Por que o Kilimanjaro?

Por que o Kilimanjaro?

Karina Oliani

06 Setembro 2018 | 17h07

TEXTO DE:
Henrique Corredor Barbosa

Por que o Kilimanjaro?

Antes da viagem me perguntaram porque eu havia decidido subir o Kilimanjaro e eu não soube responder ao certo.
Durante a viagem, a Karina Oliani me perguntou novamente e eu ainda não tinha me dado conta do real motivo.
A verdade é que essa montanha me atraiu por alguma razão desde que eu li uma reportagem sobre ela pela primeira vez há mais de dez anos. Foi uma atração natural, que não tem muita explicação. Desde então, passei a olhar para ela com mais atenção, tendo a certeza de que um dia iria para lá. Mesmo sem conseguir explicar a atração natural que o Kilimanjaro me despertou (acho que nunca vou conseguir), agora que a viagem acabou, consigo ver bem claramente alguns dos motivos que nos levam a entrar nesse tipo de empreitada.


Em primeiro lugar, é um desafio físico duro e extremamente interessante para quem gosta de testar os limites do próprio corpo e expandi-los.
Eu, que nunca havia chegado perto dessa altitude, a montanha mais alta da Africa tem 5.985 metros acima do nivel do mar, e estava louco para ver como meu corpo reagiria.
Foi uma ótima desculpa também para dar um gás nos treinos nos meses que antecederam a viagem, além de servir como uma pitada de sal na rotina insossa que renova aquela sensação de se sentir vivo diante de um desafio inédito e importante!

Como diria meu saudoso mestre e amigo Luiz Cesar Monnerat Tardin: “Para se sentir vivo, faça algo novo todo dia! ”
Além do aspecto físico, há um desafio psicológico interessantíssimo também. Durante o trekking, você se obriga a enfrentar vários pensamentos, sentimentos e emoções que, por vezes, no cotidiano da vida, você empurra com a barriga e acaba deixando de lado.
E o melhor é que você faz isso estando incomunicável, sem acesso ao telefone e à internet, sem poder, portanto, recorrer àqueles que normalmente compartilham o seu dia-a-dia, seja ao vivo ou mesmo nesse mundo eletrônico totalmente interativo. Desconectar-se assim nos dias de hoje, no ápice da revolução digital, torna o desafio psicológico ainda mais difícil e, ao mesmo tempo, mais legal.

Outro aspecto importante é juntar-se a pessoas de igual afinidade e ter oportunidade de conhecê-las profundamente, mesmo que em pouco tempo. É uma ótima possibilidade de expandir nosso mundinho! Quem procura esse tipo de atividade, normalmente compartilha pensamentos convergentes e valoriza coisas semelhantes. Com isso em mente, nunca tive dúvida de que formaríamos um grupo bom na montanha.

O que eu não podia esperar é que formaríamos uma verdadeira família, com tanta diversidade, solidariedade e compaixão. A galera foi demais e já deixou uma enorme saudade!

Agregue a tudo isso a possibilidade de dedicar parte de seu tempo e de sua vida a pessoas que realmente necessitam de ajuda, em especial as crianças, e receber em troca lições que certamente carregaremos dentro do peito e da alma para o resto da vida. Ninguém que participou desse projeto será o mesmo. O convívio com aquelas crianças e, principalmente, com o amor e o carinho que elas nos deram de forma genuína, pura e gratuita, certamente modificou profundamente o grupo e fortaleceu, em todos, alguns valores importantes, que acabamos negligenciando na correria das nossas vidas urbanas.

Um verdadeiro soco no estômago, capaz de nocautear, rápida e definitivamente, uma série de pequenos problemas que, até então, nos aborreciam e que agora não fazem mais qualquer sentido…

De volta à rotina, já está bem claro que vamos levar algum tempo para terminar de digerir tanta informação e conhecimento. A balança final ficou claramente desequilibrada. Mesmo com o enorme esforço da equipe médica e dos agregados como eu, saímos da Tanzânia tendo recebido muito, mas muito mais do que doamos…