Clima: o que será que será?

Clima: o que será que será?

"Estão na mesa temas de muita transcendência para todos os países", diz Claudia Martinez, da Aliança Clima e Desenvolvimento (CDKN), da Colômbia.

Paulina Chamorro

14 Fevereiro 2014 | 14h29

Temperaturas extremas na América do Sul, frio na America do Norte. Relatos de mar quente e aparecimento de algas, manchas e espumas no sudeste e sul do Brasil, somado à surpresa do período de estiagem onde antes era um verão chuvoso.
A única previsão/percepção possível é que o clima está mudando. E de que virão fortes chuvas em algum momento, em decorrência dos fatores acima citados.
Mas assim como no Brasil existe a falta de prevenção de municípios para este período, ocorre o mesmo em outros países da America do Sul.
Algumas informações que corroboram, extraídas do artigo de 14/02/14, de Washington Novaes neste jornal O Estado de S. Paulo ( “Para aonde aponta a crise do clima”):
…“Dizia o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud) que de 1967 a 1990 chega a 3 bilhões o numero de pessoas atingidas pelos desastres climáticos.”
“Temos que conceber e adotar com muita urgência um plano nacional para o clima.Que inclua regras rigorosas para a ocupação do solo, impeça o desmatamento, promova a recuperação de áreas e proteja os recursos Hídricos.Obrigue os administradores públicos a tratar com urgência também do solo urbano e dos planos de drenagem, além da contenção das emissões de poluentes nos transportes.”
Na Colômbia conheci o trabalho da Aliança Clima e Desenvolvimento, ou mais conhecida por CDKN, uma ONG líder em temas sobre a mudança climática e que em boa parte dos governos estaduais e municipais onde consegue atuara como conselheira, já conseguiu resultados no sentido na prevenção e estudos de vulnerabilidade.
Trabalha com inúmeros projetos, com fortes parceiros locais sul-americanos e também com alianças na Ásia, África e América Latina.
Seus principais focos são a saúde humana relacionada e a vulnerabilidade de cidades e pessoas frente às questões climáticas e trabalham junto ao poder publico federal, estadual ou municipal no sentido de orientar para melhores ações a longo prazo.
Na minha passagem pela capital da Colômbia, Bogotá, para mais um curso para jornalistas promovido pelo Instituto Prensa y Sociedad – Ipys, do Perú e com o apoio de ONGs como SPDA, USAID, ICAA e da própria CDKN, com o objetivo de ensinar novas técnicas para associar problemas ambientais e problemas para a saúde humana. (Assista ao vídeo resumo dos encontros com os jornalistas no fim do post).
Separei trechos da conversa com Claudia Martinez, representante da CDKN na Colômbia e consultora do Banco Mundial, foi vice-ministra de meio ambiente da Colômbia, consultora do Banco Mundial. Nosso papo foi em cima de projetos específicos da CDKN sobre adaptação, vulnerabilidade, migração por problemas da mudança climática.


