A era das economias criativas

"Há de se encarar a cultura e a criatividade individual como estratégia para o desenvolvimento"

Caio Luiz de Carvalho *, O Estado de S.Paulo

07 Abril 2009 | 02h47

Números divulgados recentemente pelo Ministério do Trabalho apontam, mesmo em tempo de crise, aumento de empregos nas áreas de turismo, hospedagem e gastronomia. A arrecadação do Imposto Sobre Serviços (ISS) na cidade de São Paulo nesses setores cresceu 7,8% em janeiro e fevereiro, em relação ao mesmo período em 2008. É a força das economias criativas e do negócio do entretenimento, onde cultura, evento, lazer e talentos fazem a diferença.

O fato é que até pouco antes do fim do século 20 vivíamos a era industrial. Os produtos eram a moeda de troca. No século 21 essa moeda passou a ser a ideia. Com a globalização e o advento da internet, o curso do rio mudou, mas muitos gestores ainda não sabem para onde ir. O cliente passou de mero espectador a um "prosumer", produtor e consumidor ao mesmo tempo.

Com isso, passamos a criar um volume de informação gigantesco. As pessoas entretêm umas às outras numa escala global. Todos podem produzir, publicar, reinventar e compartilhar. Tornou-se fácil e rápido obter dados sobre tudo, inclusive os últimos lançamentos, acirrando também a concorrência entre as empresas. Uma cópia nasce quase que instantaneamente e ainda pode ser melhor que a original. Inovar, propor soluções e pensar out of the box passaram a ser o caminho para competir e vencer.

A resposta para o ganho de competitividade está na inovação que nasce de uma boa ideia, no envolvimento das comunidades, na cultura e no talento criativo. A São Paulo de hoje processa e navega bem por esses caminhos em que a economia industrial dá espaço às chamadas economias criativas.

O autor inglês John Howkins, no livro The Creative Economy (2001), refere-se dessa forma às diversas atividades, em geral culturais, desenvolvidas por indivíduos que exercitam a imaginação, explorando - ou deixando que alguém o faça - seu valor econômico. É toda economia movida a partir do conhecimento físico e das ideias. São os mesmos processos que envolvem criação, elaboração e distribuição de produtos e serviços, mas usando a criatividade e o capital intelectual como principais recursos produtivos. Música, dança, artes, literatura, teatro, cinema, artesanato, moda, design e as novas indústrias digitais fazem parte dessas atividades. E, em um sentido mais amplo, também turismo e gastronomia. Em tudo São Paulo se insere.

Há de se encarar a cultura e a criatividade individual como estratégia para o desenvolvimento, unindo de uma vez por todas o social com o econômico. Temos de avançar em meios de aferir a riqueza cultural e criativa de nossas cidades. O desafio para os economistas ortodoxos é criar uma régua para medir o que representam as economias criativas e tentar monetizar o talento criativo. Mensurar esses valores parece difícil por serem subjetivos e intangíveis. Porém, se pensarmos que sem o cantor não há música e sem ela não existem as indústrias fonográfica, de aparelhos eletrônicos e toda uma cadeia produtiva que vai além das indústrias do ferro e do plástico usados nos componentes, fica mais fácil enxergar a extensão da importância econômica do setor. O mesmo ocorre com o cinema, a dança, o teatro, a literatura, a arte e toda a indústria cultural, que impacta desde o papel produzido para um livro até os tecidos usados nas cadeiras feitas para teatros, estacionamentos, restaurantes, hotéis...

No exterior há muitos exemplos. Londres mede há anos o giro financeiro que uma temporada de O Fantasma da Ópera traz para a cidade. Em São Paulo começamos a mensurar esses indicadores e temos estudado, por exemplo, quanto uma Virada Cultural, uma São Paulo Fashion Week ou uma Mostra Internacional de Cinema representam em turismo, movimentação econômica e empregos para o município. A nova sensação da cidade, o Museu do Futebol, hoje estimula visitantes a ficarem mais um dia para visitá-lo. Em cinco meses, 190 mil pessoas foram ao museu - metade turistas de fora.

A dinâmica das indústrias baseadas na criatividade individual e na propriedade intelectual, ainda mais no contexto da cultura digital, é o futuro. Novas tecnologias estão redefinindo a formação da sociedade e temos de mudar a forma como vemos o mundo. As indústrias criativas, como Google, saem na frente porque investem nas inovações produzidas pelos talentos. No Brasil, dados ainda não confiáveis estimam que as indústrias criativas movimentem aproximadamente R$ 381,3 bilhões, o equivalente a 16,4% do Produto Interno Bruto (PIB), e empreguem 35,2 milhões de pessoas. Os dados constam de um levantamento inédito feito pela Federação das Indústrias do Rio de Janeiro (Firjan), que leva em conta desde cinema e música até arquitetura e design, incluindo atividades indiretas, relacionadas a apoio em produção e serviços. Mas é pouco. Temos potencial para muito mais.

Um breve olhar sobre São Paulo permite constatar que a cidade vive um grande momento. Cada vez mais criativa, com diversidade cultural invejável, onde tribos e talentos convivem e produzem riquezas. A metrópole, mesmo com os problemas sociais inerentes ao seu gigantismo, cede espaço também para uma cidade global, antenada, que processa o conhecimento, com cidadãos aprendendo a cantar cada vez mais sua aldeia, como dizia Tolstoi. E a ideia que brota cada vez mais dos talentos criativos é a matéria-prima a ser formatada em produtos que seduzam consumidores, criem riqueza em tempos de crise e cumpram a difícil missão de conferir identidade e personalidade a um destino.

*Caio Luiz de Carvalho é presidente da São Paulo Turismo e professor da Fundação Getúlio Vargas e da Universidade Anhembi Morumbi. Foi presidente da Embratur e ministro do Esporte e Turismo

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