Luke MacGregor/Reuters
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A foto perfeita na Abbey Road

Liu queria figurantes idênticos aos Beatles para atravessar a famosa rua londrina

Gilberto Amendola, O Estado de S. Paulo

05 de fevereiro de 2019 | 03h01

Minhas fotos de viagem são muito ruins. Parecem tiradas por alguém que está sempre fugindo da polícia. Não tenho paciência para o capricho que um Instagram profissional demanda. Ninguém vai achar uma foto minha segurando a torre Eiffel com a ponta dos dedos ou tentando desentortar a Torre de Pisa com as mãos.

Tenho zero talento para registrar em imagens aquilo que estou vivendo. Não me vejo perdendo mais de cinco segundos em um clique. Respeito quem ganha dinheiro com isso, mas não é pra mim. Meu Instagram é uma coletânea de fotos mal tiradas. Talvez por isso, a história desse imigrante chinês em Londres tenha me chamado tanta atenção...

Liu vive pelo amor que dedica aos Beatles. Ele tem um quarto só para guardar discos, livros e qualquer tranqueira referente ao fab four. Como fã, também viajou o mundo acompanhando shows do Paul e do Ringo (infelizmente, não teve a oportunidade de ver John e George ao vivo). Ah, ouvi dizer que perdeu sua última namorada por insistir em que ela se vestisse e se comportasse (e fosse uma artista) como Yoko Ono. 

Mas, por mais incrível que isso possa parecer, Liu tinha uma obsessão ainda maior: reproduzir aquela foto icônica dos Beatles atravessando a Abbey Road (que está na capa do álbum que leva o mesmo nome da rua e do estúdio de gravação). 

Ele nunca se contentou com qualquer retrato. Não queria ser mais um fã caminhando sobre uma faixa de pedestres desgastada. Liu queria ter a sensação de ser um beatle. Queria captar aquele momento mágico e guardá-lo para sempre nas suas redes sociais e, provavelmente, em um quadro gigante pendurado na sala. 

A primeira dificuldade é que Liu não tinha amigos beatlemaníacos. Portanto, ele precisava arregimentar mais três incautos para o seu retrato perfeito ali mesmo na Abbey Road. Pior, ele ainda tinha o trabalho de convencer outro sujeito a fazer o papel do fotógrafo. Então, era comum encontrar Liu pela rua famosa, fantasiado de John Lennon, e abordando turistas de todas as nacionalidades. 

Ele realizava verdadeiras entrevistas de emprego com aqueles que, a princípio, aceitavam representar o papel de um beatle. Ele só admitia fãs que fossem capazes de relacionar todas as músicas do Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band; que soubessem o nome dos avós de George Harrison; e tivessem evidentes semelhanças físicas com os homenageados.

Esse último item era “bem louco”. O próprio Liu não se parecia com nenhum dos quatro – embora insistisse com a ideia de ser gêmeo de John Lennon.

A tal foto perfeita nunca se materializou. Ele deletou milhares de versões sem mesmo pedir a opinião de outra pessoa. O mais perto que ele chegou do seu objetivo foi a vez em que “só” faltou convencer o “intérprete” de Paul McCartney a tirar os sapatos. Sim, na capa do disco Paul está descalço.

No mês passado, Liu foi atropelado por um táxi enquanto gesticulava no meio da Abbey Road tentando ensinar três brasileiros a andarem como Paul, Ringo e George. Ele quebrou a perna esquerda em duas partes e precisou ficar internado por uma semana. 

 No hospital, não recebeu a visita de nenhum beatle (nem dos vivos, muito menos dos mortos). Mas passou horas tirando fotos do teto do quarto em que estava. Finalmente, Liu estava prestes a atingir o clique perfeito e reproduzir em seu Instagram uma capa dos Beatles. De certo, havia esquecido seus delírios de Abbey Road e, agora, era um obcecado pelo Álbum Branco.

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