De brecha em brecha

De brecha em brecha

Bruna Tiussu

23 Fevereiro 2018 | 14h54

Ensinando músicas para os mais velhos. Foto: Eduardo Asta


Tenho exercitado bastante a minha cara de pau. Também estou ganhando experiência na arte de tapar buracos. Pois diante de uma escola mais estruturada como a Bright, a teacher Bruna aqui tem que se virar para conquistar lugar nas salas de aula.

Com professores mais capacitados (leia mais aqui), a escola não precisa de voluntários que assumam uma ou outra disciplina — como acontecia em Gana e em Uganda. O corpo docente dá conta do recado sozinho e segue o cronograma educacional do governo.

O que não quer dizer que novas propostas para as classes não sejam bem-vindas. E é por aí que vou cavando meu espaço, dia após dia.

“Confecção” de gravatas na aula sobre roupas. Foto: Bruna Tiussu

Com os pequeninos é mais fácil, pois há toda uma flexibilidade didática. As professoras do baby e do maternal adoram que eu organize atividades e brincadeiras para seus alunos. E eu aproveito a deixa: com lápis de cor, giz de cera e papel (os materiais que pude encontrar aqui em Loliondo) invento várias aulas para melhorar o vocabulário deles. Um dia, falando de frutas, levei algumas para eles provarem, pois muitos nunca haviam tido a chance de experimentá-las. Foi sucesso!

Aula sobre frutas com provas. Foto: Eduardo Asta

Para os mais velhos, tento as “parcerias”. Elas rolam com o professor de inglês: ele me diz o conteúdo das próximas aulas de certas classes e eu bolo atividades complementares. Propostas mais lúdicas, como jogos — caça-palavras e forca são os favoritos das kids — e exercícios em grupos. Rolam algumas também com o de geografia: com aulas para se comparar o Brasil com a Tanzânia, por exemplo.

Forca, o jogo preferido das crianças. Foto: Eduardo Asta

Acontece ainda a maravilhosa “sorte” de estar no lugar certo na hora certa. Faltou um professor e eu estou por ali? Assumo a classe. Um professor é chamado para uma reunião? O horário dele é meu. Falando assim, parece coisas raras de acontecer, mas não é. Pois alguns professores têm também funções administrativas e acabam se ausentando em horários de aula. Outros têm algo a resolver fora da escola e, no ritmo africano, a coisa pode durar horas.

A ausência deles, então, acaba sendo a minha brecha. Bom para as kids, que ao menos têm a chance de fazer algo diferente, ao invés de sentar e esperar na sala. Bom demais para mim, que cada vez fico mais contente em extravasar a teacher que mora aqui dentro.

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