Adriana Moreira/Estadão
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Mônica Nobrega
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A Fontana di Trevi e a busca pelo tiramisú perfeito

Turistas europeus podem voltar ao cartão-postal italiano a partir de 3 de junho; enquanto não podemos voltar, recordamos de uma passagem por lá

Mônica Nobrega, Especial para o Estado

02 de junho de 2020 | 01h30

No exato momento em que você lê este texto, um habitante de Roma contempla a Fontana di Trevi vazia - ou quase. As dez semanas de confinamento total levaram ao declínio consistente da curva de contaminações e mortes por covid-19, e a Itália começou sua lenta reabertura. Moradores já podem sair às ruas, mas os turistas – apenas os da própria Europa – só serão autorizados a voltar a partir desta terça, 3 de junho, se nada mudar. 

Situações novas trazem vocabulário novo. Temos agora o lockdown que, a partir deste 2020, resume os muitos significados deste momento de exceção que vivemos por causa da pandemia. Lockdown significa se trancar em casa, entre incertezas sobre o futuro, sem poder ver nem abraçar pessoas queridas, e se escondendo de uma ameaça ao mesmo tempo invisível e mortífera. 

Foi assim com o tsunami, lembra? O da Indonésia, em 2004, foi o maior tremor já registrado por um sismógrafo. Fez ondas de até 30 metros de altura avançarem sobre 14 países e matarem 230 mil pessoas. Impôs uma nova palavra ao nosso repertório; não tinha como chamar aquilo de maremoto, que é como se dizia antes. 

Pois a Itália foi o primeiro país no mundo a determinar lockdown para toda a sua população, em 9 de março. Logo apareceram as fotos dos pontos turísticos desertos – a do Papa Francisco abençoando uma Praça de São Pedro completamente vazia foi uma das mais impactantes. 

Apesar de já ter ido a diferentes lugares na Itália – Milão, Verona, Veneza, Gênova, Nápoles, boa parte da Sicília – Roma, por variados motivos, sempre foi deixada para depois. Ano passado, no frio de janeiro, foi a minha primeira vez na capital. 

No fim de um dia gelado e azul, depois de uma caminhada pela margem do Rio Tibre e de admirar longamente o Coliseu iluminado, encontrei a Fontana di Trevi cercada pela multidão de sempre. Eu não esperava nada diferente disso. Mas também não esperava me sentir tomada por tamanho encantamento. Sabe como é: sou uma viajante experiente demais, descolada demais para me deslumbrar por um ponto turístico tão batido. O plano era passar rapidinho pela fonte, tirar uma foto e seguir para algum outro lugar mais, digamos, autêntico. Risos. 

Deixa eu contar uma coisa para quem ainda não foi. A Fontana di Trevi é muito maior do que parece em todas as fotos que você já viu. A composição formada pela estátua de Netuno, no centro, mais a fachada do Palazzo Poli, onde a fonte está encostada, tem uma dimensão monumental. Não cabe no enquadramento da máquina fotográfica. A perfeição das esculturas de mármore, a iluminação, o barulho da água, alto mesmo com todo o falatório em volta, tudo isso me emocionou. O ritual de jogar moedas e fazer pedidos é uma tolice, sim. Mas é bonito de ver ao vivo, como uma expressão de esperança. E rende à cidade 1 milhão de euros por ano, destinados à caridade.

Cinema

O cinema dá uma dimensão mais apurada da magnitude da Fontana di Trevi. O clássico número 1 entre os filmes italianos, La Dolce Vita (1960), tem uma cena ainda mais clássica que o próprio longa que mostra os personagens de Anita Ekberg e Marcello Mastroianni entrando em suas águas. 

Pois veio também do cinema – argentino – a inspiração para outra experiência marcante na minha visita a Roma. 

Tiramisú foi uma palavra nova para mim quando assisti ao longa O Filho da Noiva (2001). Rafael Belvedere, o protagonista vivido pelo ator Ricardo Darín, visita a mãe, uma idosa que tem a doença de Alzheimer, levando o doce que é o preferido dela. O personagem e seu pai conversam longamente sobre mascarpone, o queijo base da receita do tiramisú.

De lá para cá, nunca mais parei de procurar um tiramisú à altura da beleza desta cena. Achei que pudesse tê-lo encontrado na capital da Itália quando passei diante da minúscula doceria Two Sizes, que tinha, na porta, uma placa discreta anunciando “o melhor tiramisú de Roma”. Entrei e escolhi o sabor tradicional, de mascarpone e café. 

As armadilhas pega-turista se escondem sob os mais variados disfarces, mas a doceria Two Sizes não era uma delas. Achei a sobremesa gostosa, sem ser imperdível. Provavelmente o problema não é o doce, sou eu, que acumulei expectativas demais. 

Ainda assim, o tal do melhor tiramisú de Roma serviu para me provocar um desejo de retorno, exatamente como o Rafael Belvedere de Ricardo Darín dá o doce à sua mãe desmemoriada desejando, intimamente, o retorno dela a outros tempos. 

 

Quando será possível ir?

A Itália faz parte do espaço Schengen, grupo formado pelos 27 países da União Europeia, mais Suíça, Liechtenstein, Islândia e Noruega, que tem entre seus princípios a livre circulação entre suas fronteiras. A partir de 15 de junho, e a depender da evolução da pandemia no continente, lideranças da União Europeia devem começar a propor estratégias para a reabertura gradual das fronteiras externas. Mas não há nenhuma certeza ainda. 

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