Experiência na Amazônia – Capítulo 1: Zero-Dez à postos!
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Experiência na Amazônia – Capítulo 1: Zero-Dez à postos!

Passei quase uma semana no Estágio de Adaptação de Vida na Selva, promovido pelo Batalhão de Infantaria de Selva. Suor, muita dedicação e um respeito ainda maior por esses soldados.

Karina Oliani

06 Maio 2016 | 18h12

Quem ainda não escutou que na Amazônia Brasileira encontra-se o melhor Centro de Instrução de Guerra na Selva e o melhor e mais especializado Batalhão de Infantaria de Selva do mundo? Sempre quis ver isso de perto, mas quando tentei pela primeira vez, na época que estava começando a gravação do “Missão Extrema” pro Discovery, em 2014, mas nossa equipe de produção não conseguiu autorização necessária pra filmar lá.

Como acredito que ser persistente é a chave pra conquistar qualquer sonho, nunca desisti de ir atrás de uma chance, até que a oportunidade que buscava há muito tempo finalmente aconteceu quando eu conheci o Coronel Georges Kanaan, em setembro de 2015. Nessa época, ele comandava o 11º Batalhão de Infantaria de Montanha, em São João Del Rey, MG. Uma pessoa muito batalhadora, culta, forte, personalidade de um líder nato, o Coronel era admirado por todas as patentes do seu Batalhão e ganhou também a minha admiração depois que eu o conheci pessoalmente dentro da sua Unidade de Comando.

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Entre tantas coisas que precisam melhorar no nosso país, entre tantos acontecimentos que nos fazem desacreditar nas pessoas, me aproximar do Exército esse ano foi fundamental pra que eu voltasse a crer que o Brasil tem jeito! Força, lealdade, garra, disciplina, trabalho em equipe e superação de limites ganham outro significado depois que você convive e conhece de perto esses guerreiros.


“EAVS”

O famoso Estágio de Adaptação de Vida na Selva (EAVS), de quase 1 semana, onde os militares têm seu 1º contato com “Guerra na Selva”, aconteceria em fevereiro. Mas essa turma era composta apenas de oficiais e sargentos, homens já treinados e que passaram por treinamentos militares prévios, todos abaixo de 35 anos. Ou seja, estava me alistando pra uma tarefa que certamente não seria um passeio no parque.

Domingo, 6 horas da manhã, aeroporto de Guarulhos, mochila pronta pra passar os próximos 7 dias na selva amazônica. Já em Manaus, fui super bem recebida pelos Tenentes Borges e Frizzo, do 1º Batalhão de Infantaria de Selva. Diretamente ao trabalho, recebi 2 fardas devidamente identificadas como “OLIANI“, um coturno, uma nova mochila, padrão do Exército, que leva cerca de 30 kg de equipamentos e munição e um Fuzil, conhecido como “PARAFAL”, pesando quase 5 kg.

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Sem nem 1 minuto a perder, rapidamente me ensinaram a montar, desmontar e rebater a coronha do meu fuzil. Uma tarefa complexa quando se faz isso pela 1ª vez. Ainda por cima, teria que saber fazer a manutenção dele. Aprendi algumas condutas e como me reportar no ambiente militar. Um vocabulário bastante peculiar, mas eles foram me “passando o Bizu”. Passar o bizu (ou estar bizurado) é um camarada que tem as dicas, as manhas ou que está preparado pra “ajudar seu canga num sanhaço”. Difícil de compreender, não é?!

Vamos desmistificar algumas dessas expressões:

Passar o Bizu: Dar uma dica
Camarada: o seu colega
Canga: o seu dupla (sim, na selva, todos andam, pelo menos, em sistema de duplas)
Sanhaço: Dificuldade, perrengue ou algo que certamente vamos passar diversas vezes num treinamento militar desse nível.

Capitão Castro Lima. A gente nunca se esquece do capitão do curso. Semblante sério, de poucas palavras e muito profissional. Esse homem tem como uma das missões fazer-se cumprir a disciplina militar, o bom andamento do curso e avaliar seus alunos ao longo do treinamento, supervisionando também os instrutores do Estágio.

Como parte da pressão psicológica, não somos tratados por nomes. Fomos logo ganhando números, que iria substituir nossas identidades pelos próximos dias.

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-Estagiário 010 (Zero-dez) apresente-se!

E lá estava eu prestando a continência, pra começar já com a mão errada…

-Zero-dez, revista, apresente seus equipamentos!

Meio desajeitada, com uma mochila de 30 kg nas costas, certamente eu tinha tudo que era exigido pro curso dentro daquela mochila: Kit de primeiros socorros, kit de manutenção do armamento, kit de engraxar o coturno (sim acredite é obrigatório), kit reparo, kit sobrevivência, kit camuflagem, kit higiene, kit a, b, c, d e, todas as letras do alfabeto, infinitos kits e mais cabo de resgate, rede de selva, facão, capa de chuva, bússola, repelente e mais algumas coisinhas.

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Difícil de entender o motivo de tamanha rigidez militar quando não somos do meio, mas, após presenciar o capitão verificando cada um dos cento e poucos estagiários, comecei a sentir a necessidade de tamanha organização.

Às 04h da manhã, todos já estavam à postos no quartel. Fui apresentada ao meu canga, o estagiário 09, um militar extremamente apaixonado pela profissão, no auge da sua forma física, que acabara de terminar o curso de elite de paraquedismo militar, conhecido por ter uma exigência física enorme. Confesso que fiquei com pena dele por terem lhe dado uma canga tão iniciante, mas desde a primeira marcha ele já mostrou que merecia todas as patentes que conquistara… Na guerra ou na selva, trabalho em equipe não é luxo, é questão de sobrevivência!

Você pode ser a pessoa mais forte e preparada do mundo, fato é que, juntos, somos SEMPRE mais fortes. E esses meninos sabem bem disso e se tratam como verdadeiros irmãos. Já fui recebida nesse clima pelo 09, mas eu não queria ser mais um peso num estágio que já não seria fácil (até pra ele). Se algo está errado com seu canga, a culpa é da dupla! E ele fazia questão de me ensinar e passar uns bizus quando possível, já que as oportunidades onde podíamos (ou conseguíamos) falar foram bem poucas.

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No próximo post, contarei como foi minha primeira prova do treinamento!

Atá semana que vem!

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