuquén, a vila e o outono foram feitos um para o outro! Não quero dizer que nas outras estações do ano a natureza não prestigie essa localidade, longe disso.

Mas, viajei para lá em busca do céu azul cobalto, da temperatura agradável e amena, e da atmosfera irreal criada pelas cores que a envolvem no outono. As florestas se estendem em todas as direções com sua folhagem ruiva em vibrantes tons de amarelo, carmim, rosa e vermelho. Já os caminhos atapetados pelas folhas embaralhadas nessas cores formam o verdadeiro tapete mágico.

Para melhor aproveitar minha estadia, aluguei uma bike e fui direto ao coração da vila. Na rua principal ficam as boas lojas de roupas esportivas, e o centro de viajantes onde encontrei mapas e opções de passeios. Me abasteci de chocolates artesanais, e saí pedalando para ver o ‘menor rio do mundo’, o Correntoso – da nascente a foz são apenas uns 200 metros.

Trilha num campo outonal

Na Villa La Angostura o protagonista é o outono
crédito: viramundo e mundovirado

Quem curte pesca esportiva chegou ao lugar certo, pois, as águas geladas e cristalinas dos rios são criadouros de trutas arco-íris, marrom e a fontinalis. Eu, mais speed, embarquei num caiaque sobre as águas do lago Nahuel Huapi, nome que significa Ilha do Jaguar no idioma dos mapuches, os primeiros habitantes dali.

Reservei uma tarde toda para conhecer o Bosque de Los Arrayanes. A pé são três horas de caminhada, mas pode-se também ir de bike. Desta vez escolhi um percurso mais prazeroso a bordo do catamarã Futaleufú, e de onde tive outro panorama das montanhas, das casas de veraneio e dos bosques. Na ilha os arrayanes, árvores de troncos com especial cor de avelã e geladíssimos ao toque, são preservados assim como o solo ao redor. Caminha-se sobre passarelas e no final de percurso há a Casita del Té onde os viajantes se abastecem de pedaços de tortas e bolos recém-saídos do forno. Quem há de resistir?

Capítulo 3- Terra de Titãs

Mulher observa fóssil de um grande dinossauro

Neuquén é casa dos dinos
crédito: Viramundo e Mundovirado

Uma trilha para o novo, sem tirar os olhos das paisagens desconhecidas, assim defini minha viagem pelo deserto patagônico, enorme e enigmático. No verão a beleza é a interminável meseta em tonalidades ocres e cinzas, e o horizonte a perder de vista. Viajei em busca das histórias dos fósseis dos maiores dinossauros já encontrados em todo o mundo. Ali, sob uma paisagem que foi deixada para trás pela evolução do mundo, e tendo o vento como amigo frequente, se esconde um dos depósitos mais ricos e diversificados desses fósseis do período Cretáceo (145 a 65 milhões de anos atrás), do planeta.

Assim fui direto para a pequena cidade de Plaza Huincul, 107 km da capital, onde se encontra o Museu Carmen Funes. Ali está o fóssil do Argentinosaurus huinculensis, com 30 metros de comprimento, 16 de altura e pesando ao redor de cem toneladas. Até pouco tempo atrás o número 1 desses colossais quadrúpedes. A surpresa maior foi meu encontro com o Giganotosaurus carolini, equivalente sul-americano do T.rex. Só que, com 14 metros de comprimento e pesando oito toneladas, rebaixa os tiranossauros americanos a categoria pesos-penas se comparados ao argentino.

Quatro rafters contra uma correnteza forte

Rio Aluminé. Descida dos botes nas águas agitadas levados pela forte correnteza, desviando de redemoinhos, com rafters que não querem saber de moleza. O rafting é fotogênico!
crédito: viramundo e mundovirado

De volta a estrada, raramente topava com um oásis formado por casinha rodeada de álamos plantados lado a lado para bloquear o vento, ou rio prateado serpenteando as areias monocromáticas do deserto. Depois de 200km, em uma sucessão de cenários cativantes, me aproximei de Villa Pehuenia, hoje uma das capitais argentinas de aventura.

As trilhas ao redor do povoado são ponto de encontro para cavalgadas, trekkings e para montanhistas. Os lagos Moquehue e Aluminé e o rio de águas raivosas são os preferidos para os esportes aquáticos, nos quais sobressaem a canoagem e o rafting. Atividades emolduradas pelo vulcão Batea Mahuida, com sua cratera quebrada por tremenda erupção, nos contrafortes da Cordilheira dos Andes.

Rio com correnteza forte entre pequenas montanhas

Dentre os prazeres da viagem estão as novas descobertas
crédito: viramundo e mundovirado

Deixo pra trás Neuquén, o verão, inverno e o outono. Contudo, nesses capítulos não contei o vivi em detalhes como o escritor grego. Não. Compartilho da opinião de outra artista, a chilena Isabel Allende, “ … não se deve revelar tudo sobre um lugar, para que o viajante também possa fazer suas próprias descobertas.”
Se, ser original no terreno de viagens é o desafio, como despertar para o novo? Neuquén, em geral, tem as respostas.

Casal embaixo de árvore outonal

Quando a gente não conta as boas descobertas, as conquistas permanecem desconhecidas. Por isso compartilho Neuquén
crédito: viramundo e mundovirado

Mais informações: www.neuquentur.gob.ar

Considere quando ir:
Em Neuquén, capital:
Hotel Suizo, www.suizo.com.ar: excelente localização, ao lado das praças principais da cidade. Confortável e com bom café da manhã.
Em Villa La Angostura
Sol Arrayan Hotel & SPA, www.solarrayan.com. Excelentes acomodações em um hotel que privilegia a natureza
Onde comer:
Tasca Restaurante Placido, tel.0294-4495763
Restaurante Viejo Tiempos, www.viejostiemposrestaurante.com
Passeio a cavalo:
Cavalgada del Tero: terocab@hotmail.com, tel.: 294.15.4510559
Mais em: www.villaangostura.gov.ar
Em Villa Pehuenia
Hosteria Al Paraiso, www.pehueniaalparaiso.com.ar
Mais em: www.villapehuenia.gov.ar

Em Caviahue
Hotel Ignea: www.igneacaviahue.com.ar. Hotel butique com vista privilegiada do lago
Mais em: www.caviahue-copahue.gov.ar

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