A angústia diante de uma mala vazia

Mr. Miles: O homem mais viajado do mundo

O Estado de S.Paulo

07 Setembro 2010 | 01h39

Nosso incontrolável viajante está profundamente abatido pela repentina cegueira que acometeu sua fiel mascote Trashie, a raposa das estepes siberianas, indispensável companheira de viagem e bebida. Para tentar recuperar a visão da cadela russa, partiu, com urgência, para Timisoara, na Romênia, onde vive, segundo lhe informaram, o melhor veterinário oftalmologista da Europa.

Mr. Miles nos manterá informados sobre os acontecimentos. A seguir, a pergunta da semana:

Mr. Miles, em 15 dias embarcarei para minha primeira viagem à Europa. Serão dois meses entre Inglaterra, Suíça e Alemanha. Apesar do planejamento da viagem já ter feito até aniversário, estou aterrorizada pela hora de arrumar a mala. Acredito que não exista uma fórmula mágica para isso, daí o motivo de recorrer ao senhor, que está sempre de malas prontas. O que não pode faltar na bagagem? E o que é desnecessário?

Eneida Stefanoni, por e-mail

"Well, my dear: eis um tema no qual minha experiência é, probably, pouco exemplar. Como você deve ter percebido, meus trajes são quase invariáveis e, há décadas, conservo meu look britânico.

Therefore, carrego - conforme a duração da viagem - uma ou duas mudas de roupa, em tecido mais leve ou pesado, de acordo com o destino. Vão comigo, as well, quatro camisas que mando lavar (e engomar) ao fim de um dia de uso, underware (que lavo sozinho) além do que, of course, um bom livro e também um dicionário, com o qual me atualizo e pratico línguas remotas.

Quando a viagem envolve aventura ou praia, tenho um kit sobressalente para cada situação, com equipamentos específicos como binóculos, botas e shorts. Para lugares frios, um sweater de lã de carneiro feito por minha tia Josephine, na Escócia, e uma capa da Burberry de Londres.

Há diversos consultores de moda que podem ajudá-la melhor nessa questão. However, minha vivência revela que, desde que os baús foram abolidos, não há com o que se preocupar. Turistas, por definição, são sempre pessoas mal vestidas e amarfanhadas que, por falta de tempo ou alternativa, acabam criando exóticas combinações com o que lhes resta de roupa limpa para circular pelo mundo. Never mind: os locais já estão bem acostumados.

A alternativa é ter muito dinheiro e partir mundo afora com o seu armário completo dividido em malas. Para isso, além de pagar uma fortuna de sobrepeso nos aviões, você terá de contratar um séquito de carregadores, como os que eu já tive, a long time ago, durante minhas jornadas pela Índia e pela Birmânia na companhia de Rudyard (N. da R.: Rudyard Kipling, escritor e poeta britânico nascido em Mumbai).

Nevertheless, compreendo e me declaro compadecido de sua aflição pessoal. O viajante diante de uma mala vazia sofre, de certa forma, a mesma angústia do escritor diante de um papel em branco.

Tenho um amigo, o bravo e meticuloso dr. Nelson Donnerstag que, antes de qualquer jornada, reserva diversos dias para a tarefa de preparar sua bagagem. Suas malas ficam abertas e vão sendo lentamente preenchidas após profunda análise e discussões com seus amigos e parentes. O chamado método Donnerstag alcança cerca de 60% de sucesso, mas vem sendo aperfeiçoado.

Mais original é a solução encontrada pelo excêntrico e admirável Andor Sterntall, que mora na América do Sul e tem familiares por todo o mundo. Ele carrega uma mala repleta de presentes que distribui em suas escalas e, o que não ganha em retribuição, adquire com prazer para distribuir quando volta.

Sei que nenhum desses é o seu caso, dear Eneida. Entretanto, me consola o fato de que, a esta altura - levei um bom tempo, I'm afraid, para ler sua correspondência -, o seu problema já esteja resolvido.

Para o bem ou para o mal. A própria viagem se encarregará de colocá-lo de volta às suas reais (e diminutas) proporções."

É O HOMEM MAIS VIAJADO DO MUNDO. ESTEVE EM 132 PAÍSES E 7 TERRITÓRIOS ULTRAMARINOS

 

 

 

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