Pastel de Belém, só em Belém!

Pastel de Belém, só em Belém!

Heitor e Sílvia Reali

13 de agosto de 2020 | 11h26

crédito: viramundo e mundovirado

“Apanhem o 18! Ele vos deixará na porta da Fábrica dos Pastéis de Belém”, ensinou a rapariga do hotel em Lisboa. Essa parada do elétrico foi pensada para facilitar a vida dos viajantes, pois, não há um que não caia na doce tentação de provar as renomadas iguarias. Tal qual as noivas, não há sequer uma que não cumpra a tradição: “noiva que come o pastel, não tira o anel”, dizem as lisboetas. Por isso não é de estranhar ver ali um casal ainda em trajes de festa saboreando o delicado doce.
E lá fomos nós.
Já havia gente à espera na porta da loja com azulejos azuis na fachada. O cheiro bom de baunilha dobrava o quarteirão e o vozerio dos viajantes em diferentes idiomas estimulavam a gula e animavam a fila.

crédito: viramundo e mundovirado

Lá dentro, à espera do nosso pastel, podíamos ver através dos vidros o vaivém nas diferentes alas da cozinha: os que mexem sem parar o recheio nos panelões; mulheres que estendem a massa nas forminhas de lata, outras que as acomodam nas enormes bandejas, enquanto algumas retiram os pastéis fumegantes dos fornos.

E eis que chegou nossa gostosura: massa fininha e suave, crocante ou estaladiça como lá dizem, e o cremoso e quente recheio de baunilha. Há quem goste de polvilhar canela por cima.

Mosteiro dos Jeróminos
crédito: viramundo e mundovirado

Dá gosto saber a história do Pastel de Belém. Esse doce nasceu do outro lado da rua, no Mosteiro dos Jerónimos. Cada convento ou mosteiro elaborava suas próprias especialidades de doces que eram vendidos aos visitantes, como forma de sustento para freiras e padres, além de ajudar aos mais necessitados. Era também um doce mimo para regalar aos benfeitores do convento. E o porquê de doces com excesso de gemas? Ah!! as culpadas foram as claras! Utilizavam- nas no preparo das hóstias, muitas outras na indústria do vinho e outras tantas para engomar as roupas dos nobres.

E o que fizeram com as gemas aos montões que sobravam? Doces, ora!

 

crédito: viramundo e mundovirado

Nessa hora se apresenta o gerente da loja e … buemba, buemba!! diria José Simão, um predestinado: “Miguel Clarinha. Percebo que os brasileiros estranham o nome Fábrica de Pastéis, pois, faz pensar em industrialização. Mas como vocês viram, tudo aqui é feito artesanalmente. Todos os ingredientes são frescos e tudo é feito na hora sem conservantes. Produzimos mais de 20.000 por dia, número que dobra no verão”.

Perguntei ao senhor Clarinha como saber quando os pastéis estão no ponto certo de deixar o forno. “Ora, se não é pela bonita cor! Ela deve ser atrativa e levemente tostada. Agora, nada mais vos posso contar, tenho boca de siri como dizemos. Nossa receita é segredo – segredo de honra – e somos os únicos a ostentar o nome ‘Pastel de Belém’, todos os outros no mundo são conhecidos como pastéis de nata”.

crédito: viramundo e mundovirado

Dias depois, já na cidade do Porto, fomos ao Mercado do Bolhão. Ao lado dele na Manteigaria, que hoje divide seu tradicional espaço com o moderno café Delta Q, servem o melhor Pastel de Nata da cidade. Mas, poucos dias em terras portuguesas não nos tornaram experts em pastéis para poder avaliar se havia alguma diferença. Vimos o mesmo frenesi na cozinha envidraçada e o mesmíssimo aroma gostoso. Mas, quem toca prá valer na gula é uma jovem que vai sempre à calçada e repica um sino para avisar que mais uma fornada de pastéis de nata está saindo quentinha. Cremosos e altamente estaladiços. Como devem ser os pastéis Nata e de Belém.

crédito: viramundo e mundovirado

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