Ilustração Carlinhos Müller/AE
Ilustração Carlinhos Müller/AE

A origem do passaporte

Nosso incansável viajante partiu de Samoa diretamente para os Estados Unidos, atendendo ao convite de seu jovem amigo Gordon Ramsay para degustar algumas de suas novas criações gastronômicas para 2010.

Mr. Miles, miles@estadao.com.br, O Estado de S.Paulo

12 Janeiro 2010 | 00h50

Ainda não temos notícias de como foi o jantar realizado no restaurante que Ramsay conduz na Rua 54, em Nova York. Mas mr. Miles fez questão de registrar sua indignação com a "humiliating inspection" a que foi submetido antes de seu embarque para terras americanas. "Despiram-me como a um recém-nascido; apalparam-me como a tomate de feira; farejaram minhas roupas como se tivessem algum tipo de fetiche e nem meu bowler hat escapou de suas mãos imundas. Mas o mais incompreensível é que, mesmo depois de ter sido aprovado no teste, continuei a ser observado como se fosse uma ameaça em potencial".   A seguir, ele responde à pergunta da semana:

Caro mr. Miles: quando surgiram os primeiros passaportes e quantos o senhor possui?

Everaldo Contabile, por e-mail

"Interesting question, my friend. Infelizmente, vou ficar lhe devendo a segunda parte da resposta, porque estou longe de Essex, onde guardo os meus passaportes, encadernados, em tomos de 24 unidades, por um inigualável profissional de Aleppo, na Síria, a quem costumo visitar de quando em quando.

Unfortunately, durante estes anos como viajante, cinco ou seis deles foram extraviados por motivo de furto ou descuido de minha parte. Nessas ocasiões, fui obrigado a solicitar salvos-condutos em representações diplomáticas britânicas de modo a poder retornar para casa. By the way, o salvo-conduto é o antecessor do passaporte tal qual o conhecemos. A literatura registra que, já em 450 a.C., o oficial persa Neemias, em viagem para Judá, solicitou ao rei Artaxerxes uma carta destinada aos governantes requisitando segurança enquanto ele estivesse em terras estrangeiras.

Foi, of course, um caso isolado, já que em muitos séculos vindouros, os raros viandantes movimentaram-se sem qualquer burocracia, ainda que expostos a muitos perigos.

Novas referências aos documentos de viagem surgem apenas a partir do século 15, quando alguns monarcas - including our king Henry V -, passaram a emitir "pedidos de passagem" para seus súditos em trânsito. Algumas fontes dizem que o termo passport era uma requisição de passagem pelos portos (ports, em francês). Outras sugerem que a intenção era liberar o tráfego pelas portas (portes, no mesmo idioma) das cidades, então quase sempre cercadas por muros.

O uso desses papéis disseminou-se até o século 19, quando o advento dos trens provocou, however, um incremento tão notável no número de viagens que os controles tornaram-se insuficientes.

A solução encontrada - very clever, I must say - foi acabar com a burocracia e abolir a exigência dos documentos. Que, unfortunately, acabaram voltando com a eclosão da Primeira Grande Guerra e a posterior criação da Liga das Nações.

Lembro-me como se fosse hoje de que, na Inglaterra, ficamos chocados com a obrigação de envergar, a partir dos anos 20 do século passado, um caderninho que continha uma foto do portador, uma descrição detalhada de suas características físicas e, pior que tudo, era obrigatoriamente grafado em francês! Considerávamos aquela exigência como uma nasty dehumanisation.

Por fim, acabamos aceitando a derrota com nosso tradicional fairplay. E, cá entre nós, hoje tenho até um certo apego pelos sinetes e estampilhas que registraram minhas andanças pelo mundo, tanto tempo depois de Neemias."

* Mr. Miles é o homem mais viajado do mundo. Esteve em 132 países e 7 territórios ultramarinos

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