A favor do vento

Encaramos a pedalada de 630 quilômetros entre Berlim e Copenhague para mostrar[br]cada detalhe da bela rota cicloturística batizada de Em Busca da Pequena Sereia

Evelyn Araripe ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S.Paulo

24 Agosto 2010 | 02h45

Início. Jornada começa de forma gloriosa no Portão de Brandemburgo, na capital alemã

 

 

 

 

 

 

 

Para quem queria tanto viajar de bicicleta, estava lançado o desafio. A manhã chegou fria e chuvosa depois de três dias de sol e calor. Um convite à preguiça. Exatamente o contrário do que sugeriam as bikes prontas, a bagagem arrumada, os capacetes e as jaquetas impermeáveis separados, além da ansiedade a mil por hora. Começou assim a viagem pela rota cicloturística Berlim-Copenhague.

 

 

 

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Apelidado de Em Busca da Pequena Sereia, por terminar na frente da estátua da personagem criada pelo escritor Hans Christian Andersen, na capital da Dinamarca, o trajeto tem 630 quilômetros. Um roteiro menos popular entre os brasileiros que, por exemplo, os 350 quilômetros da Rota Romântica, com seus famosos castelos de contos de fadas construídos pelo rei Ludwig.

 

A Berlim-Copenhague passa pelos Estados alemães de Brandemburgo e Mecklenburg-Vorpommern e beira o Mar Báltico em todo o trecho dinamarquês. Guarda a sua cota de surpresas entre castelos, paisagens rurais e vilas de pescadores. Tantas que o próprio mapa oficial da rota sugere desvios. Outra sugestão do guia, que você pode comprar em livrarias e bicicletarias em toda a Alemanha ou consultar online no site bike-berlin-copenhagen.com, refere-se ao tempo de viagem. Os 15 dias de pedaladas podem ser reduzidos a 10, no caso de ciclistas experientes, sem deixar de aproveitar as atrações do caminho.

 

Pelo interior. A rota é bem sinalizada na maior parte de sua extensão. O trecho inicial, que começa em grande estilo no Portão de Brandemburgo, cartão-postal de Berlim, até pode confundir. Os 30 quilômetros até o vilarejo de Hennigsdorf tornaram-se 40 graças à precariedade da sinalização e das indicações do mapa. Mas, em seguida, uma placa gigante deu boas vindas à rota Berlim-Copenhague. Ali, o sol apareceu e continuou pelo resto da viagem. Tudo melhorou, exceto um detalhe: o idioma.

 

Do momento em que você sai de Berlim em diante, o inglês perde seu status de língua universal. Nas pequenas cidades só se fala alemão. A solução é decorar algumas frases básicas para garantir seu Zimmer frei (quarto livre) e sua gutes Essen (boa refeição). Fica para trás também qualquer sinal que lembre uma metrópole. A paisagem é dominada por florestas às margens de lagos e rios e vestígios do período da 2ª Guerra Mundial.

 

Em Hohen Neuendorf, por exemplo, a ciclovia passa por uma torre de vigilância que hoje abriga um pequeno museu do Muro de Berlim - uma foto mostra aquele mesmo local dividido pelo paredão. Pouco à frente, em Oranienburg, está o campo de concentração Sachsenhausen, o mais próximo da capital alemã. Brasileiros se interessam especialmente por Fürstenberg. Na entrada da cidade está o campo de concentração para mulheres Ravensbrück, onde morreu Olga Benário, casada com o comunista Luiz Carlos Prestes.

 

A cidade tem ainda parques com rotas exclusivas para bicicletas e a opção de passeio em uma draisine, espécie de vagão movido a pedaladas que se desloca sobre trilhos, no qual é possível chegar à cidade de Templin, em um trajeto de três horas.

 

O Estado de Mecklenburg-Vorpommern é nitidamente rural. Fora da rota, em um desvio indicado no mapa, está Neustrelitz, cidadezinha que parece ter parado no tempo. Dedique um dia inteiro ao vilarejo de tradição eslava e aos castelos e museus. Durante a minha parada havia até uma exposição de Sebastião Salgado na igreja central.

 

O Parque Nacional de Müritz abriga uma via exclusiva para bicicletas em meio à floresta, até a cidade de Waren, onde bares e restaurantes à beira de um lago convidam a curtir a noite. A portuária Rostock vem em seguida. É o momento de pegar a balsa para atravessar o Mar Báltico em direção à Dinamarca, em uma viagem que dura quase 2 horas.

 

Trecho final. Se o clima ajudar, o trecho dinamarquês reserva aos ciclistas muitos banhos de mar. E uma dificuldade extra: o vento sopra forte, o que pode fazer estradas planas parecerem inclementes ladeiras paulistanas. Para amenizar o cansaço, escolha um dos vilarejos pelo caminho. Sempre há uma igreja, um castelo ou um café charmoso para ajudar a relaxar.

 

Na Dinamarca, o inglês volta a ser falado e ouvido. Logo na entrada de Stubbekobing, há uma espécie de quartel-general de pescadores que não negam aos visitantes uma boa conversa regada a cerveja local. A partir de Stege, cidades maiores substituem a paisagem de natureza.

 

Grandes avenidas e algum congestionamento - de bikes, acredite - indicaram a chegada a Copenhague. Um terço da população da capital usa a magrela para ir ao trabalho. Bastou seguir o fluxo para atingir o ponto final da viagem, na frente do Tivoli, famoso parque de diversões inaugurado em 1843.

 

Escolhemos um bar da Rua Vesterbrogade para brindar. E, então, mais algumas pedaladas à beira do cais levaram ao troféu, a personagem da rota. À nossa espera, estava ali a Pequena Sereia.

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