Jorge Drexler, professor de Brasil

Jorge Drexler, professor de Brasil

Jorge Drexler nasceu no Uruguai por acidente. Sua especialidade mesmo está aqui

Paulina Chamorro

23 Abril 2013 | 18h00

EMANUEL BOMFIM, PAULINA CHAMORRO – O Estado de S.Paulo

OUÇA a entrevista com o  simpático Jorge Drexler !

E olhem eu aqui toda fã, entrevistando o prório, na última visita do  cantautor ao Brasil.


 

Não fosse pelo espanhol de seus versos, o uruguaio Jorge Drexler poderia muito bem ser enquadrado como um artista da MPB. Seu conhecimento sobre a genealogia da nossa música é extensivo e profundo: vai de Villa Lobos a Marcelo Camelo. Não bastasse a imersão histórica, também absorvida na linguagem de sua produção, o vencedor do Oscar por Al Outro Lado Del Rio transita com facilidade por aqui. Uma amizade com Moska que abriu múltiplas portas e rendeu parcerias.

Sem lançar discos desde 2010, o músico – que fala um português impecável – se dedicou nos últimos anos a projetos multidisciplinares, incluindo a atuação no novo filme de Daniel Burman e o lançamento de aplicativo musical para smartphones e tablets. No próximo mês, ele volta ao Brasil para apresentar show da turnê Mundo Abisal em algumas capitais, mais um motivo para engatar uma simpática conversa com o Estado. Abaixo, os principais trechos:

Resistência ao idioma. A diferença linguística é essencial para entender essa situação. O Brasil é um país enorme, que dada a sua originalidade linguística, quase não precisa de uma indústria estrangeira para abastecê-lo. Ele é autossuficiente culturalmente. É natural que se ouça a própria música, sem levar em conta o altíssimo nível da música produzida por aí. Acho, no entanto, que isso está mudando agora, porque o grande referencial do Brasil, os Estados Unidos, estão sendo conquistados pela língua espanhola. Através dele, paradoxalmente, a língua espanhola está entrando mais no Brasil.

Aplicativo. Neste meu projeto, de nome N, a tecnologia é só um meio. A finalidade é poética: quero investigar as possibilidades combinatórias dos textos nas canções. E, assim, entregar ao ouvinte a chance de modificá-las. Talvez tenha uma herança da poesia concreta brasileira ao experimentar com as diferentes funções da palavra. Tem vários exemplos na música brasileira, como Construção, de Chico Buarque, ou mesmo Zera Reza, de Caetano Veloso, que serviram de inspiração. Estatisticamente é quase impossível que duas pessoas façam a mesma versão. Você pega as palavras e muda de lugar e todas as histórias fazem sentido. Foi um ano e meio dedicado a isso…

Admiração pelos setentões. Eu acho Caetano o artista mais importante do terceiro mundo, assim como o Chico Buarque é o letrista mais impressionante das línguas latinas. Construção me influenciou muito neste último projeto. É uma canção combinatória também: “Amou daquela vez com se fosse a última, beijou sua mulher como se fosse a única”. Depois ele muda: “Amou daquele vez como se fosse o último”. Chico vai mudando e fazendo diferentes combinações da história. Você tem a mesma trama, com vários pontos de vista.

Profissão: ator. Estou muito orgulhoso dessa loucura (atuar no longa A Sorte em tuas Mãos). O Daniel Burman, diretor, me falou no começo: ‘Estou escrevendo um personagem que é a sua cara’. Tomei aquilo como um elogio, não como um convite. Ele teve de ser mais claro: ‘Não, você não entende, eu vejo você fazendo este personagem’. Respondi: ‘Daniel você tá louco, a gente é muito amigo… Pra que arruinar uma amizade tão linda?’ Mas ele insistiu e veio até Madrid para me convencer. Diante daquele roteiro, pensei: ‘Eu tenho medo, mas não posso deixar passar essa oportunidade de trabalhar com um diretor que admiro, que é um bom amigo, e que traz um baita personagem pra mim’. No final, foi uma experiência maravilhosa. (filme está previsto para estrear em junho no Brasil)

Requisitado no mundo latino. Estou sempre recebendo convites, mas não é sempre que participo. Só faço se gosto muito. Eu acho, por exemplo, a Ana Tijoux uma das melhores artistas de língua espanhola. Talvez a minha favorita. Não sou muito original, porque o Thom Yorke, do Radiohead, já falou maravilhas dela. Mas eu gostava antes! (risos). A Natalia Lafourcade é uma artista importantíssima no México e fez um disco dos meus compositores favoritos (Agustín Lara). Eu gostava dele mesmo antes do Caetano gravar Maria Bonita. Meu gosto concorda com o de artistas que eu admiro… Por falar nisso, também tive o privilégio de participar no disco em homenagem aos 70 anos de Caetano Veloso. Gravei uma versão cumbia de Fora da Ordem. Acho que ele gostou, mas não sei se ele disse por formalidade ou se gostou mesmo, até porque ficou muito louca

Disco novo. Eu estou pensando num trabalho de estúdio agora. Passei os últimos dois anos fazendo coisas inéditas em minha carreira: ator num filme, aplicativo com canções combinatórias, escrevi uma obra para o balé de Julio Bocca, em Montevidéu, e agora quero fazer canções normais.

Shows no Brasil. É uma apresentação minimalista (a que fará no Bourbon). Tem dois músicos que intercalam pequenos instrumentos eletrônicos e acústicos. Há, ainda, um trabalho especial com as luzes e a cenografia.