Thiago Lasco/Estadão
Thiago Lasco/Estadão

24 horas em Valle Nevado: o que dá para fazer na estação de esqui

Em tão pouco tempo, fazer uma visitinha ao centro de neve, a apenas 70 km de Santiago, é possível. Fazer bonito sobre os esquis, nem tanto

Thiago Lasco, O Estado de S.Paulo

25 de agosto de 2019 | 05h00

Cheguei à estação de esqui de Valle Nevado, no Chile, com uma pergunta na cabeça: o que dá para fazer em apenas 24 horas por lá? Afinal, esse era o tempo que eu tinha disponível. Pouca coisa mais que um daqueles bate-voltas a partir de Santiago.

Vou começar já entregando o ouro e dizendo o que NÃO dá para fazer em 24 horas em Valle Nevado: aprender a esquiar. Sim, é um centro de esqui, os picos estão todos cobertos de neve (menos neve que o normal; por isso, neste ano a temporada deve terminar mais cedo, provavelmente já no início de setembro) e ver aquelas pessoas esquiando com liberdade e desenvoltura, como se fosse a coisa mais fácil do mundo, dá uma vontade danada de fazer igual. Mas é bom moderar as expectativas. 

Esquiar é combinar "pizza" com "batata frita"

Quem chega em Valle Nevado sem ter nenhum conhecimento de esqui pode ficar meio acanhado. Afinal, todo mundo ali parece ter o esporte nas veias. Famílias inteiras flanam para cima e para baixo carregando, com a maior naturalidade, equipamentos que são um verdadeiro suplício para os novatos. 

O primeiro passo para experimentar o esporte é alugar esquis, botas e roupas adequadas para a neve e contratar aulas (vou falar sobre os valores envolvidos mais tarde). Já aviso que as botas são duras e pesadonas e você vai andar de um jeito bem desajeitado no começo. 

Na hora de escolher o tamanho, o calçado não pode ficar apertado a ponto de massacrar os dedos; mas, se ficar folgado demais, você perde aderência e o risco de ter uma lesão é maior. Fiquei meio perdidão, mas tive de escolher logo, porque o pessoal da loja, como aquela atriz global famosa, não tem paciência com quem está começando.

Já o meu professor de esqui era um verdadeiro gentleman. Fluente em espanhol, português,  francês, inglês e italiano, tinha bom humor e era muito didático - usava imagens de compreensão imediata para batizar as posições. Para deslizar na neve, era “batata frita” (os dois esquis paralelos); para reduzir a velocidade em uma descida, era “pizza” (os dois esquis apontando para dentro, mas sem se tocarem). Com os dois esquis apontados para fora, com as extremidades traseiras quase se tocando? “Pizza invertida”.

Parece tudo muito elementar, e é. Mas, se você estiver completamente cru, aprender esses e outros fundamentos básicos, como escalar um monte de neve (sempre de lado, pisando com a lateral dos pés) ou mudar de direção, vai consumir um bocado de tempo. Minha aula experimental de apenas uma hora passou voando. Eu poderia ficar ali de boas tentando aplicar as técnicas aprendidas, mas elas não eram nem de longe suficientes para eu sair do cercadinho do jardim de infância e ganhar as pistas. A coisa exige um pouco mais de tempo e persistência. 

De acordo com meu instrutor, para obter um mínimo de desenvoltura para conseguir praticar sozinho, é preciso fazer pelo menos quatro horas de aula. Por isso, é pouco provável que você aprenda a esquiar, do zero, em uma visita rápida como a minha. Quem chega lá determinado a aprender opta por fazer uma imersão no esporte. Uma paulistana com quem conversei estava ali havia alguns dias, já tinha gasto mais de R$ 3 mil em aulas e apenas começava a se sentir segura. Achou caro, mas encarou como um investimento.

Fora das pistas, tem piscina aquecida, happy hour com sopa e até baladinha

Como virar um grande esquiador não ia rolar mesmo, fui conferir as opções que o resort dá para os hóspedes se divertirem fora da neve. Cada um dos três hotéis do complexo (Puerta del Sol, Tres Puntas e Valle Nevado) tem uma programação que é distribuída em todos os quartos e também nas mesas durante o café da manhã.

Dei uma olhada geral nas atividades. Tinha ioga e alongamento no fitness spa do Hotel Valle Nevado (onde também dá para agendar massagens e tratamentos de beleza; fiz uma massagem relaxante bem caprichada, que custa 66 mil pesos ou R$ 390), um espaço Kids com games Nintendo Wii e cinema no Hotel Puerta del Sol, aulas de culinária e origami e, à noite, uma baladinha com DJ no último piso do Hotel Tres Puntas (não fui conferir, mas dava para ouvir parte das batidas de dentro do meu quarto, que não era nesse hotel). 

Confesso que minha maior expectativa era o tal après ski. É uma espécie de happy hour que começa assim que as pistas de esqui são fechadas, às 17h. Como durante o dia boa parte dos hóspedes do resort está entretida esquiando ou praticando snowboard, é nesse momento que, em tese, todo mundo se reúne e dá para ter uma boa amostra do público do lugar. 

Pelo que haviam descrito, eu imaginava algo divertido e badalado, com bebidas e alguma música, um ambiente propício para todo mundo interagir. Mas, depois de um dia inteiro nas pistas, todos pareciam já saciados de emoções e se contentavam em relaxar em silêncio nos sofás, entre goles de chocolate quente e conchas de sopa, que eram oferecidos pelo hotel. Talvez uma happy hour com sopa em vez de drinques faça mesmo mais sentido, quando a proposta é acordar bem descansado no dia seguinte para aproveitar ao máximo mais um dia de esqui.

