A mágica das memórias de viagens

Vulcões, furacões, terremotos: o que fazer quando os planos da natureza interferem no seu roteiro? Veja dicas e vá prevenido

Mr. Miles, O Estado de S.Paulo

10 Março 2015 | 02h05

Um pouco a contragosto, mas sempre disposto a agradar Trashie, sua raposa das estepes siberianas, mr. Miles viajou para São Petersburgo, onde o frio acentuado e a vodca abundante devolveram o bom humor à sua mascote. A seguir, a pergunta da semana:

Querido mr. Miles: há muitos anos não viajo, porque estive às voltas com a saúde atribulada de meu marido, que faleceu há dois anos. Lembro-me, curiosamente, muito pouco das duas grandes viagens que fizemos décadas atrás. Os slides, que eram usados na época, estragaram-se com os fungos. Mas, o que acho mais curioso, é que todas as lembranças que ainda tenho são maravilhosas, como se nada tivesse ocorrido de errado durante as jornadas - o que não é verdade, tivemos até uma câmera fotográfica roubada. Outra coisa interessante: às vezes parece que fui a lugares que não fui, que vivi experiências que não vivi. Devem ser os lapsos de memória que chegam com a idade. Enfim, terminado o luto, vou viajar com minha neta de 18 anos durante o verão europeu. Há alguma sugestão que o senhor possa me dar? Antonieta F. Gonçalves, por e-mail

"Dear Antonieta: antes de mais nada deixe-me cumprimentá-la. Sua carta é linda, repleta de observações agudamente certeiras e, a meu ver, sem os 'lapsos de memória' that you mentioned. Veja, darling, que é um pouco longa para o padrão de perguntas que recebo, mas preferi aproveitar cada sopro de sua inteligência para inspirar aos demais leitores.

Concordo veementemente com você que as lembranças de antigas viagens vão se depurando com o tempo, assim como ocorre com certos vinhos e, of course, single malts. Penso muitas vezes neste tema porque, como é sabido, viajo praticamente desde sempre. Minhas conclusões são duas, que cabem uma na outra e fundem-se como as melhores ligas metálicas. A primeira delas é a de que nós, seres humanos, somos indulgentes com o tempo e, quanto mais vivemos, mais seletiva torna-se nossa memória. Esquecemos das más experiências, dos maus sabores, dos erros de caminho e de outros percalços. E, aos poucos, filtramos a lembrança de nossas jornadas, tornando-as melhores e mais valiosas com o passar dos anos.

Meu outro pensamento é que fazemos, também, exatamente o contrário. Os melhores momentos de nossa existência (e as viagens quase sempre estão entre eles) costumam ganhar 'cacos', pequenos felizes acréscimos que a eles se juntam, seja para aquecer um pouco o dia em que fez muito frio, seja para iluminar adequadamente um recinto sombrio ou para fazer com que nossos mais recônditos desejos tenham ocorrido de fato naquela esquina do tempo. Eis que, assim, as histórias melhoram, ficam mais belas, românticas ou, mesmo, sensuais.

Essas, digamos, armadilhas, são mais um efeito positivo do ato de viajar e é por isso, of course, que nada o substitui. Meu querido amigo Andor Stern, ao mesmo tempo um grande viajante e um pródigo contador de histórias, disse-me, certa vez, uma frase que ouso repetir carinhosamente. "Há certas coisas que ocorreram há tanto tempo que deixaram de ser verdade." A frase é linda, mas quem está preocupado com a verdade se a mentira é fabulosa?

Sobre sua pergunta final, darling, não vou dar qualquer sugestão. Desejo apenas que você viva mais cem anos para lembrar desse roteiro com sua neta com o mesmo brilho de suas recordações anteriores."

*Mr. Miles é o homem mais viajado do mundo. Ele esteve em 183 países e 16 territórios ultramarinos 

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