Carlos Jasso/Reuters
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A morte de Juan Gabriel

Como a comoção pela morte de um símbolo nacional, experiência fora do roteiro, pode se tornar uma bela forma de conhecer uma cultura

Bruna Toni, O Estado de S.Paulo

12 de novembro de 2019 | 05h10

Cidade do México, início de setembro, 2016. Desembarquei no Aeroporto Internacional Benito Juárez para aguardados dez dias de férias na capital mexicana. Como de costume, deixei minha mala no hostel onde me hospedei e logo saí para bater perna pelas redondezas, maneira de reconhecer o bairro que me acolheria e ter as primeiras noções de deslocamento no destino.

Pouco tempo depois, estava em frente ao bonito Palácio de Bellas Artes, na movimentada Avenida Juárez. Do lado de dentro, espetáculos de ópera e painéis imperdíveis confeccionados por nomes como Diego Rivera, Alfaro Siqueiros e Clemente Orozco. Do lado de fora, um jardim aberto e convidativo, em dias comuns cruzado incessantemente por mexicanas e mexicanos apressados.

Mas aquele primeiro dia da minha viagem não parecia ser um dia comum. Havia muita gente parada, numa fila desalinhada e interminável que dava voltas na construção de 1934. Não estavam com as feições de quem anda apressado. O sentimento era de consternação e de ansiedade. Logo notamos, eu e meu companheiro, as câmeras de gravação cercadas por gradil. Não era preciso ser jornalista para sentir o cheiro da notícia: havia algo ali fora da rotina.  

Imediatamente sentimos um certo comichão de felicidade – este sim peculiar aos jornalistas – por estarmos no lugar e na hora exatos de um evento aparentemente importante aos mexicanos. Tirei a prova, obviamente, perguntando a alguém da fila. “Es el cuerpo de Juan Gabriel”, respondeu a moça, que também contou estar, sem qualquer sinal de arrependimento, há mais de 8 horas na fila, aguardando com resiliência sua vez de entrar no palácio para dar o último adeus a Juan Gabriel.

Fiz a cara de interrogação de quem aguarda a pessoa dizer mais – a mesma que o leitor talvez esteja fazendo se, como nós em 2016, também não faz ideia de quem é (ou era) Juan Gabriel. A moça, contudo, não pronunciou nem mais uma palavra. Apenas me fixou nos olhos, com aquela outra cara de quem espera que o interlocutor comente o grande fato ocorrido. Nos encaramos durante alguns segundos, até eu ouvir, no português alto e inconfundível de meu companheiro, que chegava feliz e gritando: “Era tipo o Roberto Carlos deles!”

Enquanto se dava o curto-circuito no meu diálogo com a moça mexicana, fruto de minha ignorância musical sobre o país dela, ele tratou de descobrir quem era o tal Juan Gabriel que merecia assim tantas horas na fila, cobertura jornalística ampla e um velório pomposo dentro do Palácio de Bellas Artes. 

Ser o “Roberto Carlos” de um país, gostemos ou não do estilo do Rei, é demasiado grande. E Juan Gabriel de fato foi: chamado Divo de Juárez, menção à Ciudad Juárez, no Estado de Chihuahua, onde cresceu, o cantor e compositor popular escreveu boa parte das músicas de sucesso de seu país, passando pelos mais diversos gêneros musicais, como bolero, pop, salsa, mariachi e, sobretudo, o ranchero. Vendeu mais de 100 milhões de álbuns em todo o mundo. E foi ele o primeiro artista popular mexicano a se apresentar no tal Palácio de Bellas Artes e também o primeiro a admitir sua homossexualidade publicamente. Sua história ainda reserva diversas passagens interessantes, algumas polêmicas, que tornam sua figura ainda mais passível de idolatria e julgamentos.

Lamentei ter ouvido falar de Juan Gabriel, morto aos 66 anos em decorrência de um ataque cardíaco, apenas naquele dia de setembro. Por outro lado, não fosse toda aquela comoção por conta de sua morte, talvez eu jamais conheceria uma parte importantíssima da cultura musical dos mexicanos. O que me fez pensar sobre como efemérides e eventos (esperados e inesperados) podem ser formas únicas e inesquecíveis de se vivenciar lugares e pessoas. Descanse em paz, Divo de Juárez. E obrigada pelo legado, em vida e, principalmente, após a morte.

*Envie sua pergunta para viagem.estado@estadao.com.

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