A cidade recriada pelas lentes do cineasta

Foi perambulando que encontrei evidências da Rimini cinematográfica. No centro histórico, na Piazza Tre Martiri, a principal praça da cidade, curvei a cabeça para entrar numa capela minúscula, semelhante à que os animais da fazenda são levados para serem abençoados em Amarcord. (De maneira tipicamente felliniana, a importância da cena para o pequeno Titta e seus colegas de escola são as nádegas das mulheres que participam da cerimônia e que, na lembrança registrada pelo cineasta, em seu livro Fellini por Fellini, tinham "os maiores e mais lindos traseiros da Romagna".) Andei pelo pátio atijolado da biblioteca municipal, que no passado foi uma escola primária e não é muito diferente do colégio onde Titta, Ovo e Ciccio se escondiam no banheiro para fumar cigarros.

RIMINI, / E.R., O Estado de S.Paulo

16 Julho 2013 | 02h14

Em minha visita, realizada no inverno, cheguei até a ser surpreendido por uma tempestade de neve igualzinha à nevasca que envolve Rimini em Amarcord. Uma noite, caminhando com amigos pela Piazza Cavour, foi difícil enxergar, em meio às rajadas de neve, a fonte toda congelada.

Provável locação de uma das mais memoráveis cenas da história do cinema, é aqui que Titta, Ciccio e seus amigos travam uma formidável batalha com bolas de neve em Amarcord. Peguei um punhado de neve, fiz uma bola e a atirei bem no lugar onde Magali Noël, no papel de La Gradisca, surge na cena. Daqui a pouco, pensei, o enigmático pavão do filme pousará, como num sonho, na fonte Pigna, que se erguia à minha frente, recoberta de neve como no filme.

A diferença? Ao contrário da fonte do longa, as colunas inferiores da verdadeira fonte da Piazza Cavour são lisas. No filme, elas são decoradas. Como acontece com muitos aspectos da Rimini de Fellini, ao ser recriado para servir de cenário para as filmagens, o lugar real sofreu uma sutil modificação.

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