Ilvy Njiokiktjien/NYT
Ilvy Njiokiktjien/NYT

A Europa reage contra o overturismo

O overturismo e a turismofobia em Amsterdã e outras cidades da Europa têm forçado a indústria do turismo a se reinventar. Incomodados, os anfitriões questionam: vale tudo pelo dinheiro dos visitantes?

Daniel Nunes Gonçalves, Especial para o Estado

25 Setembro 2018 | 04h30

“Turistas, vão embora! Vocês não são bem-vindos.” É com bordões pouco amigáveis, pintados em muros ou em faixas durante protestos de rua, que muitos viajantes têm sido recebidos por moradores de algumas das cidades mais legais – e por isso mesmo mais visitadas – do planeta. A hostilidade fez disparar o alarme de atenção nos departamentos de promoção turística, que tinham se acostumado a “vender” seus destinos com imperativos do tipo “Visite Barcelona” ou “Não deixe de ir a Veneza antes de morrer”. Eles ordenaram, a crescente população mundial de turistas obedeceu.

No caso de Barcelona, 30 milhões de convidados se somaram à população de 1,6 milhão em 2017. Em todo o mundo, essa massa crescente de forasteiros inclui a classe média de países populosos, como a China, que passou a ganhar o mundo aproveitando os descontos das companhias aéreas low-cost, os cruzeiros baratos, as locações de imóveis particulares mais econômicos que muitos hotéis. O turismo de massa invadiu o mundo, mas de forma predatória, que não se sustenta. A consequência é que os donos da casa, incomodados com o aumento do barulho, da poluição e dos preços, passaram a enxotar quem vem de fora. Desenvolveram fobia dos turistas.

++ LEIA TAMBÉM: Um guia para desbravar Amsterdã além das multidões

Em 2017, 1,3 bilhão de pessoas fizeram viagens internacionais pelo planeta,  metade delas na Europa, segundo estudo anual divulgado recentemente pela UNWTO, órgão de turismo da ONU. Essa multidão tem contribuído para consolidar o turismo como uma das maiores economias do planeta, responsável por 10% de todos os empregos. Enquanto a média de crescimento do turismo no mundo foi de 6,8% em 2007, na Europa o ritmo foi mais intenso, de 8,4%. Só a Holanda recebeu 17,9 milhões pessoas, que beneficiaram a economia com 12,1 bilhões de euros. Os brasileiros e os indianos foram os que tiveram o aumento mais expressivo de 2016 para 2017: 31%.

Como Amsterdam é o hotspot que atrai a maior parte dos visitantes, especialmente os que viajam pela primeira vez, o NBTC Holland Marketing, órgão de turismo nacional, não divulga mais a capital desde 2014. Além disso, criou uma campanha para estimular a visitação de outras cidades, como Roterdã e Haia.

'A Holanda tem outras cidades interessantes'

“Não queremos tirar visitantes de Amsterdã, mas mostrar que temos outras cidades interessantes”, afirma Elsje van Vuuren, porta-voz do Turismo da Holanda. Ao mesmo tempo, o Turismo da cidade de Amsterdã criou a campanha para divulgar bairros alternativos ao centro do Cinturão dos Canais. “Sabemos que, em geral, são as pessoas que vêm pela segunda vez as que mais aderem aos nossos incentivos para que conheçam outros bairros e cidades”, explica Janine Fluyt, porta-voz do Amsterdam Marketing.

Em vez de estimular o turismo, as novas missões dos órgãos são coordenar, regulamentar, manejar e controlar os fluxos turísticos. Tanto é que, durante 3 meses de 2017, a Amsterdam Marketing testou o protótipo do aplicativo Rijenradar, que atualizava a cada meia hora o tamanho da fila de 10 atrações – estimulando a pessoa a ir a lugares menos procurados. Uma versão definitiva deve ser lançada em breve. Já o cartão de descontos Amsterdam City Card tem sido uma ferramenta importante para mapear as atrações mais visitadas por cada tipo de viajante, de modo a utilizar o Big Data para influenciar, via redes digitais, a mudança desse padrão quando necessário.

O problema é mais complexo do que parece. “A sensação de superpopulação é atribuída aos turistas estrangeiros, mas boa parte das pessoas que se concentram nos centros urbanos são moradores, ainda que estudantes ou profissionais expatriados, que gostam da cidade e vêm morar aqui”, remedia a socióloga urbana Roos Gerritsma, do Laboratório de Lazer Urbano e Turismo na Universidade de Inholland, em Amsterdã. “Amsterdã recebe cerca de 10 mil novos moradores por ano. Há também os turistas de um dia, que vêm de outras cidades do país e engordam as estatísticas e a sensação de superlotação”.

Não por acaso o assunto dominou boa parte da mídia holandesa durante a alta temporada do verão. Na capa do jornal De Volkskrant de 10 de agosto, especialistas do mundo todo tentam achar soluções. Dois livros estavam em destaque nas livrarias: o recém-lançado How to be a better tourist (Como ser um turista melhor), do holandês John Idema, e Como evitar outros turistas (howtoavoidothertourists.com), que deu origem ao site homônimo e aos tours que a autora, Nina van der Weiden, oferece por lugares que só os moradores costumam circular.

Mocinhos e vilões 

Além dos maus turistas, que não respeitam os locais visitados, outros vilões têm sido apontados. “Poucas formas de turismo são tão destruidoras quanto os cruzeiros”, dispara a jornalista norte-americana Elizabeth Becker, em seu livro Overbooked, que investigou a questão já em 2014. A maior parte dos milhares de passageiros de navios que aportam nas cidades não deixa dinheiro na localidade visitada, mas sim na empresa do cruzeiro.

Acusado de popularizar ainda mais o turismo e de pagar menos impostos que os hotéis, o Airbnb também tem tido suas atividades reguladas. A entidade se defende. “O Airbnb é uma solução para o turismo de massa, ao contrário do que alegam alguns setores”, defende Adriana Lutfi, gerente de comunicação da empresa no Brasil. “Contribuimos para que regiões pouco conhecidas sejam uma opção para descentralizar a presença de turistas nas cidades”. Segundo a empresa, que recentemente criou um departamento para estimular o turismo responsável, o Airbnb corresponde a apenas 7% de todas as chegadas de hóspedes nas 8 cidades mais visitadas do mundo – lista que inclui Barcelona, Veneza e Amsterdam.

Em busca de caminhos, a professora holandesa Roos Gerritsma e seus alunos de turismo estão engajados em um projeto pioneiro idealista no hypado bairro de Amsterdam-Noord: a criação de uma plataforma colaborativa alternativa, o Fairbnb, para alugar imóveis particulares no bairro, com um gerenciamento feito em parceria com a cidade e sem qualquer fim lucrativo. O objetivo é que o projeto seja realizado concomitantemente na cidade de Veneza. “É preciso olhar com 40 anos de antecipação para evitar que a degradação aconteça em outros destinos”, diz ela.

Uma das maiores autoridades do assunto, o antropólogo italiano Claudio Milano, professor de turismo sustentável da Universidade Ostelea de Barcelona, ressalta que o momento é importante para repensar a forma como o turismo tem se desenvolvido no mundo. “Overturismo é uma responsabilidade compartilhada: os administradores das cidades e os gerenciadores dos destinos têm que perceber que há limites para o crescimento”, afirma. A solução é viajar de forma consciente, tentando evitar os grandes grupos para provocar menos impacto, exercitando a empatia de se colocar no lugar do anfitrião e respeitando cada cultura.

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