Nos deslocamentos, prefira riquixá ou bicicleta
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A cidade que o escritor Tagore pôs no mapa

Shantiniketan é hoje local de peregrinação cultural e tem uma universidade famosa por seu curso de artes, tudo graças à ousadia do escritor, Prêmio Nobel da Literatura há 100 anos

Eric Weiner / Shantiniketan, The New York Times, O Estado de S.Paulo

07 Maio 2013 | 07h16

Grandes escritores frequentemente moldam nossas impressões de um lugar. Steinbeck e Dust Bowl Oklahoma, por exemplo. Algumas vezes, o autor pode definir um lugar, como Hemingway fez com a Paris dos anos 1920. Raramente, porém, um escritor cria um lugar. No entanto, isso é o que o poeta indiano e ganhador do Prêmio Nobel Rabindranath Tagore fez com uma cidade chamada Shantiniketan, ou "Morada da Paz". Sem os incansáveis esforços de Tagore, o local, que abriga uma renomada escola experimental, não existiria.

Para os indianos, uma viagem a Shantiniketan, a três horas de trem de Kolkata, é uma peregrinação cultural. Também foi para mim, quando a visitei em julho. Eu era fã de Tagore, mas havia ali uma oportunidade de explorar um lado da Índia que tinha esquecido: as pequenas cidades. Em lugares como Shantiniketan, com cerca de 10 mil habitantes, Tagore - como o contemporâneo Mahatma Gandhi - acreditava que a grandeza da Índia poderia ser encontrada.

Assim que embarquei no trem na tumultuada Estação Howrah, de Kolkata, não houve dúvidas sobre meu destino. Na frente do antiquado carro estavam penduradas duas fotos de um idoso Tagore. Com sua barba comprida, olhos escuros e manto preto, o poeta e polímata, que morreu em 1941, parecia um Albus Dumbledore indiano.

Na parte de trás havia duas de suas pinturas, um autorretrato e uma mulher com véu. A escuridão se insinuava sobre eles, como na maioria dos trabalhos artísticos de Tagore, ao contrário de seus poemas, cheios de descrições arrebatadoras da natureza. Enquanto o trem cruzava a zona rural, as palavras de Tagore ecoavam na minha cabeça. "Nos devolva aquela floresta, tire esta cidade daqui."

Humanista. Filho de um proprietário de terras brâmane, Tagore nasceu em Calcutá, como Kolkata era chamada em 1861. Começou a escrever poesia aos 8 anos. Em 1913, tornou-se o primeiro não-ocidental a receber o Prêmio Nobel de Literatura. O comitê citou a coleção de poemas espirituais Gitanjali, ou Oferendas Líricas. "O viajante tem de bater em muitas portas alheias para chegar à sua própria, precisa vagar por todos os mundos exteriores para, enfim, atingir o mais íntimo santuário", diz um deles. Tagore se tornou uma celebridade internacional instantânea. Hoje, não é muito lido no oeste, mas, na Índia, e particularmente na Bengala Ocidental, seu Estado natal, permanece popular e reverenciado.

Poeta, artista, escritor, compositor, ensaísta, pedagogo, Tagore foi o homem do Renascimento indiano. Era também um humanista, guiado pelo desejo de mudar o mundo, o que pretendia fazer em Shantiniketan. Triste com a Índia que viu, que vagava por outras culturas - "o eterno catador de lixo dos outros" -, imaginou uma escola onde jovens meditariam e se engajariam em práticas espirituais.

Com esta visão - e infeliz com a transformação de Calcutá em uma cidade agitada e caótica -, Tagore fugiu em 1901 para uma planície árida 160 quilômetros ao norte, onde seu pai tinha terras. Lá, abriu sua escola ainda naquele ano, admitindo que era "o produto de uma ousada inexperiência"

Antes que me desse conta, o trem parou. Depois de me instalar num quarto simples, conheci o dono da pousada, Krishno Dey. "Você não vai ver muito aqui", alertou, "porque não há muito para ver". Perfeito. Tinha passado três semanas em Kolkata, cidade de 13 milhões de habitantes, e "não muito" era tudo o que eu queria.

As ruas de Shantiniketan são alinhadas com pomposas árvores (algumas plantadas pelo próprio Tagore), tendas de chá e pequenas livrarias. Os poemas e pinturas do indiano estão por toda parte. As bicicletas, mais numerosas que carros, são o melhor meio de transporte.

Um dia, o dono da pousada em que estava me emprestou uma bike. Meu destino era Rabindra Bhavan, o pequeno museu que celebra a vida de Tagore. Construído em sua antiga propriedade, trata-se de alguns bangalôs. Dentro da sala de exibição mal iluminada, há páginas manuscritas do Gitanjali, seu poema mais famoso, e fotos em preto e branco - algumas dele com Helen Keller, Freud e Gandhi.

Notável por sua ausência é o próprio Prêmio Nobel, roubado do museu em 2004. Crime que permanece sem solução e que é, alguns acreditam, emblemático de um problema mais profundo.

Mais tarde, dei uma volta pelo câmpus da universidade, com seus prédios de concreto e fileiras de árvores. Encontrei um cantor baul ao lado da estrada, tocando ektara, instrumento de uma única corda. Ele acenou e me aproximei. Com seus cabelos rebeldes, barbas emaranhadas e kurtas amarelo-laranja, é difícil perder os bauls de vista. Nem hindus, nem indianos andam pelo interior cantando canções enigmáticas sobre as bênçãos da loucura. Tagore adorava bauls e se declarava um deles.

SAIBA MAIS

- Passagem aérea: a Emirates (emirates.com) faz o trecho SP-Kolkata-SP por a partir de R$ 4.851.

- Trem: de Kolkata a Shantiniketan, o caminho mais rápido é de trem (2h30 a 3 horas). O Shantiniketan Express faz o trajeto diariamente e tem tarifa de ida e volta por 1.560 rúpias ou R$ 58, com a Indian Railways (indianrail.gov.in).

- Visto: é exigido dos turistas brasileiros para entrar na Índia e deve ser requerido no Consulado Geral da Índia em São Paulo. As instruções estão no site: indiaconsulate.org.br.

- Moeda: R$ 1 equivale a 26,78 rúpias.

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