Stalkers mirins

Stalkers mirins

Bruna Tiussu

20 Novembro 2017 | 13h09

Olhinhos estrategicamente posicionados nas frestas da parede. Foto: Eduardo Asta


Dá pra dizer que depois de um mês e meio aqui o estranhamento das crianças diante da minha pessoa diminui. Um pouco pelo menos. Se eu passo pela escola, várias delas não me encaram mais. Não me pedem dinheiro nem lápis. E me chamam para entrar na brincadeira delas ou para pedir que eu coloque uma música pra tocar no celular.

Agora minha versão professora ainda causa o mesmo frisson das primeiras semanas. Ter uma teacher muzungo é tão diferente para essas crianças que não consigo imaginar quanto tempo seria necessário para que isso se tornasse normal aos olhos delas.

Essa curiosidade me garante público extra quando estou dando aulas. Explico: se estou ensinado inglês no primário 3, alunos de todas as outras séries procuram uma frestinha para espiar o que está rolando na minha aula.

Fila indiana na porta para bisbilhotar a aula alheia. Foto: Bruna Tiussu

As salas do Amasiko facilitam a ação dos stalkers mirins. Já que não têm portas, eles ficam enfileirados ali reparando em tudo; vejo olhinhos encaixados nas frestas das tábuas de madeira; algumas cabeças aparecem em buracos que conectam as classes; e os mais ousados se penduram nas paredes para “participar” da aula.

São cenas engraçadas. Mas possíveis pois ou os outros professores não estão em suas classes como deveriam (leia mais sobre isso aqui) ou porque os alunos arrumam desculpas para dar uma voltinha lá fora.

Vale tudo pra espiar dentro da sala. Foto: Eduardo Asta

Quando o público extra é muito grande, ao ponto de tirar a atenção dos meus alunos e atrapalhar a aula, eu olho feio. Dou bronca e peço para se afastarem. Um muzungo bravo, porém, parece aguçar ainda mais a curiosidade das crianças, que soltam um risinho, fincam os pés e insistem na espionagem.

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