Leo Souza/Estadão
Leo Souza/Estadão

Como é a rotina de um comissário de bordo

Repórter do Estadão vive por um dia experiência de voar como parte da tripulação

Bruna Toni, O Estado de S. Paulo

19 Setembro 2017 | 04h45

PORTO ALEGRE - Às 4h45 de uma terça-feira, o despertador tocou, anunciando um dia que seria longo – em tempo e trajeto. A preparação para o expediente também seria mais demorada do que a habitual: incluía vestir cada item do uniforme, prender os cabelos e caprichar na maquiagem. Começava assim meu primeiro (e único) dia de trabalho como comissária de bordo.

Mesmo sem o glamour de antigamente, a profissão continua uma das melhores opções para quem sonha em trabalhar viajando. Além disso, desperta curiosidade, já que vai muito além de servir refeições. Nos comissários depositamos, afinal, nossa confiança – quem nunca deu aquela espiada na expressão da aeromoça mais próxima para tentar adivinhar se a turbulência seria mesmo tão inofensiva assim? 

São 10.862 comissários ativos no País, segundo divulgou em julho a Associação Brasileira de Empresas Aéreas (Abear). Para descobrir detalhes do dia a dia destes profissionais, saímos do nosso lugar comum – a poltrona do passageiro – para seguir os passos de uma equipe de bordo da Gol, entre os aeroportos de Guarulhos, em São Paulo, e Salgado Filho, em Porto Alegre.

A experiência de ser comissária por um dia incluiu servir o lanche, transmitir recados sonoros e entender que a principal função dos comissários é garantir a segurança de todos a bordo. Ah, eles gostariam que você soubesse: quando o piloto acende os avisos de atar cintos, é realmente mais seguro obedecer. 

 

Preparação

Antes de conseguir um emprego como comissário de bordo, há um caminho de estudos teóricos e práticos que começa em escolas especializadas e certificadas pela Agência Nacional de Aviação Civil (Anac). É preciso ter no mínimo 18 anos, ensino médio completo e, de preferência, inglês intermediário. 

Disciplinas como higiene, primeiros socorros, regulamentação da aviação civil, meteorologia e até sobrevivência na floresta – “que a gente espera nunca usar”, comenta a comissária-chefe do nosso voo, Taís Menezes – estão no programa das escolas. Concluída a formação, a próxima etapa é fazer o exame da Anac. Só depois o candidato está pronto para procurar emprego numa companhia aérea. 

Passar na entrevista de emprego não significa, porém, começar a carreira nos céus. A Anac exige que todas as empresas apliquem um curso de 27 horas-aula dentro de uma aeronave ou simulador a seus funcionários, além de um estágio de 15 horas. Só após o exame prático final é que tudo começa. 

Para relembrar técnicas e não deixar nenhuma mudança escapar, os comissários passam por reciclagens. Na Gol, o treinamento é o mesmo para comissários de voos nacionais e internacionais.

Aparência 

Vestir-se bem e de maneira padronizada é regra em todas as companhias. Na Gol, um guia de utilização de uniformes e dicas para fazer combinações com as peças é dado a todos os funcionários. Há um tutorial para os trabalhadores de solo; outro para os supervisores; para pilotos; e, claro, para comissários. Esta repórter, que entende pouco de maquiagem e acessórios, fez bom uso do guia.

“Vamos retocar o batom?”, sugeriu a comissária-chefe Taís depois de algumas horas de voo. Segui a recomendação prontamente, claro.

Antes da decolagem

Ainda que pareçam colegas há anos, na maioria dos voos os comissários se conheceram naquele mesmo dia. Para se ter uma ideia, a Gol tem 2.882 comissários e 1.561 pilotos. Cada um com sua escala – por isso, as equipes mudam constantemente. “Foram várias as vezes em que fui encontrar o copiloto com quem viajei anos depois”, conta o comandante do nosso voo, Jeizon Fonsenca. 

