Gianni Cipriano/NYT
Gianni Cipriano/NYT

A arte como crítica

Até novembro, a prestigiada Bienal de Veneza inunda a cidade com obras de arte que, algumas vezes, são uma provocação ao overturismo

Daniel Nunes Gonçalves, Especial para o Estado

06 de agosto de 2019 | 04h50

Boa parte dos turistas que Veneza recebe em 2019 é formada por amantes da arte que vão à 58.ª edição da Bienal, o maior e mais prestigiado evento de arte do mundo. Sob o tema May You Live in Interesting Times (algo como Que Você Viva em Tempos Interessantes), 79 artistas ocupam, até 24 de novembro, dois espaços em Castello: o Arsenale, complexo de estaleiros que remonta ao século 12, e o Giardini, lindo parque à beira da Lagoa. 

Espalhados pela cidade estão alguns dos pavilhões dos 89 países presentes, o que recheia o menu artístico local, que conta com museus como Peggy Guggenheim e Gallerie dell’Accademia. Neste ano, o Brasil participa, em um pavilhão do Giardini, com o vídeo Swinguerra, da dupla Bárbara Wagner e Benjamin de Burca. Com 20 minutos, é um registro de dançarinos das periferias de Pernambuco ensaiando a swingueira. Os jovens são em sua maioria negros e de gênero não-binário, o que torna a performance mais provocativa.

Apesar da overdose de trabalhos contemporâneos do circuito oficial, uma obra clandestina roubou a cena em maio. O artista anônimo britânico que assina como Bansky promoveu uma performance desautorizada na Praça San Marco. Cavaletes com nove quadros, que juntos criavam a imagem de um navio se impondo sobre as pequenas gôndolas de Veneza, serviram de protesto não apenas ao problema do overturismo na cidade, mas também ao fato de Bansky nunca ter sido convocado para expor na Bienal.

O artista (ou alguém que ele contratou) foi expulso da praça, mas a performance e a obra, intitulada Venice in Oil, foram registradas em vídeo e viralizaram nas redes sociais digitais.

No line-up oficial, uma outra crítica às formas de lazer da sociedade de consumo, como o turismo de massa, ganhou os holofotes. A instalação Sun & Sea (Marina), do coletivo Neon Realism, da Lituânia, ganhou o Leão de Ouro, prêmio máximo da Biennale 2019. 

A performance ocorre todos os sábados até novembro, dentro de um galpão do prédio histórico da Marina Militare. Nela, cantores e voluntários simulam ser um grupo de banhistas em uma praia turística qualquer, e nela entoam uma ópera.

A obra foi vista também como um alerta ao aquecimento global em uma cidade sensível a inundações. Em outubro de 2018, a subida das águas em 156 centímetros acima do nível do mar foi a maior da década, alagando três quartos da cidade. As águas, como o excesso de turistas, são uma ameaça delicada à vida de Veneza.

 

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