Paulina Chamorro- As relações meio ambiente-saúde humana são cada vez mais fortes. Queria que contasse o caso de Cartagena, que é uma cidade litorânea e pode servir de exemplo para o Brasil, que tem 8 km de costa, e que já começa a sentir os efeitos das mudanças climáticas.
Claudia Martinez- Em 2010 tivemos muitas chuvas no país e uma serie de problemas, especialmente para a região de Cartagena. O que é vulnerabilidade para a CDKN e no caso de Cartagena o que representa? O tema de Cartagena é muito interessante. É o ícone do Caribe e representa de alguma forma a vulnerabilidade que tem as cidades litorâneas em todo o mundo
O IBEMAR (Departamento de águas e mares de Colômbia) apresentou um estudo em 2007, das costas atlânticas e pacificas de Colômbia, onde entenderam que havia muita vulnerabilidade, mas especialmente em algumas cidades. Pelo lado do Pacífico a cidade de Tomaco, no Atlântico a cidade de Cartagena.
Quando encontramos este estudo aqui em CDKN e vimos que não havia sido feita muita coisa para as políticas púbicas, decidimos atualizá-lo e também entender quais eram os pontos e como poderíamos passar da vulnerabilidade para a adaptação às mudanças climáticas numa cidade ícone da Colômbia.
E quais são os pontos que deixam Cartagena vulnerável? Todos os que dizem respeito à subida do mar.
Muitos terrenos foram ocupados em volta da cidade histórica, ou foram construídos em áreas erradas, (onde não poderiam ter sido construídas), se houvesse um plano de ordenamento territorial.
Hoje já sofre conseqüências de ordem climática, como entrada da maré, mas também áreas urbanizadas cada vez mais altas e o sistema de drenagem cada vez com mais problemas.
E isto se agravou quando houve as grandes chuvas de 2010 e 2011 em Cartagena e na Colômbia em geral. Foram as chuvas mais fortes da historia da Colômbia.
Como aconteceu na região baixa da bacia do Rio Madalena. O rio desemboca em Barranquilla, mas tem um canal, chamado Canal del Dique, que o leva para Cartagena. Então de alguma forma recebe 70% de água do país através deste Canal. Somada as fortes chuvas que caiam sobre ela, aumentou o problema hídrico e bairros pobres e ricos foram absolutamente afetados. O clima afeta todo mundo.
Este não é um problema apenas de água, é uma vulnerabilidade socioeconômica, uma vulnerabilidade física de Cartagena.
Por exemplo, numa época Cartagena tinha mangues. Com o tempo foram sendo substituídos por hotéis na linha da praia e outras infra-estruturas, deixando a cidade hoje mais vulnerável. Como sabemos se houvesse mangues, serviriam de barreiras naturais de adaptação.
Como repensar numa cidade e como reintegrar estes ambientes são medidas de adaptação brandas.
Se passarmos para medidas de adaptação mais duras, por exemplo, para conter a subida do mar em áreas mais vulneráveis e ou no centro histórico? Seriam medidas mais duras e caras.
PC- Ao mesmo tempo que o clima afeta todo mundo, a diferença é justamente que o rico tem como escapar ou tomar providencias. Para os pobres só resta ficar e acatar as conseqüências. Justamente com essas chuvas vêm problemas de saúde, doenças, como a dengue.
Como governos pequenos municípios (que não tem um aporte do turismo como Cartagena ), podem sobreviver com uma população basicamente pobre?
CM- Este é um tema importantíssimo, pois realmente são os pobres os mais afetados. Se tenho minha casa num terreno e não tenho a opção de comprar em outro lugar, então tem muito a ver com o tema de ordenamento territorial.
E eu acho que a grande responsabilidade atualmente das cidades e em geral de todos os governantes em níveis estaduais ou federais, é entender que existem espaços vulneráveis e que há espaços que com o clima do futuro serão mais vulneráveis ainda.
Uma das soluções é começar por estas pessoas mais pobres, as pessoas que estão mais vulneráveis, e assentá-las em outros lugares longe do perigo, para viver onde não se inunde, por exemplo.
Em outros casos são necessárias melhores condições de sobrevivência em suas atividades produtivas. Por exemplo, quando tem a ver com atividades agrícolas para os mais vulneráveis. Se estas regiões vão ter mais água, se vão ficar mais secas, que tipo de cultivo de opções de produção será oferecido a estes agricultores para poder viver.
Mas também tem a questão humana de saúde e de segurança. Na saúde, em países como Brasil e Colômbia os vetores de dengue e malária tem subido radicalmente e vão continuar subindo. Quais são as medidas preventivas que teremos que tomar entendendo que isto vai acontecer? E quais serão as novas doenças? Como atender populações que ficarão mais vulneráveis? Estão na mesa temas de muita transcendência para todos os países.
PC- Como fazer para que projetos com esta transcendência, que é necessária, passem de governo pra governo? Muitos se perdem na corrupção entre outras coisas…
CM– Este é um tema fundamental que em CDKN estamos chamando de desenvolvimento compatível com o clima, que basicamente é mudar a visão de curto para longo prazo.
