8 dicas para rodar pelas estradas da Namíbia

Acordei com uma aeromoça me pedindo que abrisse minha janelinha para a aterrissagem em Windhoek – e, ao fazer isso, fui envolvida por uma explosão de claridade que obrigou meus olhos a se fecharem em submissão, como se nunca mais fossem abrir. Ou, pelo menos, não até que chegasse a hora de desembarcar.

Sarah Khan, The New York Times

11 Março 2016 | 16h21

Uma viagem pela Namíbia é em si mesma um aprendizado, cheia de provações, perguntas e até mesmo uma noite inteira observando as estrelas.

Lição nº 1: o sol da Namíbia é mais poderoso do que se pode imaginar.

Ao meio-dia, a bola de fogo iluminando o céu brilha tão ferozmente que a paisagem mais parece uma fotografia superexposta.

O país é chamado de "A terra que Deus fez em um momento de raiva" – ou, menos poeticamente, as Portas do Inferno –, mas me pergunto se "terra esquecida por Deus" não seria mais exato. Em uma viagem por mais de 2.400 quilômetros em seu terreno austero, parecia que o projeto de criação da Namíbia havia sido cuidadosamente concebido, mas abandonado no meio do processo: leitos de rios completamente secos e sedentos, savanas desprovidas de vegetação, dunas de areia imponentes se deslocando sem rumo há milênios. Deus abençoou a Namíbia com muita luz, mas não proporcionou muitos lugares para se proteger dela.

E mesmo assim... Ele não foi completamente negligente: em poucos lugares a paleta de cores da terra parece caleidoscópica. O que poderia ter sido uma topografia monocromática monótona é na verdade sedutora, com tons de branco, vermelho e marrom se misturando no céu do início da manhã e do crepúsculo.

2. Logo que reservar seu voo, reserve também um 4X4.

Após consultar um mapa, tracei um circuito que incluiu as dunas poderosas de Sossusvlei, a pitoresca cidade praiana de Swakopmund e a famosa Costa do Esqueleto – dizem que tem esse nome porque navios e baleias vêm para cá para morrer e a terra é tomada por seus restos esmaecidos pelo sol –, antes de seguir para o interior, através das montanhas de Damaraland, voltando para Windhoek.

Outra coisa que falta na Namíbia: boas estradas asfaltadas. Com exceção de uma ou outra, as maiores, a maior parte do país é interligada por estradinhas de terra cuja qualidade varia, o que significa que um veículo 4X4 é essencial caso você seja corajoso o suficiente para dirigir. Minhas amigas Sabiha, Safiyyah, Aadila e eu reservamos um Toyota Fortuner e o batizamos de Dusty.

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3. Um grupo de mulheres viajando pelo terreno selvagem é uma visão incomum.

Partimos da Cidade do Cabo, na África do Sul, no fim de semana do Dia da Mulher. Era um tributo à força feminina, mas, desde o pessoal do hotel até os atendentes do posto de gasolina e outros viajantes, todo mundo que encontramos parecia agradavelmente surpreso com nossa comitiva – e por vezes um pouco preocupado.

Porém, mesmo sendo o primeiro grupo a atravessar o deserto da Namíbia ao som de "Barbie Girl", "Heaven Is a Place on Earth", "Sweet Child O' Mine" e músicas sortidas de Bollywood, a testosterona não é um pré-requisito para enfrentar o terreno acidentado e deixar uma nuvem de poeira para trás.

4. Dormir em hotéis de mil estrelas.

De Windhoek, dirigimos durante quatro horas através de planícies inexpressivas e colinas ondulantes antes de fazermos uma parada. Chamar Solitaire de cidadezinha seria um exagero. Ela surgiu no horizonte no momento necessário e passamos um tempo lá, saboreando a torta de maçã da Moose McGregor's Desert Bakery.

Naquela noite, fizemos nosso check-in no Namib Dune Star Camp. Há nove chalés, abastecidos por energia solar, encarapitados nas dunas, e as camas queen size têm rodinhas para que sejam levadas para o deque durante a noite. Naquela noite, dormi sob um manto brilhante de estrelas, com o som do vento assobiando por entre as dunas, lembrando muito o mar.

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5. Caso tenha a oportunidade de descer uma duna, aproveite-a.

