A Pompeia de Montserrat

O inusitado calor de 41 graus que assolou a capital da Inglaterra ainda na primavera, alguns dias atrás, levou mr. Miles a considerar que a velocidade do aquecimento global superou em muito as suas expectativas. Impressionado com o evento, o bravo viajante decidiu visitar, com mais assiduidade, lugares que correm risco iminente de desaparecer, para "registrá-los em minha memória - um arquivo, so far and thanks God, imune aos efeitos deletérios das alterações climáticas."

O Estado de S.Paulo

09 Junho 2009 | 02h28

Foi assim que nosso bravo viajante decidiu incluir uma nova ilha em seu currículo, a pequena Montserrat, território ultramarino britânico, nas imediações de Antigua e Barbuda, no Caribe.

Instalado na guesthouse de seus velhos amigos Shirley e Lou Spycalla, nosso correspondente britânico saciou uma antiga curiosidade ao visitar os restos da capital de Montserrat, semissoterrada depois de uma erupção vulcânica.

"Plymouth, my friends, é muito pouco lembrada em todo o mundo. Trata-se, however, da mais moderna versão de Pompeia. A pacífica e pequena capital de Montserrat ficava aos pés das montanhas Soufrière, onde existia um vulcão adormecido desde a Antiguidade.

Eis que, nos anos 90 do século passado, a atividade sísmica recomeçou. Primeiro com fumaça, depois com tremores e cinzas. Até que, em 1997, uma grande explosão fez os habitantes de Plymouth abandonarem suas casas e estabelecimentos comerciais, em busca da relativa segurança da porção setentrional da ilha. Unfortunately, that was the end of the city. Plymouth chafurdou em lama vulcânica e cinzas.

Hoje fui fazer um tour pela área, na companhia de um guia e dois geólogos ucranianos que estão fazendo um doutorado sobre a atividade sísmica nas ilhas caribenhas. Não se pode chegar à capital destroçada, que é área de risco. De Jack Boy Hill, entretanto, vimos um cenário grandioso: o vulcão fumegante no background e a cidade enterrada no vale.

Ainda é possível reconhecer alguns edifícios, com as inúteis janelas de seus andares superiores abertas para as cinzas.

Silente, o Soufrière parecia um espectador inofensivo, produzindo nuvens brancas no céu intensamente azul desta manhã. Terá sido, unfortunately, meu último avistamento desta Pompeia esquecida: cada vez que chove na ilha, outros detritos vulcânicos são despejados sobre as ruínas, que logo vão desaparecer.

Agora, fellows, escrevo-lhes de Little Bay, sentado à mesa do mais conhecido restaurante local, cujo nome é uma sugestiva ironia: Good Life Restaurant. Yes, indeed: a vida é boa sempre; e parece melhor ainda quando recomeça. Don't you agree?

A seguir, a pergunta da semana:

Mr. Miles, gostaria de saber se o senhor já se hospedou em algum albergue da juventude. Gostaria que relatasse essa experiência, pois tenho intenção de viajar para a Itália no ano que vem e queria ficar num deles, já que os preços são convidativos.

Maria Fernanda Migliorini, por e-mail

Well, my dear, lamento desapontá-la, mas por motivos que fogem da minha compreensão, não tenho sido aceito em youth hostels há um considerável número de anos. That's very unfair, isn't it?

* Mr. Miles é o homem mais viajado do mundo. Ele já esteve em 132 países e 7 territórios ultramarinos

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