Noam Chen/IMOT
Noam Chen/IMOT

A rota da fé cristã em Israel

Jerusalém, Belém, Nazaré e Jericó integram esse roteiro bíblico-turístico pela chamada Terra Santa, onde história, arquitetura e religião se misturam a cada passo

José Maria Mayrink, Jerusalém

12 Junho 2018 | 05h20

Jerusalém, Belém, Jericó, Caná, Tiberíades, Cafarnaum, Nazaré e, chegando e partindo, Tel Aviv. Não necessariamente nessa ordem, aí está, seguido e aprovado em 11 dias de Israel e Território Palestino, roteiro básico para um cristão buscar os passos de Jesus em peregrinação de fé e cultura que com certeza ficará na memória, cheia de lembranças e experiências emocionantes, de quem sempre sonhou com essa viagem.

Escrevo na primeira pessoa como repórter católico, contrariando as regras do bom jornalismo, que, em nome da imparcialidade, aconselham uma linguagem isenta, arriscadamente distante. Como ocorreu em 2002, quando escrevi uma página sobre minha visita a Auschwitz, na Polônia, três horas com um nó na garganta e lágrimas nos olhos, sem fazer qualquer anotação, registro aqui a memória de lugares, gestos e gente que vão marcar a minha vida – até agora 56 de profissão e 14 idas a Roma, quase sempre para a cobertura de pautas religiosas. Israel e Palestina eram um destino adiado que não poderia faltar no meu currículo.

Primeira surpresa: nenhuma burocracia no aeroporto internacional Ben-Gurion, no desembarque e na saída, embora me tivessem aconselhado calma e paciência para enfrentar os interrogatórios rigorosíssimos da imigração por causa de riscos de atentados. A única recomendação foi para não trancar com cadeados ou segredos as malas despachadas, pois elas poderiam ser abertas, mesmo depois de passarem pelo raio X. De Tel-Aviv a Jerusalém, viaja-se de ônibus, trem ou táxi, em 45 minutos.

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Em nossa excursão familiar – eu, Maria José, minha mulher, e as duas irmãs dela, Zélia e Lúcia –, viajamos via Paris, pela Air France, uma das opções possíveis para tornar os voos menos cansativos. Não contratamos agência ou guias, quase sempre indispensáveis, porque eu tinha uma amiga em Israel, a brasileira Lurdinha Nunes, que vive em Jerusalém. Repórter e produtora do Christian Media Center, que distribui documentários de televisão para 28 emissoras, entre elas a TV Canção Nova, em Cachoeira Paulista, é também colaboradora da revista Terra Santa, edição em português.

Simplicidade

Apesar da superlotação em maio, na comemoração dos 70 anos de fundação do Estado de Israel, havia vagas em bons hotéis na Cidade Nova, a pequena distância da muralha da Cidade Velha. Hotéis seguros e de preços razoáveis, pelos padrões locais. 

Preferimos, contudo, a hospedagem em casas religiosas em Jerusalém e em Nazaré, que são modestas, mas confortáveis. Difícil reservar, pois essas comunidades se destinam preferencialmente a grupos maiores de peregrinos. Dessa região, onde se localizam a residência oficial do primeiro-ministro e o Consulado dos Estados Unidos, chega-se em 20 minutos a pé à Porta de Java, uma das oito entradas para a Cidade Velha.

Jerusalém é para o judaísmo, o cristianismo e o islamismo essencialmente a Cidade Velha. Dividida em quatro áreas – judeus, cristãos, muçulmanos e armênios –, essa área de apenas 1 quilômetro quadrado reúne sinagogas, templos e mesquitas em torno do Santo Sepulcro, basílica que está sob a administração de católicos, gregos ortodoxos e armênios ortodoxos. As três igrejas se entendem nas celebrações litúrgicas, cada uma com seu próprio calendário.

Nosso roteiro sacro está descrito a seguir.

 

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Israel: como chegar, o que levar e dicas

Voos: a Latam começa a operar voos diretos de São Paulo a Tel-Aviv em 12 de dezembro. Serão três voos por semana, a partir de R$ 4.796; site: latam.com. Até lá, só há opções com conexão. 

