A poesia da Harar de Rimbaud

Em dezembro de 1880, o poeta francês Arthur Rimbaud chegou à cidade fortificada de Harar, na Etiópia, depois de cruzar o Golfo de Adén num dhow (pequeno barco a vela árabe) de madeira e de cavalgar 20 dias pelo deserto da Somália. Anos antes, o autor dos poemas em prosa Uma temporada no inferno e Iluminações havia abruptamente renunciado à poesia e embarcado numa peregrinação que o levaria por toda a Europa, Ásia e Oriente Médio e, finalmente, à África. Aos 26 anos, aceitou "um trabalho que consistia em receber cargas com fardos de café" em uma empresa comercial francesa, numa área próspera da região chamada então Abissínia.

Rachel B. Doyle / HARAR, THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

28 Abril 2015 | 02h06

Na época, como atualmente, Harar era uma cidade de comércio entremeada de íngremes ladeiras de pedras que serpenteiam entre os altos muros de rochas calcárias e vulcânicas. Nas paredes, desenhos geométricos em verde, branco, rosa e azul. Quando alguém caminha pelas labirínticas ruas estreitas, ladeadas de casinhas gêmeas térreas, a cidade, fortificada e enigmática, dá a sensação de um lugar fechado.

Mulas transportando feixes de lenha aguardam por seus donos perto das entradas dos portões históricos de Harar. Na Cidade Velha, densamente povoada, há mais de 180 mesquitas e santuários, alguns do século 10. Às vezes, depara-se com mercados ao ar livre onde especiarias, folhas de khat e grãos de café são vendidos em sacas.

Rimbaud chegou a Harar "doente e completamente indefeso", de acordo com seu empregador, Alfred Bardey. Alugou uma casa rústica, com paredes de barro e telhado de palha. O homem que muitos creditam como o que reinventou a poesia europeia moderna residiria nesta cidade etíope pré-industrial por quase cinco anos, por três períodos distintos entre 1880 e 1891.

Viveu uma vida que havia visualizado anos antes de começar a viajar. "Busco as viagens para dispersar os encantamentos que povoaram minha mente", escreveu, aos 19 anos, em Uma temporada no inferno, coleção delirante de nove poemas publicados sete anos antes de chegar a Harar, em que um narrador se enfurece com o mundo e depois perambula por ele. "Minha vida será sempre ingovernável para ser devotada à força e à beleza."

As viagens de Rimbaud foram precedidas de um dramático incidente na Europa: seu amado, o poeta francês Paul Verlaine, atirou em seu punho com um revólver num quarto de hotel na Bélgica. Viver com a mãe, mulher difícil, numa fazenda em Charleville, sua sufocante cidade natal na região francesa de Ardennes, era intolerável. Além do que, Uma temporada no inferno, pelo qual foi no futuro aclamado, não chamou atenção quando da sua publicação, em 1873.

E foi assim que o símbolo do "movimento decadente" acabou em Harar, a 480 quilômetros da capital Adis Abeba.Harar era um centro de aprendizado muçulmano sufi para estrangeiros centenas de anos antes de o explorador Sir Richard Burton chegar, em 1855. Quando Rimbaud ouviu falar desse lugar, implorou para seu empregador, no porto árabe de Áden, enviá-lo para lá. Não importava que a região era considerada perigosa e que outros exploradores tiveram altercações com os guerreiros do deserto de Danakil. Rimbaud reconheceu Harar como uma perspectiva de negócio interessante.

"No exílio a vida era um palco onde as obras-primas da literatura eram encenadas", escreveu em Iluminações. "Poderia compartilhar riquezas inenarráveis que permanecem desconhecidas." (Não há evidências de que Rimbaud escreveu poesias novamente depois dos 21 anos; contudo, enviou centenas de cartas sobre sua vida na Etiópia para a mãe e a irmã na França.)

Na Cidade Antiga de Harar, hoje tombada pela Unesco, com um layout do século 16, a disposição para andar em círculos ou voltar atrás com frequência é uma pré-condição necessária para explorar a cidade. Não há placas. Com sorte, você vai se deparar com uma animada senhora que serve chá de folhas de café torradas com leite; talvez verá o homem que alimenta falcões com as mãos no mercado de camelos ou a viela Mekina Girgir, onde alfaiates remendam roupas em máquinas de pedal e comerciantes servem bolinhos e doces fritos e melados em folhas de bananeira.Memórias.

No centro da Cidade Antiga, chamado Jugol Harar, uma grande casa comercial de fachada elegante foi transformada em museu dedicado a Rimbaud. Numa sala com painéis de vidro coloridos e tetos pintados, a pequena (mas informativa) exposição inclui autorretratos tirados pelo poeta com uma câmera encomendada em Lyon. A foto feita por Rimbaud, de um homem sentado entre potes de barro em seu armazém, deve ter sido a primeira de Harar. "Quando ele estava aqui, era alguém, plenamente", disse o curador do museu, Abdunasir Abdulahi, morador de Harar cuja tia-avó conheceu Rimbaud quando criança. "Ela me disse que ele era muçulmano e que costumavam brincar em sua casa".

Centro Cultural Arthur Rimbaud foi inaugurado em 2000 e hoje "os jovens começam a achar que Rimbaud realmente adorava os nativos de Harar e que preferiu a cidade à sua sofisticada Europa", disse Abdulahi. "Sua mente estava em paz aqui."

Mas, antes, muitos o desdenhavam porque suspeitavam que o poeta seria um espião. Na verdade, ele estava genuinamente fascinado pela região e se propôs a dominar as línguas nacionais. "Com as pessoas comuns ele falava árabe, mas com seu criado falava a língua de Harar", disse Abdulahi. "Também aprendeu o amharic e o oromo."

Rimbaud passava grande parte do tempo visitando mercados remotos para se abastecer de produtos ou "traficando no desconhecido", como escreveu numa carta para sua família antes de partir para uma expedição em 1881. Sublinhou, ainda, os riscos e as dificuldades da sua vida na África. "Esta última expedição deixou-me tão exausto que com frequência deito-me ao sol, imóvel como uma pedra impassível", escreveu. Teria o autor lembrado que em Uma temporada no inferno ele escrevera o que parecia uma ode a essa natureza da qual agora se queixava? "Adoro o deserto, as orquídeas, as lojas banhadas pelo sol, as bebidas quentes. Eu me arrasto pelas ruas hediondas e, olhos fechados, ofereço-me ao sol, deus do fogo."Ele podia se queixar, mas de acordo com seu patrão, Alfred Bardey, Rimbaud estava "sempre esperando impacientemente pela próxima aventura".

/TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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