Bruna Toni/Estadão
Bruna Toni/Estadão
Imagem Bruna Toni
Colunista
Bruna Toni
Conteúdo Exclusivo para Assinante

A intercontinental cachupa

Receita mais tradicional da africana Cabo Verde leva um pouco da nossa América

Bruna Toni, O Estado de S.Paulo

10 de dezembro de 2019 | 05h00

Tome nota: 1 litro de milho e 250 gramas de muitos ingredientes. Feijão fava, abóbora, batata inglesa, mandioca, repolho, batata doce, cenoura, carne de vaca. Aí vai também carne salgada, chouriço, cebola, alho, folha de louro, tomate, pimenta, azeite e sal. Tudo para preparar um único prato. Um único, grande e tradicionalíssimo prato cabo-verdiano chamado cachupa.  

Tive a oportunidade de degustar – mas não de preparar, quem sabe um dia – a iguaria na última semana, quando estive pela primeira vez em Cabo Verde, um arquipélago de dez ilhas entre a América e a África

Se a cachupa é novidade ao leitor, como era para esta repórter, o destino talvez não seja, visto que ao menos ouvimos falar de Cabo Verde em nossas aulas de História da escola, ao estudarmos a colonização portuguesa na África e as rotas do tráfico de escravos. Mas é claro que havia muito mais para ser descoberto. O “mais” que os livros não contam. 

Livros didáticos e apostilas pré-vestibular não contam, por exemplo, sobre o cheiro marcante que possui a tal cachupa em tempo de preparo e, depois, à mesa. Cheiro que equivale àquele do fervilhar de nossa feijoada num domingo frio – e só não digo chuvoso porque em Cabo Verde nunca, nunca mesmo, chove. 

Ok, cheiros são difíceis de descrever nos livros, mesmo nos de receita. Mas nada se diz neles sobre os ingredientes, suas origens e sobre o importantíssimo papel social da culinária. E se há uma coisa que aprendi nestes anos de andanças pelo mundo é que nada conta tanto sobre a história e as tradições de um povo quanto o ritual da escolha, do preparo, do servir e do compartilhar o alimento. 

“A cachupa, com quase 500 anos, ocupa grande parte do tempo das famílias, estruturando a vida social, a partir de um ritual orientado na sementeira do milho, feijões, legumes, verduras, associado à atividade pesqueira”, analisa o doutor em Memória Social pela UFRJ Artur Monteiro Bento. 

E é também por meio da gastronomia que descobrimos semelhanças e diferenças culturais e até onde os outros sabem da gente e a gente dos outros. Estava eu prestes a atacar minha segunda cachupa da viagem quando o representante do local onde estávamos quis nos contar mais sobre a confecção do prato, uma ótima representação da mistura de povos formadora de Cabo Verde. O país, afinal, nasceu a partir da insistente colonização dos portugueses no século 15 e da ocupação gradual de povos de diferentes etnias africanas também a partir do mesmo século.

Sem ter grandes capacidades de produção pela escassez de recursos naturais, os estrangeiros e novos cabo-verdianos tiveram de investir em plantações que vingassem numa terra seca e vulcânica, sob o calor dos trópicos. Eis que o milho, a base da cachupa e de outros pratos do país, como o cuscuz, o xerém e a polenta, foi a melhor das opções. “O milho, que veio da Europa”, disse nosso anfitrião, um português.

Interrompi o olhar devorador à cachupa e olhei para ele. Compreendia que, para um europeu, quem havia trazido o milho para as ilhas cabo-verdianas eram seus antepassados. Mas não é europeia a origem do milho, tampouco o costume de prepará-lo como um verdadeiro ritual de comunhão. Isso era coisa nossa, pensei. “O milho veio do Brasil. E isto porque ele é um alimento que os europeus descobriram com os americanos que viviam na América há séculos”, acrescentei à explicação dele.

Longe de pretensões professorais, quis apenas dizer que naquela receita tão multicultural havia também um pouco de nossa identidade americana. E assim concordamos todos e ainda mais que a cachupa, em suas versões pobre ou rica (com mais ou menos ingredientes), é, de fato, uma receita intercontinental. Uma receita capaz de ensinar muito e saborosamente sobre história. A nós, americanos; a eles, europeus; e aos próprios africanos de Cabo Verde que, a esta hora, devem estar a preparar para toda a gente uma deliciosa cachupa quentinha. Eu já dei a receita. Agora é com vocês.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.