"Vocês têm corda?", perguntou um homem na tarde seguinte. Havíamos acabado de chegar às dunas de Sossusvlei, a uma hora da entrada do Parque Nacional Namib-Naukluft, e estávamos esvaziando nossos pneus para o trajeto off-road através dos últimos poucos quilômetros de areias. As vans que transportaram visitantes menos intrépidos faziam sua última ronda. Ele fez um gesto para outro Fortuner, parado a alguns metros de distância. "Estamos encerrando o dia", advertiu ele. Sua mensagem era clara: se – quando – tivéssemos problemas, estaríamos por nossa conta.

Passamos pelo irmãozinho de Dusty coberto de poeira e chegamos ao nosso destino em 15 minutos.

Chegando a mais de 300 metros, as dunas da Namíbia estão entre as mais altas do mundo. "Elas parecem cadeias de montanhas", comentou Sabiha quando as avistamos no horizonte.

O Deserto da Namíbia é o mais antigo do mundo e Big Daddy, com quase 350 metros, a duna mais alta da região, foi a que decidimos conquistar. Chegamos ao pico em uma hora e meia. Logo abaixo está o famoso Deadvlei, o "pântano morto", parecendo uma panela de barro ressecada, uma argila branca petrificada cravejada de carcaças de acácias que se transformaram em tocos de carvão. O efeito é macabro e surreal, como uma pintura de Dalí; um local totalmente desprovido de vida.

6. Saiba trocar pneu (ou pelo menos, saiba conseguir ajuda).

6b. Sempre faça seguro dos pneus.

Naquela tarde, resolvemos esticar de Sossusvlei em direção ao Atlântico, mas, primeiro, um antigo ritual de passagem. Toda viagem pela Namíbia tem pelo menos um pneu furado; enfrentamos nosso destino uma hora depois de sairmos de Walvis Bay. Poupamos tempo bancando as donzelas em perigo – atitude que todos esperavam de nós –, pois sabíamos que quatro mulheres e um pneu furado não convivem por muito tempo. E assim foi.

7. A lua fica a cerca de 32 quilômetros a leste de Swakopmund.

Se pedir orientações para chegar à lua, provavelmente atrairá olhares estranhos. Percebemos isso quando saímos de Swakopmund, procurando uma área marcada simplesmente em nosso mapa como Paisagem Lunar.

"Tem certeza que não quer dizer... isso?", perguntei a Safiyyah, mostrando o mesmo terreno estéril que percorremos por toda a Namíbia. "Não, a lua não é assim!" ela respondeu.

Quando finalmente a encontramos, o cenário era de fato lunar. Quando você acha que a paisagem do país é diferente de tudo que há na Terra, ela fica celestial.

8. Dá para confiar nos namibianos.

Voltamos à Terra atravessando o Cape Cross, um posto remoto onde há um hotel ajeitadinho, uma colônia de focas fedidas e pouca coisa mais e seguimos por uma estrada cheia de provas da ética da população. Os campos que rodeiam a estrada brilhavam com cristais de sal e almas empreendedoras se reuniram e limparam os mais bonitos, exibindo os cristais em barracas. Possíveis compradores paravam, selecionavam aqueles de sua preferência, consultavam uma lista de preços e depositavam a quantia apropriada em um jarro de vidro, que presumivelmente seria coletado no futuro.

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9. A preferencial é dos elefantes.

Dirigir pela Namíbia não é para quem se distrai com facilidade: é imprescindível que haja uma alta tolerância a estradas monótonas e uma boa capacidade de concentração enquanto a cobertura de terracota ininterrupta se estende ao seu redor.

Safiyyah e Aadila haviam acabado de cochilar no banco de trás quando a placa indicando a passagem de elefantes, que eu havia achado engraçada, provou ser real. Se isso tivesse acontecido alguns segundos antes, poderíamos ter ficado perto demais; alguns segundos mais tarde, teríamos perdido a cena por completo.

10. A Namíbia pode tomar conta de você.

E se entranhar. E muito mais. Encontrava vestígios de poeira vermelha dias depois que saí de lá – um diploma de terra que comprova que passei pelos testes da Namíbia. Ela é a lembrança que reaparece quando menos se espera, trazendo consigo uma tempestade de areia de recordações.

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