Um caso de amor e esperança na Tanzânia

Um caso de amor e esperança na Tanzânia

Karina Oliani

14 Setembro 2018 | 16h15

No mês passado, como muitos já sabem, participei de um trekking solidário no Monte Kilimanjaro, na Tanzânia no continente africano. Mas, como sempre, após uma linda aventura, sempre fazemos um trabalho voluntário, compartilhando um pouco de esperança e trocando amor com a população local.

Era 25 de agosto. Estávamos eu e alguns colegas médicos voluntários do Instituto Dharma fazendo atendimentos em um lugar muito remoto, próximo a uma tribo Massai. Não tínhamos nenhuma estrutura, mal haviam mesas e cadeiras, tudo era muito improvisado, ainda em construção.

Atendemos algumas pessoas e fomos ajudando-as da melhor maneira possível que as circunstâncias permitiam. Seguimos assim até que termos a oportunidade de conhecer Mohammad, trazida por sua mãe até o médico João Claudio Lira, que estava atendendo em uma mesa ao meu lado.


Com atuação como médico de UTI e muita vivência em salvar vidas, João foi direto auscultar seu pulmão, pois havia notado logo de cara que algo não estava bem. “Isso aqui é uma insuficiência cardíaca! Ela tem muito líquido no pulmão e está com bastante falta de ar”, ele comentou comigo.

O tradutor, que nos acompanhava na missão, confirmou o diagnóstico com sua mãe. Ela tem uma doença cardíaca reumática desde pequena. Essa doença, aos poucos, está destruindo uma das válvulas do seu coração. É necessário que seja feita uma cirurgia para a troca de válvula, caso contrário Mohammad não vai resistir mais muito tempo.

Mohammad tem apenas 15 anos e precisa de ajuda para sobreviver. Ela anda e se mexe lentamente, mas não perde o sorriso e a simpatia por nada, mesmo à noite, quando não pode nem dormir na horizontal (pela falta de ar intensa).

Mohammad é apenas uma das milhares de pessoas que moram na Tanzânia e não podem contar com um serviço de saúde público gratuito simplesmente porque ele não existe. Cirurgias e tratamentos por lá só são viabilizados mediante pagamento. Aliás, nas minhas andanças pelo mundo, já notei que não é todo país que tem sistema público de saúde como aqui – os EUA é um deles! Nós temos SUS no Brasil e, mesmo assim, temos muitos problemas. Agora já pensou como seria viver sem?

E você sabe qual é o sonho de Mohammad? Ser médica e poder ajudar a mudar a realidade daquele lugar. É por essa razão que o Instituto Dharma está com um financiamento coletivo online para arrecadar R$ 27 mil para salvar sua vida. O que acha de contribuir, mesmo que seja só um pouquinho, para que Mohammad possa fazer a cirurgia que tanto precisa?

https://benfeitoria.com/cirurgiadamohammad

Quando comento casos como o dela, sempre alguém que observa que ajudar apenas uma pessoa só ‘não mudará o mundo’. Porém, já pararam para pensar que o mundo é como se fosse uma grande teia? Se ajudamos uma pessoa, ela passará a ter condições de ajudar outras e assim por diante. E sim, uma pequena ação, pode ser toda a diferença na vida de alguém, ainda mais porque ações chamam reações e o “efeito cascata”, que levará a outros agirem também e assim por diante.

Pode ser que ajudar Mohammad não mude o mundo, mas certamente mudará o mundo dela!

Depois de ‘transformar a realidade’ de Mohammad, nós do Instituto Dharma queremos levar luz e esperança aos mundos de mais pessoas da Tanzânia. Vamos aos poucos, mas tenho certeza que chegaremos lá.

A cada pessoa que atendemos na Tanzânia, levamos conosco mais uma história e uma nova missão. Há muitas crianças que, na medida do possível, gostaríamos de mudar seus destinos. Outra delas é o Harun, que tem cerca de 6 anos de idade.

Soubemos que havia um menino que estava doente em uma cama desde fevereiro. Com a ajuda do Masso, um guia do Gente de Montanha, fomos até a casa dele conhecer sua história. Harume teve uma fratura grave nas duas pernas (nos fêmures) e passou por uma cirurgia em um hospital local que não foi bem-sucedida. Hoje, além de uma diferença de muitos centímetros entre uma perna e outra, está com osteomelite – praticamente uma “infecção no osso”.

Como as duas pernas engessadas do tornozelo até o quadril, Harume está imobilizado, parou de ir para a escola e, o mais delicado de tudo, não sai nem para ver mais a luz do sol. Fica o tempo todo um colchão em um pequeno ambiente, em que mora também sua família. Ele também chama minha atenção por ser muito magrinho e frágil para a idade que tem, possivelmente tenha até osteogenia (diminuição dos ossos), em consequência de desnutrição. Em resumo, o caso dele precisa maior investigação: um ortopedista pediátrico que, provavelmente recomendará uma nova cirurgia para correção da primeira.

E o que a história de Harun tem a ver com a de Mohammad? Lembra da teia? Pois bem, assim que terminarmos o financiamento coletivo dela, começaremos o dele e assim seguiremos.

Eu acredito que o amor está acima de todas as coisas. O caráter e a inteligência podem impressionar as pessoas, mas é o amor que damos a alguém que nos faz brilhar e sermos inesquecíveis em suas vidas. Então, acender um sorriso no rosto das crianças da Tanzânia e tantos outros lugares carentes mundo afora, iluminar seus corações, dar um pouco de esperança para alguém que precisa é o que me mobiliza. E é justamente esse amor que busco compartilhar por meio das ações do Instituto Dharma.

Fotos de Marcelo Rabelo

Karina Oliani