José Maria Mayrink, Jerusalém

12 Junho 2018 | 04h59

Guia: para entender a complexidade histórica da região, contrate um guia. Há uma lista deles no site turístico oficial de Israel (clique), incluindo os que falam português. 

Trajes: não vá com pernas ou as costas de fora visitar os lugares sagrados. Mulheres devem levar um lenço para cobrir cabelos e ombros quando necessário.

Documento: passaporte deve ser válido por 6 meses; não perca o papel da entrada.  

Sites: clique em info.goisrael.com; e itraveljerusalem.com

Museus: separe um tempo para visitar os museus de Israel (veja em imj.org.il/en), que guarda um acervo arqueológico de 500 mil peças, e do Holocausto. Ambos estão distantes do centro de Jerusalém – vá de táxi, ônibus ou tram.

Holocausto: o Museu do Holocausto (Yad Vashem) lembra com exposições, vídeos e documentos os 6 milhões de judeus mortos durante a Segunda Guerra. Um pavilhão é dedicado apenas às crianças: cerca de 1,7 milhão morreram nos campos de concentração nazistas. 

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José Maria Mayrink, Jerusalém

12 Junho 2018 | 04h58

Depois de cruzar o portão da entrada da Igreja do Santo Sepulcro, os peregrinos veneram a Pedra da Unção, na qual Jesus teria sido depositado, antes de ser sepultado, para preparação do corpo, de acordo com o ritual judaico. Uma escada íngreme leva ao andar superior, o Gólgota, onde se deu a crucifixão. Ao lado, uma gruta guarda fragmentos da Cruz, descobertos no século 4º por Santa Helena, mãe do imperador Constantino, após a demolição de um tempo pagão construído no século 2º pelo imperador Adriano. 

No dia 7 de maio, festa da Invenção da Santa Cruz, faz-se uma procissão e os devotos beijam a relíquia numa capela do interior da basílica. O sepulcro de Jesus, restaurado recentemente, se encontra numa edícula ou capela, que se pode visitar após longa fila. Descobertas arqueológicas confirmam a autenticidade de crenças alimentadas há 20 séculos.

O ano todo, às sextas-feiras, às 15h, celebra-se a via-sacra em 14 estações, da Igreja da Flagelação, junto da Fortaleza Antônia, onde Pilatos condenou o Rei dos Judeus, até o Santo Sepulcro. É uma procissão meio tumultuada, nas ruelas da área árabe da Cidade Velha. Liderados pelos frades franciscanos, os fiéis cristãos cantam e rezam em latim diante das imagens da Paixão, identificadas nas paredes de lojas comercias de artigos religiosos.

Chega-se à Via Dolorosa pela Porta de Damasco, que dá acesso à parte árabe da Cidade Velha. O clima é pesado pela presença ostensiva de soldados e policiais israelenses armados de metralhadoras. É ali que começam os confrontos, nos protestos de árabes e muçulmanos contra Israel. O clima é tenso, mas turistas peregrinos se sentem seguros.

Desviando-se do trajeto para o Santo Sepulcro, chega-se ao Muro das Lamentações. Centenas de homens e mulheres oram, em áreas separadas, todos os dias, mas principalmente no sábado, dia sagrado dos judeus (quando é proibido fotografar). Aproximam-se da muralha do antigo Templo de Salomão e depositam em fendas da parede bilhetes com rezas e pedidos. Predomina a presença de rabinos e de judeus ortodoxos, com os quais se misturam outros devotos, até militares armados, com comovente devoção. Atrás das ruínas do Templo se vê a cúpula dourada da Mesquita de Omar, cujo pátio se pode visitar.

Getsêmani, no sopé do Monte das Oliveiras, é a próxima etapa. Do templo, onde se recorda a agonia de Jesus, se tem a melhor vista de Jerusalém, com a Porta Dourada, a cúpula da Mesquita de Omar e as cúpulas do Santo Sepulcro. Ali perto se encontra também o Cemitério dos Judeus, no Vale de Josafá, de onde os mortos teriam a precedência na ressurreição, no Juízo Final. No alto do Monte das Oliveiras, uma pequena mesquita é aberta para celebrações católicas e ortodoxas, na festa da Ascensão de Jesus ao Céu, em maio.

