Por que escalar montanhas?
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Por que escalar montanhas?

Karina Oliani

25 Maio 2018 | 09h30

Hoje às 20h irá ao ar no Canal OFF a segunda parte do documentário “A outra face do Everest” que conta a minha saga quando me tornei a primeira brasileira a escalar o ponto mais alto do mundo pelas suas duas faces.

 

Pra mim, escalar alta montanha deixou de ser um simples e mero esporte. Passou a ser um estilo de vida!

 


Escalando montanhas fiz amizades para toda uma vida como a com Pemba Sherpa, o guia que conheci em 2010 quando fazia um trabalho medico no acampamento base do Everest e que depois esteve ao meu lado em todas as vezes que estive no Everest, seja como médica, turista ou para escalar.

 

Um amigo a tal ponto que quando houve o terremoto do Nepal em 2015 eu me mandei pra lá com meu kit medico nas costas pra ajudar sua comunidade como pude. Os Sherpas são pessoas especiais. Trata-se de uma etnia que vive nos lugares mais altos do mundo. Eles são um capítulo à parte na minha vida. Aprendi muito com eles.

Eu vou para o Nepal desde 2009 e eu já fui mais de sete vezes para este país. Quando cheguei no topo do Everest em 2013, senti um misto de gratidão e alegria por ter conseguido chegar no topo do mundo que era um sonho antigo. Então perguntei o Pemba o que eu poderia fazer para retribuir aquele povo. Pemba me respondeu: “Lá no Vale de Patle, onde eu nasci, tem cinco vilarejos e nenhum deles tem acesso à água potável. E quem tem a responsabilidade de subir e descer montanhas naquele frio horroroso todos os dias são as mulheres”.

 

Essa água que elas pegam tem que ser suficientes para atender as necessidades de uma família inteira como cozinhar, beber, lavar roupa, limpar casa, tomar banho… percorriam até 5 km a pé montanha acima e abaixo carregando aquele peso. Tive a ideia de levar água encanada para o meio da vila para que aquelas mulheres não precisassem andar tão longe.

 

Então me reuni com o Pemba, ele se reuniu com seu povo, e pelos nossos cálculos era um valor muito possível de ser arrecadado. E ficou mais em conta ainda porque as pessoas dos vilarejos resolveram ajudar com o trabalho, economizando assim a mão-de-obra. Usei apenas recursos doados pela minha família. Foi assim que em 2013 mobilizando a comunidade e meus familiares que conseguimos levar água encanada para uma vila no meio das montanhas no Nepal.

Só que os outros quatro vilarejos ao redor ficaram sabendo do feito e começaram a nos procurar querendo ajuda porque também precisavam de água. Comecei a pedir ajuda para amigos brasileiros e eles foram doando recursos. Dessa forma conseguimos colocar água encanada em todos os vilarejos da região do meu amigo guia que tanto me ajudou a concluir a minha “Missão Everest”. Se hoje é possível as mulheres daquela área terem uma vida melhor, foi graças à solidariedade brasileira.

 

Na sequência começamos a instalar vasos sanitários nas casas começando pelas famílias mais numerosas até todas serem beneficiadas. Daí veio o terremoto de 2015 que destruiu muita coisa em todo país. Fui lá para fazer atendimento médico exclusivamente em áreas tão remotas que não tiveram atendimento médico depois do tremor. Foi aí que eu recebi o convite do Andrei Polessi e resolvemos fazer um livro de fotos, onde toda a renda foi destinada para recuperação daquele país.

 

Conseguimos erguer uma escola com uma atitude tão simples. Essa história deu origem ao Instituto Dharma, da qual sou fundadora e o Andrei, o presidente. Não apenas construímos essa escola como continuamos ajudando com nosso trekking solidário, colocamos os moveis, pagando professores, financiando a compra de materiais escolares…

 

E antes que me perguntem se o Dharma só faz isso, negativo: também temos projetos médicos no sertão brasileiro, projetos de conscientização do problema do plástico nos oceanos, assistência a refugiados venezuelanos e muitas coisas mais que temos envolvimento.  Dedico aproximadamente 50% do meu tempo ao Instituto Dharma. Voluntariamente. E sem duvida é uma das coisas que mais me traz felicidade.

 

Qual a relação entre escalar montanhas e fazer esse tipo de trabalho em benefício do próximo? Acredito que o fato da grandiosidade das montanhas faz a gente ter consciência do quanto somos pequenos diante da natureza e quantas pessoas iguais a nós precisam da nossa ajuda. A natureza que vai se revelando quando subimos a pé um monte vai mostrando o que realmente importa nesta vida.

 

Mas ter esse tipo de pensamento após uma experiência desse porte e não fazer nada depois é o mesmo que você ter muitos livros na sua casa e não ler nenhum: não faz o menor sentido e é conhecimento desperdiçado, mal aproveitado. Tem algum livro na sua casa que você já sabe de antemão que é bom? Leia! Você sempre sairá mais rico quando terminar. É uma sensação parecida uma aventura de montanha com uma aventura literária (salvo as devidas proporções): você nunca mais sai o mesmo desse tipo de aventura.

Eu me sinto mais rica com “A outra face do Everest” porque a montanha me ensinou a enxergar coisas muito importantes desta vida – seja no meu trabalho, nos meus relacionamentos, nos meus sonhos. A sintonia com a minha respiração no ar rarefeito – e ter vencido essa dificuldade que não é fácil de contornar certamente me tornou uma pessoa melhor, mais resistente, mais resiliente.

 

A vida sabe tratar direitinho quem “escala” uma empresa ou socialmente. Os que fazem com destreza, segurança, sabedoria e respeito com todos ao redor tem a recompensa merecida, muitas vezes demorada, mas no tempo certo. Agora quem quer pegar atalhos por outros meios, pode ter consequências desastrosas e, muitas vezes, irreparáveis.

 

E para sintetizar tudo o que uma montanha representa para mim, encerro com esse texto que escrevi quando voltei do Everest em 2013:

 

Eu gosto de escalar montanhas

Elas me fazem sentir pequena.

Elas me ajudam a entender o que realmente importa na vida.

Elas me deixam desafiar a mim mesma.

Elas fazem com que eu conquiste minhas dúvidas.

Elas me colocam em sintonia com a minha respiração.

Elas me fortalecem fisicamente e mentalmente.

Elas liberam endorfinas no meu corpo.

Elas ajudam a aliviar a tensão.

Elas me fazem enxergam tudo de cima e ter uma outra perspectiva da vida.

Elas me dão auto-disciplina.

Elas aumentam minha estamina.

Elas me trazem um desafio saudável.

E me proporcionam paisagens sensacionais.

Eu gosto de escalar montanhas.