Chris Warde-Jones/NYT
Chris Warde-Jones/NYT

A sós (ou quase) com Michelangelo

Tour noturno leva à Capela Sistina e aos museus do Vaticano

Adam Nagourney, The New York Times

26 Janeiro 2010 | 06h57

Foram 40 minutos vagando por galerias abarrotadas de pinturas italianas dos séculos 15 e 16, pátios repletos de esculturas gregas e romanas e intermináveis corredores decorados com mapas antigos e tapeçarias que formam o Museu do Vaticano. Então, fomos conduzidos por um pequeno portão que eu não havia notado nas minhas visitas anteriores. Olhei para cima e percebi: havíamos chegado à Capela Sistina. Apenas nosso grupo de nove turistas, um guia e um dos guardas do lugar.

 

Good, o guia, que vinha tagarelando pelo museu, ficou repentinamente em silêncio, enquanto olhávamos assustados pelo lento reconhecimento de onde estávamos. Cabeças inclinadas para trás e bocas abertas, o grupo curtiu cada descoberta, cada nova perspectiva dos afrescos no teto e nas paredes. Apenas os passos quebravam o silêncio. Tínhamos a Capela Sistina inteira para nós. O que significa espaço, silêncio e a chance de não apenas admirar as obras, mas também sentir seu cheiro. Era desagradável e aromático ao mesmo tempo, uma experiência sensorial impossível em uma sala lotada.

 

É preciso já ter sofrido com a disputa por espaço, a dificuldade de abrir caminho na multidão e os avisos de "no pictures, no pictures" dos guardas na visita tradicional para compreender a indulgência da mais alta ordem que isto representa.

O passeio pelos museus do Vaticano e pela Capela Sistina após o expediente regular é vendido sem muito alarde por algumas operadoras turísticas, como a Italy With Us, que organiza uma das menores (e mais caras) excursões. O preço, comparado aos 15 (R$ 38) do ingresso comum, pode causar uma parada cardíaca: 275 (R$ 691) por pessoa em um grupo limitado a 15 integrantes.

 

Vale a pena? Havia visitado a igreja outras duas vezes e minha lembrança mais forte é a do barulho dos turistas. O lugar onde os papas são eleitos tinha a mesma intimidade e espiritualidade que um terminal de trens na hora do rush. O que, para mim, havia feito da Capela Sistina apenas mais um ponto turístico: impressionante, mas impossível de absorver. E com poucos motivos para voltar.

 

Desta vez, os nove felizardos podiam sentar, andar ("shhh"!) e até tirar fotos (sem flashes, por favor) de qualquer lugar. Privilégio antes concedido apenas a políticos e celebridades.

 

IMPREVISÍVEL

 

Nosso tour estava marcado para as 19 horas. Precisamente neste horário, escutamos o tilintar das chaves do lado de dentro e uma das portas se abriu lentamente. Sem dizer palavra, um guarda nos deu passagem, enquanto alguns funcionários saíam. O silêncio era quase fantasmagórico. Dentro do museu, apenas nosso grupo e os trabalhadores do turno da noite.

 

É preciso deixar claro: esta não é uma visita para quem anseia previsibilidade ou ordem. Fica-se à mercê dos vigilantes do Vaticano, que podem decidir, antes ou apenas como um capricho momentâneo, quais salas abrir, os espaços que o grupo será autorizado a acessar e por quanto tempo. "É uma monarquia absoluta", brinca Good, o guia. "Alguns guardas são melhores que outros. Depende do estado de espírito de cada um."

 

As únicas promessas concretas são as das visitas à Capela Sistina e às salas onde estão guardadas obras do pintor Rafael. O passeio dura exatamente duas horas, o que torna tudo mais complicado, já que é simplesmente impossível ver tanta coisa em um período tão curto. Se pudesse fazer qualquer reclamação, queria ter tido mais tempo com Good para discutir detalhes dos trabalhos de Michelangelo, Rafael e Botticelli, que nos cercaram durante toda a meia hora passada no interior da Capela Sistina.

 

No pátio octogonal do Museu Pio-Clementino, paramos para admirar a escultura de mármore branco Laocoonte e Seus Filhos, provavelmente da segunda metade do século 1º.

 

E nosso passeio terminou tão furtivamente quanto começou. Os guardas abriram a porta, nos colocaram para fora e a fecharam rapidamente.

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