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José Maria Mayrink, Jericó

12 Junho 2018 | 04h57

De Jerusalém, nossa minúscula caravana desceu com Lurdinha Nunes para Jericó, viajando numa van pelo Deserto da Judeia. Autoestrada moderna montanha abaixo, até o motorista pegar o atalho de uma estrada asfaltada, muito estreita e sem acostamento, supostamente na trilha dos tempos do Novo Testamento. No portão do acesso ao mosteiro ortodoxo de São Jorge, beduínos vendem lembranças da região. Vestem-se de túnicas e turbantes, mas circulam em modernas caminhonetes tração quatro rodas. 

Jericó, tida como a cidade mais antiga do mundo, pertence à Autoridade Palestina e faz fronteira com Israel na região do Mar Morto, onde termina a autoeestrada. A cidade, de 17 mil habitantes, tem arquitetura contemporânea. Do passado milenar, apenas as escavações com as ruínas de muros num pequeno quarteirão. Na montanha do deserto vizinho, pode-se visitar o mosteiro ortodoxo da Tentação, que se alcança por um teleférico. Foi ali que, mais uma vez segundo o Novo Testamento, Jesus foi tentado pelo demônio, ao final de 40 dias de jejum.

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José Maria Mayrink, Belém

12 Junho 2018 | 04h56

Belém requer um dia para se visitar a Basílica da Natividade. Longas filas sempre para se descer até a Gruta da Manjedoura. Os devotos se ajoelham e mergulham a cabeça no vão de um altar para beijar a relíquia, o local em que Jesus nasceu. No mesmo plano subterrâneo do templo, há uma capela e a cela de São Jerônimo, que ali morou 40 anos para traduzir para o latim a Vulgata, os textos hebraicos e gregos da Bíblia. A visita tem de ser rápida, para não se correr o risco de ficar perdido num labirinto quando as luzes repentinamente se apagam.

Do outro lado da praça da Natividade, ergue-se o minarete de uma mesquita imponente. Cristãos palestinos e muçulmanos convivem com harmonia em Belém. Não se assuste com os gritos de motoristas de táxi que parecem estar brigando: é só a disputa pelos turistas que visitam a cidade, no percurso do centro até o muro que separa o Território Palestino de Jerusalém. 

Árabes não cruzam o muro sem autorização especial, mesmo aqueles que trabalham em território israelense. Turistas entram na cidade sem burocracia, mas são obrigados a apresentar passaporte num posto de imigração para voltar a Jerusalém. Chega-se à fronteira de táxi ou de ônibus árabe, a partir da Porta de Damasco.

Na Praça da Paz, entre a basílica e a mesquita, localiza-se a sede do governo da Autoridade Palestina, com grandes painéis e bandeiras. Uma rua perpendicular leva à Gruta do Leite. Segundo a tradição, ao amamentar o Menino Jesus, uma gota do leite de Maria caiu, formou um pó branco na parede e passou a ser venerado pelos cristãos como fonte de fertilidade. Ao lado da Gruta do Leite, freiras enclausuradas se revezam numa capela em adoração perpétua ao Santíssimo Sacramento.

No lado oriental da muralha da Cidade Velha, uma peregrinação ao Monte Sião possibilita conhecer uma série de monumentos religiosos. A começar pela igreja de São Pedro em Gallicantu, que lembra a tripla traição de Pedro, no pátio do palácio de Herodes, antes de o galo cantar. Outro templo é o da Dormição de Maria, onde Nossa Senhora é representada dormindo num leito, à véspera da Assunção ou sua elevação ao Céu.  Em seguida, uma escadinha dá acesso ao Cenáculo, da Última Ceia e de Pentecostes, é modesta, despida de mobílias e adornos. Os guias explicam para os turistas que ali Jesus instituiu a Eucaristia e, 50 dias após a Páscoa, o Espírito Santo desceu sobre os apóstolos.