Por isso, a equipe se apresenta uma hora antes do embarque em salas dos aeroportos chamadas DO (Departamento Operacional). O comandante passa as orientações básicas do trecho e são divididas as tarefas de cada um. “Quem vai ficar na galley?”, pergunta Taís, a chefe. Galley, ela me explica, é a cozinha do avião.  

O trecho São Paulo – Porto Alegre é um dos menores do território nacional, com 1h15 de duração. Assim, a equipe tinha quatro comissários em um segredo: eu. 

Chegando ao avião, a primeira tarefa é checar tudo: a limpeza, o bar, os equipamentos de segurança. Feito isso, o embarque é liberado. Foram 146 bons dias no primeiro voo. No segundo, mais 106 (parecia interminável). Com um esperado sorriso no rosto, nem sempre retribuído, dois comissários ficam a postos para recepcionar passageiro por passageiro, dos sorridentes aos zangados. Ao lado de Taís, foi a experiência sociológica mais interessante do meu dia de comissária.

 

Durante o voo

A única etapa do trabalho da qual não pude participar foi a das orientações de segurança, já que apenas pessoas treinadas podem transmiti-las. Sentei e aguardei como passageira os avisos para desatar os cintos. 

Depois, ao invés de reclinar meu banco e tirar um cochilo, fui imediatamente chamada ao trabalho. A primeira missão foi dar os recados sonoros de boas-vindas. Como o voo é muito rápido, em poucos minutos dei outro recado: “Daremos início a nosso serviço de bordo em instantes”. Há um livrinho com recados como este, em português, inglês e espanhol, uma espécie de cola aos comissários – apesar de os mais antigos já terem decorado tudo. “Nesse voo não tem lanche”, alertou Taís ao indicar o texto correto antes que lesse algo como “teremos pasta or chicken”. 

As refeições ficam armazenadas em compartimentos refrigerados na tal galley e são distribuídas por dois comissários. Já para atender a pedidos do comandante e do copiloto, cada companhia tem um procedimento de segurança. O da Gol é fazer uma barreira na porta da cabine com um dos carrinhos enquanto um funcionário entra com os pratos. Mas e os comissários? Não há hora certa para o intervalo. Cada um tenta dar uma paradinha na galley quando possível. 

A despedida

O avião pousa e nós – a essa altura eu me sentia parte do time – nos posicionamos para a despedida dos passageiros, dessa vez ao lado do piloto. São mais centenas de “obrigadas”, “tenha um bom dia”, “até logo”...

Aeronave vazia, logo entram os funcionários de terra para recolher o lixo. No caso de os comissários terem de mudar de avião, a equipe que sai deve fazer uma varredura e indicar aos comissários que chegam quais as condições. “O bar da parte de trás não está funcionando”, disse um comissário que saía quando entramos no segundo avião da nossa rota, para começar o caminho de volta.

Descanso

De acordo a Anac, cada tripulante pode ter até 9h30 de voo e cinco pousos no caso de tripulação mínima, como a nossa. Isso equivale a mais ou menos três voos diários de curta distância. No fim do expediente, a hospedagem em geral é num hotel. Mas, no nosso voo, um dos comissários era gaúcho e foi para a casa da família em vez de seguir para o hotel com os demais.

Nem sempre dá para passear. Mas isso não é regra. “Daqui a dois dias vou para Maceió. Terei 12 horas em solo por lá (tempo mínimo de descanso entre uma jornada e outra), dá para pegar uma praia, né?”, diz, animado, um dos comissários da equipe, esse paulista.

Comissário tem vida social? Sim, diz a comissária-chefe Taís Menezes. Mas não é fácil. Na Gol, os tripulantes têm um domingo por mês de folga. E há o programa Escala Mãe, que permite às mulheres fazerem apenas bate-voltas ou no máximo pernoite até o filho completar 5 anos de idade. 

A Azul tem a Escala Amamentação, para comissárias fazerem apenas bate-voltas até 6 meses depois da volta da licença maternidade. E o mesmo ocorre com a Avianca, que permite às mães que amamentam ter uma escala especial durante e depois do período de aleitamento materno. 

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