Notre-Dame de Chartres e seus enigmas

Notre-Dame de Chartres e seus enigmas

Heitor e Sílvia Reali

26 de maio de 2019 | 17h36

Catedral de Chartres

Uma das laterais da Catedral de Chartres
crédito: Viramundo e Mundovirado

Imagino se ao invés da dama gótica de Paris fosse a dama de Chartres destruída pelo fogo, a perda histórico-cultural teria sido muito maior. Ambas catedrais têm valioso interesse arquitetural, guardam relíquias sagradas, e são um passeio iluminado pela arte dos vitrais, além de obras-primas na arte da escultura e da pintura. A primeira, do século 12, tem o charme de estar em Paris, na Ile de la Cité, um dos lugares mais icônicos da França, contada em prosa por Victor Hugo, decantada em filmes, e ponto de selfies para turistas. Já a segunda, a Notre-Dame de Chartres, do século 4, se localizada numa vila medieval e é lembrada como enciclopédia da cristandade em pedra e vidro, e muitos de seus mistérios e enigmas que datam de 500 a.C. ainda precisam ser desvendados.

Chartres

Vila Medieval de Chartres
crédito: Viramundo e Mundovirado

Sem pressa para chegar em Chartres –apenas uma hora a sudoeste de Paris – deixei a autopista A10 e saí pela estradinha D906, que de cara já passa bem perto do Palácio de Versailles. Assim, pude conhecer um pouco mais do país ao atravessar campos cultivados, topar com videiras carregadas, celeiros seculares e pequenos e simpáticos povoados.

De repente, como esperando a surpresa – Chartres – deixa a realidade para trás. A paisagem dominante é da Catedral Notre-Dame, daquelas do tipo feérica e misteriosa. Uma pitada mágica a mais, também ocorreu quando, em frente a catedral se abriu um panorama de vielas, de pitorescas casas de pedra ou de alvenaria com estruturas aparentes de madeira escura e com as jardineiras das janelas sempre floridas. Caminhando e com olhar mais atento nessas ruazinhas, quem sabe, poderia vislumbrar numa fresta de porta, um alquimista com seus tubos de ensaio, ou uma velha senhora pronunciando abracadabras enquanto mexe com colherona um enferrujado caldeirão esfumaçante. O tempo a rigor ali não existe. Cada olhar me levava a mundos alternativos.

Catedral de Chartres

Mais de 4.000 esculturas decoram o interior da Catedral
crédito: Viramundo e Mundovirado

Mas o tesouro maior de Chartres reside na sua Catedral. É comum dizer que depois da calmaria extrema, vem a tormenta. E foi isso exatamente que aconteceu comigo e com muitos visitantes que entram nessa igreja. Ninguém sai de lá impune, sem uma intensa reflexão.
Não foi preciso esperar pelo segundo olhar para perceber que estou diante de uma obra-prima. Seu efeito hipnótico se dá por etapas. Primeiro, cada uma de suas nove portas com frontões esculpidos me jogaram direto para a época medieval. Depois, ao adentrar-me em contraluz para o interior da Catedral, sou fulminado pelos extensos raios dos vitrais que reverberaram com a incidência do sol. E a visão se tornou cada vez mais ampla e aos poucos, distingui a presença de enormes colunas, de abóbadas e de 4.000 esculturas que unificam esse espaço interno. Uma beleza incomum que pede silêncio e respeito.

 

Catedral de Chartres

Impossível a visão não se fixar em uma das 5.000 figuras dos 176 vitrais da Catedral
crédito: Viramundo e Mundovirado

Esta catedral, do século 4, um dos primeiros templos cristãos, é um resumo das igrejas através dos tempos. Os estilos arquitetônicos passaram do carolíngio, arrasado pelos vikings em 858, do românico, destruído num incêndio em 1194, para o atual gótico.
Minha primeira busca recai no véu que dizem ter pertencido a Nossa Senhora, na Anunciação, mas minha visão se fixou nos imensos vitrais. São 5.000 figuras em 176 vitrais que cobrem uma área de 2.600 m². Os mais representativos são as rosáceas da porta principal que ilustram o Juízo Final, e a da capela norte que representa a Glorificação da Nossa Senhora. A cor azul é onipresente nos vitrais, mas um especial, o azul da “Notre-Dame-de-la-Belle-Verriere”, atrai visitantes do mundo todo. Sua irradiante cor celeste foi conseguida adicionando à pasta de vidro o óxido de cobalto. Essa tonalidade é conhecida como “Azul de Chartres”.
Os vitrais na idade média funcionavam como livros já que 95% da população mundial eram de analfabetos. Na Catedral de Chartres eles são a bíblia em vidro

