Adriana Moreira/Estadão
Adriana Moreira/Estadão

A melhor viagem que alguém pode fazer

A viagem dos sonhos pode ser de muitas formas. Why not?

Mr. Miles, O Estado de S. Paulo

20 Fevereiro 2018 | 02h00

Leitores mal-humorados reclamaram do fato de nosso correspondente ter pedido uma foto de sua leitora Valéria Portela antes de, eventualmente, acompanhá-la em uma viagem à Islândia. Isso ocorreu na última edição de sua crônica semanal. Outros – felizmente a maioria – compreenderam o humor embutido na provocação, aliás, uma característica de Mr. Miles, que nasceu muito depois da invenção do puritanismo e muito antes “ thank God”, da gestação do chamado “politicamente correto”. 

A própria leitora, aliás, gostou muito da brincadeira do viajante britânico e, com autêntico fairplay, enviou sua foto a Mr. Miles, com um amplo sorriso no rosto. “Por favor, agradeçam à querida Valéria e digam a ela que estou tentando organizar minha agenda para acompanhá-la à Islândia”, pediu ele à redação.

A seguir, a pergunta da semana.

Querido Mr. Miles: qual é a melhor viagem que alguém pode fazer? A de lua de mel? A que celebra décadas de união? A primeira? Ou a mais bem preparada? Simone di Grolli, por e-mail

Well, my dear: fico tentado a responder, com pouca criatividade, que a melhor viagem é sempre a próxima. Porque a próxima é aquela que já estamos viajando nos sonhos. Que já percorremos em nossos devaneios e que já nos trouxe emoções que talvez se confirmem (ou não). É a viagem que vai nos alimentar a alma até o dia em que for possível realizá-la. E vai permanecer na lembrança em posto de destaque enquanto não surgir outra próxima viagem para recomeçar o processo.

Tenho amigos, my God, que só voltaram à vida depois de viajar aos campos de concentração nazista aos quais sobreviveram. Foi preciso que eles repensassem, de uma vez por todas, essa escoriação em suas lembranças para que o mundo voltasse a valer a pena.  

Existem, on the other hand, viagens de reencontro explosivamente felizes. Minha querida Krysia, que se viu sozinha no mundo depois que seu pai desapareceu e sua mãe morreu durante a Segunda Grande Guerra, foi tomar ciência de que o progenitor estava vivo e escondido sob outro nome quase 30 anos mais tarde (Krysia tinha apenas oito anos na separação). Ela foi ao encontro dele e essa foi, I presume, a melhor viagem que alguém poderia ter feito. Há inúmeras outras viagens repletas de emoção que, however, fogem à regra.

Sobre as que você mencionou, my dear, eu ouso dizer – ouso porque nunca me casei formalmente – que a viagem de lua de mel é aquela em que o casal só tem olhos um para o outro. É ótimo que assim seja, by the way. Um cenário bonito sempre ajuda. Mas eis um caso em que a viagem quase sempre está em segundo plano. 

Viagens que celebram uniões longas e estáveis já são, a meu ver, potencialmente mais felizes. O tempo e a maturidade decerto terão construído a mais sonhada das viagens, que tanto pode ser a primeira como um resumo do melhor de todas as outras. Acho tão bonito ver casais idosos visitante o Castelo de Balmoral, na Escócia, quanto mergulhando com tubarões brancos na África do Sul. 

A primeira? Well: pode ser! Depende do propósito, do tamanho da espera e da grandeza do sonho. Se a viagem for a trabalho, para estudos ou para parques de diversão, dificilmente será a melhor da vida de quem quer que seja. Mas também pode ser, why not?

A mais bem preparada, darling, será sempre melhor do que a que não tiver preparo algum. E tem grandes chances de ser a melhor, porque esse preparo inclui o germe da ambição, os sonhos que vão ficando mais nítidos quanto mais sabemos sobre o destino, sobre o que se come e o que se canta por lá, sobre sua história e geografia. A mais bem preparada, enfim, é a próxima, como eu sugeri no começo dessa resposta.”

MR. MILES É O HOMEM MAIS VIAJADO DO MUNDO. ELE ESTEVE EM 183 PAÍSES E 16 TERRITÓRIOS ULTRAMARINOS.

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