Experiência na Amazônia: Capítulo 6 – Dormir Pouco e Pressão Psicológica
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Experiência na Amazônia: Capítulo 6 – Dormir Pouco e Pressão Psicológica

Dormir pouco faz parte da pressão psicológica nesse treinamento

Karina Oliani

16 Junho 2016 | 09h56

Após 4 míseras horas de sono começo a escutar uns apitos. Meu Deus já eram 4:50 h da manhã… Como éramos muitos, os apitos eram usados pelos líderes pra colocar seus grupamentos em formação. Eu tinha que estar fardada, com o cabelo devidamente preso dentro do chapéu, com a bombacha segurando a calça mais alta, sem cair por cima do coturno, com o coturno limpo e engraxado, com a mochila em ordem e o fuzil limpo. E não acordando agora sendo que ainda teria que cruzar o rio para encontrá-los.

 

Você deve estar se perguntando: “Mas por que ela não fez tudo isso ontem à noite?” Pra falar a verdade acordei e não lembrava nem como tinha chegado à minha rede. Além disso, você não pode ir pra Selva com seu Iphone. Eu não uso relógio desde os 15 anos. Ou seja, não havia artefato algum que me ajudasse a despertar e meu corpo queria dormir pelo menos mais umas 10 horas.

 


Problema dele, eu tinha apenas 10 minutos pra estar lá, quando do meio do mato, aparece o meu canga, como se fosse um anjo, ele disse:

 

-Caramba Zero 10 você está acordando só agora? Deixa eu te ajudar que temos que estar na base em 10 minutos.

 

Não que agora estava fácil mas pelo menos foi possível… Enquanto meu canga me ajudava, passei uma escova nos dentes, prendi o cabelo, protetor no rosto, ajeitei a farda, fechei a rede e sai correndo atrás dele, como se tivesse numa prova dos 400 metros rasos pra estar às 4:59h em frente à base.

 

Esbaforida mas aliviada olhei pro Zero 9 em sinal de agradecimento. Se não fosse ele, levaria uma chamada que não gosto nem de pensar. Pontualidade para o militar não é opcional, é uma regra e levada MUITO a sério.

Estagiária 10 (2)

-Estagiários alto. Estagiários descansar. A selva é um lugar onde perdemos nossa referência. Você pode passar dias, meses, anos, perdidos na mata, andando em círculos. De que adianta ser um soldado forte, rápido se você não sabe pra onde está indo?

Agora vocês vão partir pra uma das instruções mais importantes desse curso: Orientação e navegação. Podem marchar.

Cerimonial Diário

Fomos divididos em grupos de 3. Entre os 6 estagiários tínhamos 2 funções principais onde todos se revezaram. Masantes tínhamos que saber quantos passos nossos davam 100 metros. Em um pedaço de trilha demarcada saímos contando. Cada um teve um número diferente que guardou pra si pra não confundir os demais. Eu sabia quantos  passos meus eram equivalentes a 100 metros. Mas com a bússola na mão fui eu quem começou a dar o azimute.

 

Zero 10 você sabe navegar?

 

Sim, eu competi e fiz por alguns anos Corridas de Aventura. Que basicamente são equipes formadas por 3 homens e 1 mulher, durante muitas horas ou dias, com apenas uma bússola e um mapa na mão.  Em muitas provas fui a navegadora da minha equipe. Gostava de orientar porque tirava meu pensamento do sofrimento físico, que era absurdo e me concentrava em conduzir minha equipe.

Apronto Operacional (2)

Meu canga também levava sua bússola, juntos conferíamos minuciosamente o azimute (direção a ser tomada).

 

Outro canga se preocupava em olha o mapa, cantar os graus e a distância.

 

E outros eram os “homens passo”. Os dois contando os passos, iam calculando a distância que nós embrenhávamos no mato.

 

E assim tínhamos que encontrar 6 placas com nomes de cobras. Muito parecido com os PCs (postos de controle) das provas de orientação que já tinha feito. Sabia que qualquer imprecisão no azimute, lá no final iria significar um grande afastamento do nosso alvo. Avançamos os primeiros 400 metros, mato fechado, praticamente impossível andar em linha reta, mas os homens-passo fizeram o melhor pra manter o azimute.

 

Mais de 1 minuto procurando e o canga com o mapa ficou marcando o suposto local enquanto as outras 4 pessoas se separaram para buscar o objetivo, cada um em uma direção diferente. Segui pro lado que achava mais provável. E nada. Ouvia os outros estagiários falando entre si ao longe. Tinha me afastado mais do que devia. Quando de repente gritei:

 

“JARARACA”!!

 

Todos vieram correndo em minha direção. A Zero 10 está em perigo! Não, só havia encontrado a 1ª placa e nela estava escrito “Jararaca”. Começamos a rir mas ainda tínhamos mais 5 placas pra encontrar.

 

Zero 10 agora você vai ser o homem passo?!

 

Hum?! Homem-passo? Serve uma mulher-passo???

 

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