Mônica Nobrega/Estadão
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Mônica Nobrega
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A neve diverte

Abundante ou rara, nos países dos Bálcãs ou aqui mesmo no Brasil, ela enfeita a paisagem de branco e produz situações encantadoras e hilárias

Mônica Nobrega, O Estado de S.Paulo

10 de setembro de 2020 | 03h00

Duas semanas atrás, no centro-sul do Brasil, foi O Inverno. Assim mesmo, em maiúsculas, porque não se trata aqui da estação climática. O Inverno, o nosso inverno, está mais para um evento. Tipo um festival. Com a diferença de que a data é sempre divulgada na última hora e a gente nunca tem roupa. Tem área vip, a Serra Catarinense: em geral, só lá cai neve. 

Esse ano, o cercadinho vip foi um pouco maior. Nevou no Rio Grande do Sul e no Paraná também, e isso aumentou a variedade e a repercussão da melhor atração d’O Inverno: os Bonecos de Neve Brasileiros

O trabalho de viajante profissional me permitiu ver neve tantas vezes que perdi a conta, em variados pontos do planeta. A última vez foi no começo do ano passado, na Sérvia. Eu sei, causa estranhamento: a Sérvia é um país que, se bobear, a gente nem sabe direito onde fica. Ela é um dos pedaços de território que, durante boa parte do século 20, formaram a Iugoslávia. Tem como vizinha a famosa Croácia

São tão poucos os brasileiros que visitam a Sérvia, cerca de 2.500 por ano (sem pandemia), que não pensamos nela como destino turístico. Fui parar lá de um jeito inesperado e gostei do que vi. A capital, Belgrado, lembra outras grandes cidades europeias, um tanto de Madri, outro tanto de Berlim, alguma coisinha de Roma. 

Mas não é dela que quero falar. Era janeiro, auge do inverno na Europa. Entrei no país pelo sudoeste, via fronteira terrestre com Montenegro, país que também integrou a Iugoslávia e, como a Sérvia, faz parte da Península dos Bálcãs. Uma região rural, montanhosa e gelada.

O fato de estar tudo coberto de neve dava um jeito de sonho às paisagens sérvias. Na cidade de Prijepolje, visitei o monastério ortodoxo Mileseva, com um templo do século 13 pintado de afrescos que narram a história do país e de sua igreja, como uma Capela Sistina. E almocei num pequeno restaurante caseiro dentro de uma propriedade rural, aos pés de uma montanha, e com um riacho muito transparente passando logo ali. Eram cenários escandalosamente fotogênicos. 

O mais legal da viagem foi conhecer Mecavnik – Drvengrad, uma vila que nasceu cenográfica e virou um pequeno bairro de pedra e madeira. Quem construiu o lugar foi ninguém menos que o cineasta Emir Kusturica para filmar Life is a Miracle (A Vida é um Milagre, de 2005). Kusturica gostou tanto de sua obra, no alto das montanhas de Mokra Gora e com uma vista espetacular, que foi morar na vila e a transformou em ponto turístico, com hotel – bem pagável, 70 euros por noite para duas pessoas (cerca de R$ 440). Em sua vila, o cineasta criou também um festival de cinema, o Kustendorf, todo ano em janeiro. 

Tempos atrás, a filha de uma conhecida, ao ver neve pela primeira vez aos 4 anos, colocou um pouco na boca e concluiu que tinha sabor de coco. Inspirada na pequena, fiz o mesmo com a neve acumulada sobre Mecavnik: escolhi um canteiro de jardim no qual ninguém pisa, enchi a mão de um punhado bem branco e fofo e dei uma dentada como se fosse uma bola de sorvete. Pois a neve acumulada por cima da vegetação tem gosto de... mato. 

Não sou uma grande fã do frio. Mas o tempo e a prática me mostraram que há diversão na neve – desde que você esteja usando as roupas certas, é claro. A Sérvia rural reforçou essa impressão. Só pena que, apesar de muita neve disponível, os sérvios pelo jeito não se interessam em construir bonecos. Não vi nenhum.

Durante O Inverno brasileiro há algumas semanas, uma parte do País empilhou casacos sobre o corpo e cobertas na cama. Outra parte, a parte chata, ridicularizou a nossa brasileiríssima expectativa pela neve. Enquanto isso, os gaiatos dos Estados do Sul enfrentaram as baixas temperaturas para esculpir o melhor que podiam com uma camadinha fina de neve, já que no nosso País ela nunca é farta. Os Bonecos de Neve Brasileiros, suas cabeças de formatos curiosos, seus bracinhos de graveto ganharam na internet os melhores apelidos: Zé Gotinha, Olaf de Taubaté, boneco de neve da deep web. Ou seja, mais um ano de sucesso absoluto. 

Gargalhei várias vezes vendo essas fotos e lendo os comentários. O que, neste 2020, o ano mais esquisito do resto de nossas vidas (com sorte), é muita coisa.

Dá para ir para a Sérvia?

A resposta é sim. A Sérvia está aberta para os brasileiros e não exige apresentação de teste negativo para covid-19, nem quarentena na chegada. A dificuldade neste momento é o voo, que demanda pelo menos uma conexão na Europa antes do pouso em Belgrado. Confira com a companhia aérea as exigências desse meio de caminho. Ah, importante notar: agora é verão na Sérvia. Aliás, como parece que é aqui também. Ao menos por enquanto.

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