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A sexta-feira de todos os santos

Um médico vai ficar doente e se tratar com homeopatia

Gilberto Amendola, O Estado de S.Paulo

20 de março de 2020 | 06h00

É sexta-feira, meus amigos, acalmem o peito e o coração. Não demora para algo romper o plástico do dia e gritar.

É sexta-feira, uma criança vai nascer. O prazo do leite de caixinha, vencer. Na padaria, um homem irá se sentar no balcão e pedir, com um gesto triste de mão, um trago de cachaça.

É sexta-feira, a mãe vai sussurrar ao filho que é hora de acordar. Um cachorro vai latir querendo descer para passear. Um motorista de aplicativo que virou a noite trabalhando, cochilou no volante e vai provocar um pequeno acidente.

É sexta-feira, a resistência do chuveiro vai queimar. O pão vai cair com a manteiga virada para o alto. No rádio, um locutor vai tossir três vezes e ser retirado do ar. Um catador de latinhas irá construir um foguete (e com ele irá se exilar em outro planeta).

É sexta-feira, um poeta terá uma epifania. Um assassino vai limpar sua ferramenta de trabalho. Uma reunião sem necessidade vai durar mais de duas horas (e nada será definido).

É sexta-feira, alguém vai casar no civil. Outro alguém vai começar um regime exótico. Um jogador de futebol vai perder um gol inacreditável na pequena área. A mãe de um árbitro de futebol vai se vingar de cada palavrão dirigido ao filho.

É sexta-feira, a moça da ioga vai acordar com torcicolo. Um frequentador de karaokê vai errar a letra de Evidências. A moça do café vai ganhar na loteria. Um funcionário será demitido por WhatsApp.

É sexta-feira, alguém vai se apaixonar por uma desconhecida. Um garoto vai completar um álbum de figurinhas. Uma pessoa vai contrair o novo coronavírus. Um digital influencer vai perder mais de 200 mil seguidores.

É sexta-feira, um casamento de 15 anos vai terminar. Uma criança vai começar a andar. Vai dar praia e vai chover. Uma flor vai nascer em um cemitério. Uma vida cheia de conquistas vai chegar ao fim.

É sexta-feira, um disco voador vai aparecer no interior de São Paulo. Um papagaio vai aprender a cantar o hino do Corinthians. Deus vai acordar de bom humor – e ninguém vai acreditar.

É sexta-feira, vai ter bolo de cenoura com cobertura de chocolate. Na escola, os alunos vão cantar o Hino Nacional fazendo piadinhas infames. Uma senhora que vive sozinha vai adotar um porco como animal de estimação.

É sexta-feira, um terremoto de baixa intensidade vai abalar algumas certezas. Um gato subirá no telhado de uma casa abandonada. Um morador de rua vai pintar a Monalisa na calçada.

É sexta-feira, um grupo de formigas vai marchar pela cozinha. Um arquivo importante será perdido para sempre. Um ator terá um ataque de riso no palco e não conseguirá continuar uma cena. Um palhaço vai entrar no picadeiro se sentindo morto por dentro.

É sexta-feira, um teste de gravidez vai dar positivo. Um saldo bancário chegará no negativo. Um médico vai ficar doente e se tratar com homeopatia.

É sexta-feira, um livro será esquecido no metrô. O último capítulo de um livro vai deixar um leitor com mais perguntas do que respostas. A pena de alguém vai ser cumprida. A Justiça vai tardar e falhar na mesma proporção.

É sexta-feira, e alguém vai se sentir velho demais para mudar de rotina. Outro alguém irá planejar uma viagem para quando fizer 18 anos. Um garoto vai ser expulso da sala de aula por colar durante a prova. Um novo golpe será criado e aplicado na praça.

É sexta-feira, e alguém vai criar um meme para explicar o Brasil. Outro alguém vai passar o dia brigando no Twitter. Algumas pessoas vão mostrar empatia. Outras pessoas vão ser mais azedas do que jiló.

É sexta-feira, e você pode ter certeza que esse será o dia de todos os santos (e daqueles que nem são assim tão santos), de todas as tristezas, de todas as maravilhas e de todos os absurdos que, eventualmente, cabem em 24 horas de uma vida.

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