Talampaya, quando a Terra virou de ponta cabeça

Talampaya, quando a Terra virou de ponta cabeça

Heitor e Sílvia Reali

29 de julho de 2022 | 10h56

Talampaya

Talampaya, não é lugar para amanhã ou depois de amanhã. É para hoje. São tantas imagens passando ao mesmo tempo, que não dou conta de desfrutar todo o panorama.

Depois que o supercontinente denominado Pangeia se fragmentou, duas Placas geológicas se chocaram, a do Pacífico e a onde hoje fica a América do Sul. A Terra virou de ponta cabeça e o fundo do mar viu o sol. Isto aconteceu há milhões de anos, no período Triássico, e na região de La Rioja, Argentina, surgiram as formações rochosas e cânions de Talampaya.
Com essa apresentação, parti para uma viagem que registrou esse cataclisma complexo que está preservado nesse território com toda sua riqueza geológica e paleolítica. Quase único no mundo. Hoje, este majestoso Parque Nacional, com 225 mil hectares, a 1.200 km de Buenos Aires, é bem protegido pelos argentinos. Parabéns para eles!
Com a cabeça aberta, ops!, para tentar captar e guardar todas as sensações visuais, mesmo sabendo que seria impossível pela quantidade de imagens que ali se transfiguram em sombras vibrantes e monstruosas que parecem saídas de um livro de contos de fadas ou de bruxos, ou dos dois juntos, foi difícil esconder a alegria que se apoderou de mim.

Estava à procura de um lugar ficcional, será que encontrei?

Que loucura! Para ser fiel a primeira mirada de Talampaya com suas torres, desfiladeiros e paredões gigantescos de rocha vermelha, que podem atingir até 150 metros de altura, teria que descrever essa paisagem na forma literária de um Borges ou de um Cortázar, e finalizar com Kafka, sempre ele, pois a natureza tem mais imaginação do que a gente pensa. Concorda? E mais. O mistério desse lugar se amplia com o eco. Não se assuste, pois ele se reproduz até três vezes. Pode?
Assim são sempre minhas viagens, na dúvida de repetir àquelas que gostei ou inovar, sempre aposto na segunda alternativa, e nunca me arrependi. Lembrei de Borges também, porque dizem as boas línguas, que ele ali esteve, se fascinou pelo lugar e se inspirou para escrever “A Cidade dos Imortais”. Os livros trocam ideias conosco.

A viagem aqui é um trajeto em todas as direções.

Continuo preso a encontrar ainda, grifei essa palavra porque ela não existe em espanhol, uma definição para o que vejo e sinto. Os espanhóis consideram que sua sonoridade espicha o sentido de algo que nunca termina.
Talampaya, um lugar sem limites para sonhar. As estradas em seu interior, nada mais são do que leitos de rios secos, e sempre parecem nos levar para o fantástico. Nessa incursão podemos observar as geoformas denominadas, ‘A Torre’, ‘Os Reis Magos’, ‘O Monge’, e ‘A Catedral’.
Um cenário atrai outro cenário, que atrai outro, e assim vão se perder lá longe. A profusão de tons ferruginosos só é quebrada pelo verde dos algarrobos, árvores imponentes que se dão muito bem com o clima seco dessa região. Importante acrescentar que os visitantes só entram no Parque, acompanhados de guias e veículos autorizados pela administração, ainda (olha a palavra aqui outra vez) bem!
Quando olhamos o mundo com olhos da realidade, da pureza de sentimentos, conseguimos encontrar a beleza, mesmo nos lugares mais áridos e desérticos, como esses de Talampaya.

Só os viajantes livres captam a essência de um lugar. Você concorda?

Nessa total conexão com a natureza, começo a dar valor ao que observo. Uma andorinha não faz o verão, e o que dizer quando se vê quatro ou cinco condores batendo ponto numa das enormes fendas dessas muralhas rochosas? Na cabeça voadora dessas grandes aves sua voz seria o assobio do vento que quebra o silêncio? Oba! Não é que daqui pode sair um poema? O desafio está posto.
Que pena! Não a das aves, mas de deixar esse lugar. Neste dia solar chegou a hora da troca de turno, e o entardecer que delicadamente surge, tênue de início para em seguida explodir em cores, dando nova vida às silhuetas dessas cadeias rochosas que agora parecem arder pelo realce dos tons avermelhados.
Gostaria de passar a noite aqui, neste colossal mundo perdido, para descrever o céu noturno, e conhecer quais animais e aves fazem a ronda noturna. O certo é que um dia (ainda) voltarei para lavrar esse deserto. O que não faz a imaginação! Até breve.

Como será esse deserto a meia-noite?

 

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