Nathalia Molina
Nathalia Molina

A casa de família do intercâmbio

Hospedar-se com uma família local faz o estudante mergulhar na cultura do país – mas é preciso ter jogo de cintura e se adaptar às regras e costumes

O Estado de S.Paulo

19 Dezembro 2017 | 04h20

O primeiro tem quarto com cama e aquecimento ruins, mas oferece uma boa ducha e fica colado ao metrô. No outro, você dorme quentinho e confortável, já o chuveiro sai pouca água e a distância até a estação é maior. Conhece esse cenário? Pois é, quem viaja frequentemente se depara com situações assim na hospedagem. E não é diferente para quem fica em casa família (ou homestay, como gostam de dizer as agências). A realidade é que perfeito não existe.

Saí do Brasil com isso em mente, especialmente depois de conversar com a equipe da Experimento Intercâmbio na reunião em que recebi informações sobre o curso em Montreal. “É o viajante que se adapta à família, não o contrário” – levei essa recomendação como um mantra.

Cheguei a Montreal empolgada com a ideia de viver duas semanas no mundo de outras pessoas, ao modo delas. Mesmo diante da surpresa da anfitriã ao saber que eu não era vegetariana, levei na boa e comi os pratos servidos. Busquei me adaptar às tantas regras e ao estilo controlador da dona da casa. Aceitei até a anfitriã passar um creme caseiro no meu rosto, mesmo depois de eu agradecer e explicar que sou muito alérgica (como imaginei, tive de tomar umas doses de anti-histamínico depois).

A única coisa que realmente estava difícil de conviver era com o frio à noite. Eu mal dormia. Como no primeiro dia ela havia me dito algo em francês que usava as palavras “si vous”, “froid” e “demandez”, acompanhadas de uma mímica em que se encolhia, perguntei se ela poderia subir o aquecimento porque eu estava sentindo frio. Ela se irritou, disse que eu já havia perguntado isso e começou a gritar comigo.

Acredito que não se negocia com quem grita. Arrumei minhas malas, tentei dormir naquela legítima noite de terror no Halloween (era 31 de outubro, veja só) e, no dia seguinte, pedi à escola para me trocar de casa. A EC Montreal me deu todo o suporte e foi muito rápida para achar uma nova anfitriã. Ufa.

Problemas de adaptação podem acontecer – e, nesse caso, acione a escola sem constrangimento, como eu fiz. A paulistana Thais Diniz deu sorte: adorou a família que a recebeu. “Por eles, valia até pegar um ônibus e o metrô para chegar à escola”, conta. “Foram muito gentis. Estou sofrendo de deixar o curso e dizer tchau.”

Só tive essa experiência de me sentir acolhida e relaxada alguns dias depois de ter me mudado para a casa de Cynthia Morris. Não por ela, que fez de tudo para eu me sentir bem. Mas por mim, que estava tensa. Quando perguntei a ela se estava indo tudo bem e pedi que me avisasse se eu fizesse algo errado, me tranquilizou. “Se eu pudesse, diria para a escola: ‘me manda só estudantes como a Nathalia’. Você é ótima.” A partir dali, voltei a aproveitar o homestay.

Cynthia é uma mulher muito interessante. Natural de Detroit, foi morar na província francesa do Canadá porque se casou com um québécois. Formada em Artes Plásticas, passou a dar aula de inglês para imigrantes. Teve três filhas, se separou e decidiu seguir vivendo em Montreal. Para ajudar a pagar sua casa, começou a receber alunos em intercâmbio. “Hoje não preciso mais. Recebo estudantes porque gosto de conviver com pessoas de outros países.” 

Cynthia acabou indo estudar espanhol na faculdade e uma das filhas, Rachel, se encantou pelo Brasil. Ela aprendeu a falar português e a jogar capoeira e chegou a morar em Salvador. Depois, as duas fizeram um mochilão pela América do Sul.

Aos 66 anos, Cynthia é muito ativa. Pedala sua bike, cultiva sua horta e cozinha suas refeições. Com tanta bagagem, as conversas com ela eram tão deliciosas quanto os pratos que preparava. Mas imbatível em sabor e simbologia foi seu bolo de abóbora, que desmanchou o que poderia ter sobrado daquela noite de Halloween.

CAINDO NA ROTINA

1. Chaves

O estudante em homestay recebe a chave da porta de entrada. É importante entender o funcionamento da porta – o modo de trancar pode variar. Nem sempre há chaves no quarto. Não havia na primeira casa em que fiquei, mas na segunda, sim.

 

2. Quarto do estudante

O quarto costuma ser individual e ter uma cama, uma cadeira e lugares para o estudante acomodar suas roupas e seu material de estudo – na primeira casa, havia uma prateleira estreita; na outra, uma escrivaninha. O tamanho também varia: meu homestay começou em um quarto pequeno diante da cozinha e terminou, na outra casa, em um cômodo amplo no segundo andar.

 

3. Café da manhã

Se todos os integrantes da família estudam ou trabalham, pode ser raro encontrá-los no café da manhã. Mas, no dia da sua chegada, você deve ser apresentado às áreas da cozinha (para localizar pó de café, açúcar, pão, manteiga, talheres e pratos) e aos utensílios, como cafeteira e torradeira. Aproveite para perguntar em que parte da geladeira pode deixar os produtos extras que você comprar.

 

4. Jantar em família

Em Montreal, janta-se cedo, por volta das 18 horas. Se você não for voltar para comer nesse horário, é de bom tom avisar à família. Você pode negociar para que seu prato seja deixado dentro do microondas, por exemplo.

 

5. Banheiro

As casas antigas de Montreal têm apenas um banheiro. Converse com a família para saber o horário em que os integrantes tomam banho para se encaixar sem atrapalhar o dia a dia.

 

6. Lavanderia

Cada casa tem um sistema. Você tanto pode ter de deixar suas peças para serem lavadas junto com a roupa dos outros membros da família, quanto pode ter acesso à máquina de lavar. Normalmente, você terá de comprar seu próprio sabão. 

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