Outra opção para relaxar no fim do dia é disputar um espacinho na piscina aquecida. Tem DJ para criar um clima e dá para pedir bebidas sem sair da água. No fim da tarde, a temperatura já beirava os 5 graus negativos, mas não vi ninguém batendo o queixo de frio ao sair da piscina e se embrulhar no roupão.

Hotel antiguinho e brasileiros de sobra

O hotel em que me hospedei, Puerta del Sol, ficava no meio do caminho entre o luxo do Hotel Valle Nevado e a informalidade do Tres Puntas. Meu quarto era bem antiguinho, com muita madeira e carpete e um colchão mais para o molenga. Por outro lado, o atendimento era amável e a localização está a poucos passos do que realmente interessa, o centro de esqui.

Almocei duas vezes no restaurante Montebianco, com um cardápio de saladas, sanduíches, pizzas e um ou outro grelhado. Fui de hambúrguer com cebola caramelizada no primeiro dia e pizza de cogumelos na despedida. Vale encarar o frio para comer no deque de madeira aberto, curtindo o visual com os picos nevados ao fundo.

O jantar e o café da manhã foram dentro do hotel, naquele formato típico de resort, com bufê de saladas e uma ilha de preparos em que eram finalizadas massas e grelhados no jantar e omeletes pela manhã. Tudo rápido e descomplicado. Para um jantar mais sofisticado, a pedida é o La Fourchette, um restaurante francês isolado no fim da ala que concentra as lojas.

Durante o tempo em que estive em Valle Nevado, tive a impressão de que a única língua corrente era o português. Nas pistas, na varanda que se debruça para o centro de esqui, na fila para pedir a massa. Tinha até picanha e pão de queijo para satisfazer os paladares dos brasileiros. E muitos pareciam ser clientes assíduos do lugar. 

Os custos de brincar na neve

Se a ideia for mesmo esquiar, vá com o bolso preparado. Só com o aluguel dos itens necessários, são R$ 500 por dia. São 45 mil pesos (R$ 265) para os esquis e botas e mais 38.500 pesos (R$ 227) pelas roupas para a neve (um kit com jaqueta, calça, luvas e óculos). Para fazer a locação, você terá de dar um cartão de crédito como garantia. 

Vale a pena comprar, ainda no Brasil, uma segunda pele para usar por baixo da roupa de neve - calcule mais R$ 250.

As aulas de esqui podem ser feitas em grupo (com até 10 alunos) ou individualmente. Cada uma dura 1h55 e custa 44 mil pesos/R$ 258 (aula coletiva) ou 110 mil pesos/R$ 647 (aula particular). 

Para quem vai passar pouco tempo em Valle Nevado, uma boa pedida pode ser o combo promocional, vendido no site do resort, que inclui entrada para o parque, aluguel de equipamento e uma aula de esqui por 79.900 pesos (R$ 470).

Se depois desse primeiro contato você pegar gosto pelo esporte e começar a frequentar estações de esqui, sairá mais barato comprar e trazer sua própria roupa e equipamentos. 

Vale a pena fazer um bate-volta?

Muitas pessoas ficam tentadas a fazer visitas até mais curtas que a minha: de bate-volta mesmo, afinal Santiago fica a apenas 70 km de distância. Pode parecer pouco, mas não se engane: é deslocamento para duas horas ou mais, a depender do trânsito. Sobe-se a serra por uma estradinha sinuosa de pista simples, com curvas travadas e pouco propícia a ultrapassagens. 

Os transfers que recolhem passageiros em Santiago pela manhã começam pelos hotéis do centro e seguem em direção ao leste, onde estão os bairros mais modernos da cidade: Providencia, Las Condes, Vitacura. Por isso, quem está hospedado nessa região acaba tendo direito a uma horinha a mais de sono antes do passeio.

Em vários momentos, o motorista da minha van foi interpelado e teve de informar que eu já tinha reserva feita em um hotel, para poder seguir adiante. Valle Nevado gira em torno do esqui e do snowboard e tudo ali é pensado para quem vai praticar esses esportes; quem não está hospedado em um dos três hotéis do complexo precisa pagar um ingresso para ter acesso ao parque. Os preços vão de 26.500 pesos (R$ 156) a 42.400 pesos (R$ 250), conforme o dia da semana e o tipo de tarifa (com dia certo sai mais barato que com data flexível). 

A cobrança de um ingresso que não é barato pode parecer pouco simpática para os visitantes de bate-volta, mas minha guia explicou que isso tem como objetivo garantir o conforto dos clientes do resort. “Imagine que você pagou caro para se hospedar por uma semana e esquiar, e não consegue lugar em nenhum restaurante para almoçar, porque as mesas estão todas ocupadas por pessoas que vieram só olhar”, ela argumentou.

Por isso, muitos turistas que querem apenas ter algum contato com a neve optam por não fazer a viagem inteira até Valle Nevado. Eles param alguns quilômetros antes da entrada do complexo, em bolsões improvisados na estrada, onde as vans ficam estacionadas. 

Se vale ou não a pena desembolsar o valor do ingresso para fazer apenas um bate-volta a Valle Nevado, é decisão que cabe a cada um. Se você já sabe esquiar, pode até dar tempo de brincar um pouco. Mas para ter uma noção real do que é a experiência de Valle Nevado, fez falta ficar pelo menos alguns dias. Não só para botar a cara na neve de verdade, e destravar nos esquis, mas também para ficar fazendo nada, tomar um chocolate quente ou um vinho, enfim, curtir um pouco o clima do destino.

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