Catedral de Chartres

crédito: Viramundo e Mundovirado

Contudo, o interior da catedral possui tantos outros atrativos e mistérios, que um investigador do oculto pode entrar em estado de graça. Os indícios fornecidos pela arquitetura da igreja e das observações arqueológicas reunidas, oferecem algumas pistas. Camadas superpostas de ruínas, galerias e pedaços de evidências da civilização dos celtas que ocuparam a Europa a partir do século 5 a.C. foram encontrados ao redor da catedral. “Alguns se referem a aspectos da religião celta pagã, cuja origem pode estar situada em épocas da pré-história”, e de acordo com estes historiadores ali existiu “uma classe sacerdotal poderosa que talvez incluísse os próprios druidas”.

Para os sacerdotes da época, sejam eles celtas, egípcios ou gregos, a localização de um templo deveria corresponder a uma escolha precisa. Poderia ser uma fonte de água, o ruído do vento nas folhagens, a forma insólita de um rochedo, ou até mesmo o silêncio. Diante de uma sensação ou de um fenômeno da natureza que não podia explicar, o homem da antiguidade julgava perceber a presença divina. E ali construíam seus santuários.

Nossa Senhora do Subterrâneo

Nossa Senhora do Subterrâneo, ou a Grande Mãe Terra dos Druidas?
crédito: Viramundo e Mundovirado

 

Esta tese se reforça quando foi encontrada na cripta da catedral, um poço profundo, e que me chamou a atenção pelas pessoas que oravam ao seu redor. Até o século 16, os peregrinos vinham para beber da água dessa fonte que diziam ser sagrada e que já era cultuada desde os tempos pré-cristãos. A cripta também contém um santuário dedicado à Nossa Senhora do Subterrâneo. Sua principal característica é que está de olhos fechados, que segundo os religiosos Ela sugere dizer: “prestem atenção no Menino, não em mim”. Porém para muitos estudiosos esta Virgem “liga-se à antiga tradição das Virgens Negras que podem ser encontradas em muitos templos cristãos europeus e que correspondem ao culto da Grande Mãe Terra dos druidas”

Labirinto de Chartres

Labirinto de Chartres tatuado em uma peregrina brasileira
crédito: Viramundo e Mundovirado

Outra singularidade da catedral, e que atrai milhares de peregrinos, é o labirinto gravado nas pedras do seu piso. Com diâmetro de 12,6m é a projeção da rosácea principal rebatida no chão. O Ponto e o círculo – Deus e o mundo. “A fé se expressa por uma caminhada desde o tempo de Abraão, e ao empreendê-la torna-se uma jornada para o autoconhecimento. Mesmo para quem não é cristão, ela vai colocar seu olhar para dentro de si”, professa o teólogo brasileiro padre Juarez de Castro. Percorrer seu traçado significaria liberar o espírito em busca da paz. O labirinto de mosaico, nas igrejas medievais que levam os caminhantes a um centro, é a metáfora espiritual de uma jornada rumo a cidade santa de Jerusalém, rumo a iluminação.

Tentar decodificar pequenos mistérios que regem a existência não são coisas do acaso; seu significado é mais extenso. Há uma sensação de mundo paralelo. Isso foi o que aconteceu quando Isabel Pastor, diretora cultural da catedral de Chartres, explicava esse labirinto. Ao nosso lado se aproximou um casal que mostrava interesse nas explicações. Mais tarde vim a saber que eram brasileiros de Divinópolis, MG, e que Carmem Lucia tinha tatuado nas costas o mesmo desenho do labirinto. Paixão por um enigma que a fez visitar, agora, a catedral.

Catedral de Chartres

Frontão de uma das ´portas de entrada da Catedral de Chartres
crédito: Viramundo e Mundovirado

Uma certeza ficou de minha viagem a Chartres, a que percorri dois roteiros na visita à catedral de Notre-Dame. No primeiro me concentrei na história de sua arquitetura, vitrais e esculturas, e outro um “por trás das imagens” cheio de enigmas ainda a serem descobertos.

Para saber mais: www.franceguide.com

www.chartres-tourisme.com

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