O que estamos tentando mostrar a estes gestores é que são necessárias medidas de 30, 50 ou 100 anos. As previsões do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas são para 100 anos!
Isto implica que algumas políticas neste sentido devem passar a serem políticas de estado e não mais de governo.
Por sua vez, pensar em políticas de estado implica em investimentos para as pesquisas e mudanças, que não vão trazer lucros imediatos, mas que a longo prazo trazem créditos para governos e municípios.
Deve-se entender que na cultura de política publica hoje os créditos que são dados a governos e municípios são imediatos. Temos que fazer que o político seja valorizado daqui a 20 anos, e entender que o que fez bem as coisas foi o que garantiu o desenvolvimento compatível com o clima para muitas populações e muitos governos a longo prazo.
PC- Como são feitos estes compromissos em Colômbia, como a CDKN trabalha? Eles assinam compromissos? Ou é só ‘de boca’?
CM-No caso de Cartagena criamos duas comissões: uma mais política, liderada pelo Ministério de Meio Ambiente, o Instituto de Metereologia entre outros e em nível local a prefeitura de Cartagena e a entidade de apoio local, para garantir que ao conhecimento cientifico esteja contemplado.
Isso no ambiente político.
Mas tem o comitê técnico onde participa não só a prefeitura, mas a câmara de comercio, setores importantes da sociedade como o turismo, portos, as autoridades competentes da região, capitania de portos… É um conjunto de instituições que estão ligadas no tema, com foco em soluções em longo prazo.
PC: Porque que é tão importante ter uma visão sustentável para as estradas?
CM- Fizemos a quantificação do desastre ambiental vindo das chuvas, de 2010 -2012 grande parte foi responsável pela infra-estrutura que desabou, começando pelas estradas primarias do país. Estradas que, claro, não foram construídas para agüentar o rigor do clima. Colômbia também é um pais que possui apenas 15% de infra-estrutura que deveria ter para ser um pais competitivo, então já tem defasagem real com relação à infra-estrutura. E o governo tem trabalhado a toque de caixa, dando ferramentas propicias para acelerar a construção destas infra-estruturas.
Mas o que estamos pretendendo em CDKN é que se vai ser feito isso, neste mutirão de investimento publico privados para as infra-estruturas, que seja feito com as considerações do clima de 20 anos, 50 anos mais.
Também observamos com quê parâmetros estão sendo licitadas estas estradas, que priorizem inovação para este tipo de infra-estrutura.
Achamos que isto é mais lucrativo do que fazer como sempre foram feitas e daqui a dez anos ter que fazer estradas novamente e quantificar o que foi perdido.
É um tema que não é fácil, temos todo o apoio do Ministério do Transporte de Colômbia, as Câmaras estão bem entusiasmadas também, todos os atores estão empolgados.
São temas novos, nem todos os países estão fazendo e é necessário começar a inovar.
PC: O projeto Manati da CDKN e outros parceiros, trata da migração das pessoas por conta das mudanças climáticas.
CM– Partiu de um desastre, mais uma vez, que aconteceu em 2010-2011 aqui na Colômbia, onde se rompeu o Canal del Dique e se inundaram muitas cidades da bacia baixa do Rio Madalena e uma delas foi a população de Manati.
A cidade inteira ficou debaixo d água e teve que ser realocada para o a região do Atlântico, pra uma área que antes era temporária. Mas já levam dois anos por lá. A migração climática é cara, custa dinheiro.
Claro que as pessoas querem voltar para sua região, onde nasceu o seu avô, por exemplo, mas não será possível.
A realocação é todo um problema cultural e socioeconômico. Há uma resiliência socioeconômica, ‘como eu faço para entender o que está me acontecendo, onde posso começar outra nova vida’?
Este projeto tem a função de entender estas condições socioeconômicas e para criar estes parâmetros, não só aqui para Colômbia, mas também para regiões como as ilhas . Populações de ilhas inteiras deverão ser mudar, regiões inteiras deverão entrar em outros países .
Procuramos entender esta resiliência socioeconômica e socioafetiva das comunidades afetadas.
Como trabalhar com a discriminação contra as pessoas vitimas da migração por conta das mudanças climáticas?
PC- Quem recebe esta pessoas também passa por um dilema socioafetivo, não? Conflitos de agua, de terra…
CM-Exatamente. É algo que já esta acontecendo na África e na América Latina. Onde encontrar regiões com possibilidades agrícolas, com água?
CDKN trata isso como segurança climática. E é como trabalhamos para incentivar os países a terem esta segurança no seu desenvolvimento projetado, e competitivo, mas garantindo para a população uma vida adaptada as mudanças climáticas, mas também resiliente em termos socioeconômicos.

 

Assista ao vído do II Diálogo con Periodistas sobre cambio climático, promovido em 2013, pelo YPIS :