Jack Guez/ AFP Photo
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A leitura e sua função nas viagens

Qualquer viagem começa com a picada da mosca azul da vontade.

Mr. Miles, O Estado de S. Paulo

06 Março 2018 | 03h00

Mr. Miles está surpreso com a participação de aficionados no seu Instagram @mrmilesoficial. Nem por isso, é claro, deixará de defender ardentemente o poder da palavra impressa. Um e-mail recebido durante a semana veio a calhar para que nosso bravo viajante discorresse sobre o assunto.

Dear Mr. Miles, sou muito mais leitor do que viajante, apesar de ter viajado muito nos livros. De fato, minha entrada no mundo dos livros deu-se na adolescência, acompanhando o intrépido Phileas Fogg (que, por vezes, me remete ao senhor, diga-se de passagem), em A Volta ao Mundo em 80 Dias, do genial Júlio Verne. Não obstante, os livros têm sido uma grande companhia para mim nas viagens literais, a trabalho ou lazer: proporcionando algum prazer, como nas longas esperas em salas de embarque e voos, ou intensificando o prazer, quando imerso em uma linda paisagem ou em um momento de contemplação. Sem mencionar o enriquecimento da viagem em si, quando a leitura trata do local em que estamos. Sua habilidade de expressão me faz crer que o senhor, além de grande viajante, é também um grande leitor, estou certo? O que o senhor pode nos contar sobre essa parceria, livros e viagens? 

Professor Marco A. Simões, por e-mail

Dear Marco: muito me honra a sua correspondência, no que tange a comparação deste humilde viajante com Phileas Fogg e, mais ainda, quando o prezado mestre elogia a minha capacidade de expressão – um grande incentivo para quem ainda está tentando dominar o bê-á-bá da língua portuguesa.

Tenho o prazer de lhe responder que o seu pressuposto está absolutamente correto. Sou, indeed, um ávido leitor e, desde cedo, nas tardes chuvosas de minha infância no Condado de Essex, descobri, nas páginas amarelas e encantadas de volumes de capa dura, a matéria-prima dos sonhos. Foram naquelas horas de absoluta alienação sobre o que se passava à minha volta que vi, pela primeira vez, majestosas cataratas, florestas tropicais, praias de areia branca, vulcões rugindo fogo e rios cujas margens eram tão distantes que nem sequer se podia vê-las de uma vez só. Senti a sede dos nômades no deserto e fui inundado pela água da boca a cada banquete ou mero repasto descrito pela pena de homens que nunca conheci. 

Yes, Mr. Simões, os livros são silenciosas máquinas de construir paisagens, personagens, cidades e perguntas. In my opinion, são os objetos mais preciosos que alguém pode possuir, com a vantagem de que não têm qualquer valor para quem não os conhece ou entende. Refiro-me aqui, however, a volumes de ficção ou a narrativas da longa epopeia humana. Sem desmerecer, é claro, os livros didáticos, científicos e, até mesmo, os esotéricos. Nem muito menos a poesia, que, por sua vez – e quando bem feita –, nos leva a jornadas de outra natureza, arrebatadoras e siderais.

Qualquer viagem começa com a picada da mosca azul da vontade. Quase sempre, o inseto da inspiração está escondido em um texto, uma revista, um livro ou um filme nascido de um livro. Uma vez infectada pela mosca azul, a felizarda vítima já abre um espaço em sua rotina para o sonho de alcançar o destino de cujo veneno foi inoculado. E esse espaço vai aumentando na medida em que o alegre padecedor lê e informa-se mais sobre o lugar. 

Em pouco tempo, sem ter passagem ou bagagem, ele já viaja intensamente, esgueira-se pelas ruas e praças, prova de seus sabores, exala seus aromas. Muitas vezes, unfortunately, a viagem real nem sequer chega a se realizar por razões diversas. Mas a leitura de qualidade e selecionada já fez da pessoa uma completa conhecedora do lugar que, afinal, nunca chegou a conhecer. É o lado bom dessa moléstia benigna, isn’t it, professor? 

Prefiro, besides, a boa literatura que tenha o destino como cenário do que os guias de viagem. A ela recorro quando quero inspiração. E a eles apenas para questões de ordem prática. O melhor de tudo, therefore, é poder misturar o sonho de ler com a possibilidade de ir. Don’t you agree?”

É O HOMEM MAIS VIAJADO DO MUNDO. ELE ESTEVE EM 183 PAÍSES E  16 TERRITÓRIOS ULTRAMARINOS. SIGA-O NO INSTAGRAM @MRMILESOFICIAL.

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