Gabriela Biló/Estadão
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Gilberto Amendola
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A história do casal que viajou separado no carnaval

Ela corre atrás do bloco. Ele corre do bloco. Será que dessa vez vão separar?

Gilberto Amendola, O Estado de S. Paulo

05 de março de 2019 | 03h05

  Ela tem sangue de confete e 

serpentina.

Ele fez voto de silêncio.

Ela viajou para o Rio de Janeiro.

E ele partiu para o templo.

Ela tem fantasia de odalisca.

Ele é buda sem barriga.

Enquanto ela canta “allah-la ô”.

Ele só “ommm”. 

Ela corre atrás do bloco.

Ele corre do bloco.

Ela catuaba e cerveja.

Ele matcha.

“Ratatá”, ela canta.

Enquanto ele se encanta.

...

Ela vai mandar um WhatsApp.

Mas ele só visualiza aquilo que o mestre mandar.

(Montanha, gaivota e barulho de onda quebrando na pedra.)

Ela caiu no hully-gully.

Ele prefere se alongar.

Quando ela subiu no trio elétrico,

ele alcançou o nirvana.

Tem alguma coisa no ar.

...

Ela sabe tudo de marchinha.

E ele continua repetindo a mesma 

sílaba.

Ela tem cintura.

Ele é só retidão.

Ela é de mola.

Ele, às vezes, amola.

Será que vão se separar?

...

Ela é de se jogar.

Ele mais de imaginar.

Ela nunca tem hora pra acabar.

Ele quando vai ver já foi.

...

Ela é de coração.

Ele é todo cabeça.

Ela desperta paixões por onde pisa.

Ela cria suspense e curiosidade.

Com ela é na pele.

Ele tem muitas camadas.

...

Na quarta-feira de cinzas,

marcaram de se encontrar.

Uma viagem curta.

Um meio de caminho.

Mas precisam se acertar:

montanha ou mar?

...

Nem cá, nem lá.

No final, ela é quem vai determinar.

– É você quem sabe...

– Quem sabe é você...

– Pra mim tanto faz.

...

Não nasceram grudados.

São calejados.

Agora, dessa vez, sei lá...

A mosca do ciúme pousou.

Daquele jeito triste.

E ficou uma marquinha. 

Acho que de tanto coçar.

Mesmo não querendo ver.

Pode apostar, ela está lá.

Gritando.

...

Melhor falar na lata.

E tentar não magoar. 

Ela treinou na frente do espelho.

Ele tentou representar.

Não era o caso de mentir.

Nem sequer de aliviar.

– Vai, fala você primeiro...

– É você que tem que falar...

...

Cada um com a sua máscara.

Máscaras do dia a dia.

Pierrot, colombina, arquiteta, 

jornalista e etc. e tal.

– Oi.

– Como é que foi lá?

– Legal...

– Me conta do retiro?

– Me fala do bloquinho?

– Tinha muita gente?

– Dava pra brincar?

...

Amor é concentração.

Mas também é dispersão.

Quem vai julgar?

Todo mundo.

...

A vida é uma avenida.

Tem quem puxe o samba.

Tem quem segure os ritmistas. 

Tem quem controle a harmonia.

Tem quem fique de olho

no estouro do cronômetro.

...

Ele vai passar um tempo pescando o glitter do corpo dela.

Pontinho por pontinho.

Meticuloso, sábio chinês, zen.

Acupunturista lúdico.

Caçador de estrelas biodegradavéis.

(Quem sabe no ano que vem eles decidem viajar juntos no carnaval?)

*Envie sua pergunta para viagem.estado@estadao.com.

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