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José Maria Mayrink, Cafarnaum

12 Junho 2018 | 04h55

Ao norte de Israel, Cafarnaum é “a cidade de Jesus”, como diz uma placa na entrada dos lugares santos, administrados pela Custódia da Terra Santa. Foi ali que, ao iniciar sua vida pública, após as Bodas de Caná, Jesus pregou o Evangelho e fez milagres, como a multiplicação dos pães, à margem do Mar da Galileia. Que, aliás, não é mais um lago de água doce, quase sem ondas, como devia ser no tempo dos apóstolos – exceto na noite de tempestade narrada no Novo Testamento. As ruínas de uma antiga sinagoga e os alicerces da casa de São Pedro atestam episódios de 2 mil anos atrás. É proibido tomar banho na praia.

Perto de Cafarnaum, reza-se no Monte das Bem-Aventuranças e come-se à beira da rodovia, num restaurante de Magdala, a terra de Maria Madalena, um prato delicioso, o peixe de São Pedro, assado inteiro, pescado no Mar da Galileia.

À beira da pista, quilômetros de plantação de trigo, banana nanica e tâmaras, num terreno árido recuperado pela tecnologia da irrigação. A vigilância militar é discreta, mas, quando menos se espera, guardas armados inspecionam passaportes e vistos de entrada em postos de imigração. Árabes de cidadania israelense (caso do motorista de nossa van) são especialmente visados.

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José Maria Mayrink, Nazaré

12 Junho 2018 | 04h54

Na vizinhança de Nazaré, os peregrinos sobem em ziguezague a estrada de acesso ao Monte Tabor. Também sob os cuidados dos frades franciscanos da Custódia da Terra Santa, uma igreja dedicada à Transfiguração lembra em seus altares as figuras dos profetas Moisés e Elias ao lado de Jesus, diante dos apóstolos Pedro, Tiago e João estupefatos. “Se queres, levantarei aqui três tendas: uma para ti, outra para Moisés e outra para Elias”, sugeriu Pedro, segundo o Evangelho de Mateus.

Um brasileiro, frei Bruno Varriano, é o diretor da comunidade franciscana da Custódia da Terra Santa, em Nazaré, no centro norte de Israel, a 80 quilômetros da fronteira com o Líbano. Além de seus compromissos pastorais, ele é psicoterapeuta num hospital da cidade de soberania israelense, onde atende a pacientes árabes cristãos e muçulmanos. Na Gruta da Anunciação, localizada no porão da basílica também da Anunciação, frei Bruno e outros frades costumam rezar o Angelus, lembrando a aparição do Anjo Gabriel para anunciar a Maria que ela seria mãe de Deus.

Verbum hic caro factum est”, “o Verbo aqui se fez carne”, diz uma inscrição em latim à porta da gruta, acrescentando o advérbio hic (aqui) ao texto bíblico para identificar o local. Os peregrinos evangélicos não costumam visitar a basílica, porque não admitem o culto a Maria, embora a reconheçam como mãe de Jesus. Nem a basílica nem outras igrejas cristãs, católicas ou ortodoxas, que têm imagens de santos. 

Em Nazaré, há também uma igreja dedicada a São José e as ruínas da casa em que morou e da carpintaria em que trabalhou, ao lado de Jesus e Maria. Locais e esculturas expostos ostentam o selo de descobertas arqueológicas.

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José Maria Mayrink, Nazaré

12 Junho 2018 | 04h53

Dois brasileiros trabalham em santuários da Custódia da Terra Santa – frei Bruno Varriano, na Basílica da Anunciação, em Nazaré, e frei Wander de Oliveira Souza, numa igreja colada ao Cenáculo, em Jerusalém. Mineiro de Raul Soares, frei Wander gosta de cozinhar e improvisou uma receita de pão de queijo, com ingredientes locais, para servir aos peregrinos.

Os franciscanos – que estão comemorando 800 anos de presença na Terra Santa – representam a Igreja Católica no Oriente Médio, por meio da Custódia. Eles são responsáveis, entre outros locais, pelo Santo Sepulcro (ao lado de ortodoxos gregos e armênios) em Jerusalém, pela Basílica da Natividade em Belém (Território Palestino), pelas basílicas da Anunciação em Nazaré e da Transfigurção no Monte Tabor e pelo conjunto de monumentos religiosos em Cafarnaum.

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