A relaxante rotina de deixar o tempo passar

Entre uma e outra parada, mudanças sutis na paisagem

Paul Schneider, The New York Times, O Estado de S.Paulo

24 Março 2009 | 02h37

A neve se transformou em rajadas que iam e vinham enquanto o navio cruzava um cenário de estonteante beleza. Já tinha visto fotos dos fiordes verdes no verão, mas com a cerração de inverno baixa e a água em vários tons de cinza, a vista era surpreendentemente modernista.

 

História: Alessund foi arrasada por um incêndio em 1904 e reconstruída toda em estilo art nouveau

O vasto e quase vazio salão Panorama, com sua longa fila de cabines confortáveis junto às janelas, era o lugar perfeito para se regalar com o cenário. As montanhas mergulhando nas águas estavam sempre mudando o suficiente para ser interessantes, mas nunca tão rápido para acharmos que estávamos perdendo algo. Havia tempo para sonhar, ler romances grossos ou, no caso de algumas, tricotar cachecóis. Havia, em resumo, tempo para deixar o tempo passar.

 

Veja também:

linkCruzeiro alternativo (e gelado) na Noruega

Os navios da Hurtigruten não se demoram nas paradas. Na maioria das cidades, atracam por uma hora ou menos, tempo suficiente apenas para fazer um giro e conhecer a rua principal. Todos os dias, porém, ficávamos em pelos menos uma cidade por várias horas.

Fizemos um tour arquitetônico em Alesund, um importante centro pesqueiro arrasado por um incêndio em 1904 e reconstruído quase inteiramente em estilo art nouveau. No dia seguinte, fomos a Trondheim,uma cidade às margens do Rio Nid, onde antigas casas de madeira coloridas se acotovelavam na neve.

Poderíamos ter ficado satisfeitos em Trondheim por mais um dia, mas o Vesteraalen estava zarpando. Não foi a única vez que desejamos ter comprado um bilhete que nos permitisse pegar o navio do dia seguinte, um serviço que a linha oferece. O mesmo ocorreu naquela noite, quando o navio ficou retido nas águas protegidas ao largo de Trondheim: havia um furacão. A tempestade nos obrigou a evitar o porto onde participaríamos de um banquete viking. Em vez disso, navegamos em círculos por 10 horas.

O viajante experiente da Hurtigruten toma um aperitivo antes das refeições. Há muita comida e uma boa variedade de peixe defumado. Mas ninguém pede bebidas, nem mesmo refrigerantes, muito caros. Em vez disso, cada um desaparece antes do jantar para tomar um copo de vinho em sua cabine. Só percebemos isso em Trondheim, onde compramos Aquavit, tipo de aguardente local.

O furacão jogou e balançou nosso navio, mas varreu as nevascas e acordamos sem nuvens. Os picos nevados que vimos à distância no dia anterior agora se erguiam numa única fileira por trás dos fiordes.

Todos saíram para o convés quando passamos por uma magnífica cadeia nevada denominada Sete Irmãs. Em algum ponto tínhamos cruzado o Círculo Polar Ártico e no Salong Vesteralstuen recebemos certificados e goles de Aquavit. Depois, nos acotovelamos perto do calor da chaminé no convés da proa para admirar a aurora boreal - lampejos verdes que iam e vinham sobre a fantástica paisagem invernal. Algo como uma falsa promessa de primavera.

Hurtigruten: A partir de US$ 654 (só ida) por pessoa em cabine dupla; www.hurtigruten.us  

Mais conteúdo sobre:
Viagem Noruega inverno

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.