A ética que não resiste ao tempo

Da ilha de Islay, onde passam alguns dias visitando destilarias e renovando seu estoque de single malt, mr. Miles e Trashie, sua fiel mascote, erguem um brinde aos leitores da coluna, que hoje atinge sua 400.ª edição. A seguir, a pergunta da semana:

O Estado de S.Paulo

29 Maio 2012 | 03h08

Mr. Miles: o que é, na sua concepção, uma atração turística? Marcelo Lotario, por e-mail

"Well, my friend: eis uma bela questão. Atrações turísticas são lugares, paisagens ou construções que se distinguem das demais por serem especialmente belas, extraordinariamente esquisitas ou incomparavelmente tristes. Lugares que merecem ser visitados, as I see, não são, por definição, símbolos da virtude humana ou da generosidade da natureza, como muitos costumam acreditar.

Veja bem, dear Marcelo: adoramos visitar tumbas e mausoléus, que são, of course, o repositório de mortos. Em tal categoria estão quase todas as catedrais do mundo, sob as quais repousam os ossos de celebridades ou abastados de épocas diferentes. As pirâmides do Egito, erguidas ao custo de milhares de vidas como mausoléus de longínquos faraós, também não passam de tristes necrópoles. Mas é claro que nos sentimos atraídos porque, well, são belas construções e os mortos não dizem nada aos nossos corações. Am I right?

O mesmo raciocínio aplica-se ao Taj Mahal, em Agra, um grande sepulcro construído por Shah Jahan como prova de amor a sua esposa preferida, Aryumand Banu Begam.

Pense, também, nos mais magníficos museus do planeta. Todos eles têm em seu acervo obras de arte originárias de butins praticados em batalhas do passado, além de inúmeros objetos subtraídos de povos mais ingênuos ou de gente segregada, como os judeus na 2.ª Guerra Mundial. O passado, however, não significa nada no momento da visita. Não há ética que resista ao passar dos anos. E, of course, não deixamos de ir aos nossos museus preferidos, mesmo sabendo que a origem de sua coleção esteja, probably, inundada de sangue.

Arcos monumentais, esplêndidas torres e monumentos espalhados pelas cidades do mundo são, em sua maioria, a celebração de vitórias militares ou a homenagem aos mortos em batalhas. Parece incrível, my friend, mas o mundo teria menos atrações turísticas se os povos não fossem tão belicosos e a natureza fosse menos explosiva. O que seria, for instance, da maravilhosa ilha de Santorini não fosse a explosão do imenso vulcão da qual ela é apenas uma pequena borda da cratera?

Porque nos sentimos atraídos para conhecer Pompeia, onde corpos petrificados pelas lavas do Vesúvio testemunham, day after day, uma enorme catástrofe do passado?

Tenho pensado sobre essa questão sempre que vejo um palácio construído por um príncipe cruel, um deserto nascido do castigo da seca ou um moai destroçado pela força de um tsunami. São, todos eles, atrações que queremos contemplar. Para lembrarmos, perhaps, de que, de alguma forma milagrosa, somos sobreviventes de toda essa epopeia. E comemorarmos a chance de viajar por todas essas lembranças."

É O HOMEM MAIS VIAJADO DO MUNDO. ESTEVE EM 132 PAÍSES E 7 TERRITÓRIOS ULTRAMARINOS.

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