A beleza dos outros

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Mr. Miles, O Estado de S. Paulo

01 Novembro 2016 | 02h30

Nosso correspondente britânico escreveu uma longa crônica para responder à pergunta de uma de suas leitoras. 

Querido Mr.Miles: o senhor vive dizendo que, nas viagens, temos de aprender com os outros. Mas o que a gente aprende se não entender o idioma?   Penelope Fernandes, por e-mail

Well, my dear, em primeiro lugar gostaria de lembrá-la que a vida inteira é um processo de aprendizado. No caso dos viajantes, o conhecimento começa até antes do sonho de partir. A escolha do destino, of course, está ligada a algum tipo de informação: um livro, um filme, uma reportagem... algo, enfim, que você aprendeu e transformou em desejo.

 

Durante o percurso, darling, aprendemos o tempo inteiro sem esforço – e isso só não acontece se nos fecharmos como a casca de uma ostra. Nesse caso, nem seria preciso sair de casa. A gente aprende como as pessoas se portam; se são quietas ou ruidosas, se têm programas e preferências que não temos; o que usam para alimentar o corpo e o que fazem para aliviar a alma; como se vestem, como comem, quais são suas preferências políticas e quem são seus ídolos – escritores, músicos, esportistas, seja quem for que as represente. 

On the other hand, a gente aprende muito em situações prosaicas ou na descoberta do que nem sequer supunhamos existir. Vou tentar, modestly, ilustrar o que digo com dois pequenos casos. O primeiro, prosaico e até divertido, diz respeito a um velho amigo brasileiro – recurso que uso para aproximá-los da cena. Trata-se de um cidadão que foi visitar Lisboa, uma cidade agradável e cheia de vida nesse novo século. Durante os diversos passeios que fez, descobriu que havia perdido, em algum lugar, um volume de Pessoa (N.da R.: Fernando Pessoa, poeta lusitano) que vinha a adquirir na Livraria Bertrand.

Metódico, esse preclaro amigo decidiu refazer o trajeto do dia com o intuito de recuperar a brochura. Foi ao Parque das Nações, na região leste da capital portuguesa e, procurando sempre, descobriu que lá havia uma sessão de Perdidos e Achados. ‘Que engraçado’ – comentou o rapaz. ‘No Brasil, chamamos esse serviço de Achados e Perdidos’. Foi brindado com uma resposta repleta de aprendizado: ‘Ora’ – disse-lhe a funcionária de plantão – ‘pois muito me espanta. O senhor há de convir que primeiro perde-se e depois se acha. Daí perdidos e achados.’ Meu amigo jamais encontrou o livro. Mas, repete com frequência a historieta.

Outro episódio repleto de aprendizado ocorreu em Narai, no Japão, com minha querida amiga Caroline e seu Gustaf. Narai, para quem não sabe, é uma vila turística que consiste em uma única rua linda, com um casario coberto de palhas de arroz e pequenas lojinhas. Caroline constatou, em determinado momento, que a máquina fotográfica, com os registros de sua tourné em terras nipônicas, havia sumido.

Para reencontrá-la, tentou contato com os moradores e, na base da mímica, conseguiu fazer-se entender – embora sem resultado. Naturalmente entristecido, o casal seguiu até o fim da rua, onde encontrou um serviço de informações turísticas. Os atendentes já sabiam do caso, que vicejou como soja na pequena urbe. Mas também eles não tinham boas notícias.

Pouco depois, encostou na porta do estabelecimento uma luminosa viatura da polícia. Caroline entreviu, em uma caixa no interior do carro, a máquina perdida. Imediatamente, com um sorriso no rosto, tentou recuperá-la. O policial, eficiente, disse a ela que não podia entregar-lhe o equipamento. O que foi motivo de surpresa para o casal, que não entendia porque não podia simplesmente recuperar a máquina. Ato contínuo, entrou em cena um simpático senhor a quem Caroline já havia conhecido no começo da rua (ele falava inglês) e as coisas foram esclarecidas. Depois de falar com o agente da lei, o senhor informou à Caroline que ela não podia retirar a máquina sem uma recompensa. O casal, conhecedor da reputação de honestidade dos japoneses, recorreu ao dinheiro que carregava. 

O policial, ofendido, disse ao senhor o que, de fato, esperava do casal. A máquina foi encontrada por uma cidadã de Narai, que sentou-se ao lado dela por uma hora à espera de seu proprietário. Como ela precisava viajar a uma cidade vizinha, entregou, por fim, o equipamento à policia. Portanto, informou o policial, a máquina só seria devolvida depois que o casal agradecesse à senhora em questão. Infelizmente, não haveria tempo, porque o casal tinha um trem a pegar antes do horário de retorno da senhora. Para resolver a questão, o senhor japonês que intermediava as negociações assumiu o compromisso de agradecer a senhora em nome do casal. Naquele dia, portanto, Caroline não fotografou. Mas teve uma das mais delicadas lições de sua vida.” 

MR. MILES É O HOMEM MAIS VIAJADO DO MUNDO. ELE ESTEVE EM 312 PAÍSES E 16 TERRITÓRIOS ULTRAMARINOS.

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