A sós (ou quase) com Michelangelo

Por nada módicos 275, tour noturno leva à Capela Sistina e aos museus do Vaticano. Bem longe da multidão

Adam Nagourney, O Estado de S.Paulo

26 Janeiro 2010 | 02h01

VATICANO

THE NEW YORK TIMES

Foram 40 minutos vagando por galerias abarrotadas de pinturas italianas dos séculos 15 e 16, pátios repletos de esculturas gregas e romanas e intermináveis corredores decorados com mapas antigos e tapeçarias que formam o Museu do Vaticano. Então, fomos conduzidos por um pequeno portão que eu não havia notado nas minhas visitas anteriores. Olhei para cima e percebi: havíamos chegado à Capela Sistina. Apenas nosso grupo de nove turistas, um guia e um dos guardas do lugar.

Good, o guia, que vinha tagarelando pelo museu, ficou repentinamente em silêncio, enquanto olhávamos assustados pelo lento reconhecimento de onde estávamos. Cabeças inclinadas para trás e bocas abertas, o grupo curtiu cada descoberta, cada nova perspectiva dos afrescos no teto e nas paredes. Apenas os passos quebravam o silêncio. Tínhamos a Capela Sistina inteira para nós. O que significa espaço, silêncio e a chance de não apenas admirar as obras, mas também sentir seu cheiro. Era desagradável e aromático ao mesmo tempo, uma experiência sensorial impossível em uma sala lotada.

É preciso já ter sofrido com a disputa por espaço, a dificuldade de abrir caminho na multidão e os avisos de "no pictures, no pictures" dos guardas na visita tradicional para compreender a indulgência da mais alta ordem que isto representa.

O passeio pelos museus do Vaticano e pela Capela Sistina após o expediente regular é vendido sem muito alarde por algumas operadoras turísticas, como a Italy With Us, que organiza uma das menores (e mais caras) excursões. O preço, comparado aos 15 (R$ 38) do ingresso comum, pode causar uma parada cardíaca: 275 (R$ 691) por pessoa em um grupo limitado a 15 integrantes.

Vale a pena? Havia visitado a igreja outras duas vezes e minha lembrança mais forte é a do barulho dos turistas. O lugar onde os papas são eleitos tinha a mesma intimidade e espiritualidade que um terminal de trens na hora do rush. O que, para mim, havia feito da Capela Sistina apenas mais um ponto turístico: impressionante, mas impossível de absorver. E com poucos motivos para voltar.

Desta vez, os nove felizardos podiam sentar, andar ("shhh"!) e até tirar fotos (sem flashes, por favor) de qualquer lugar. Privilégio antes concedido apenas a políticos e celebridades.

IMPREVISÍVEL

Nosso tour estava marcado para as 19 horas. Precisamente neste horário, escutamos o tilintar das chaves do lado de dentro e uma das portas se abriu lentamente. Sem dizer palavra, um guarda nos deu passagem, enquanto alguns funcionários saíam. O silêncio era quase fantasmagórico. Dentro do museu, apenas nosso grupo e os trabalhadores do turno da noite.

É preciso deixar claro: esta não é uma visita para quem anseia previsibilidade ou ordem. Fica-se à mercê dos vigilantes do Vaticano, que podem decidir, antes ou apenas como um capricho momentâneo, quais salas abrir, os espaços que o grupo será autorizado a acessar e por quanto tempo. "É uma monarquia absoluta", brinca Good, o guia. "Alguns guardas são melhores que outros. Depende do estado de espírito de cada um."

As únicas promessas concretas são as das visitas à Capela Sistina e às salas onde estão guardadas obras do pintor Rafael. O passeio dura exatamente duas horas, o que torna tudo mais complicado, já que é simplesmente impossível ver tanta coisa em um período tão curto. Se pudesse fazer qualquer reclamação, queria ter tido mais tempo com Good para discutir detalhes dos trabalhos de Michelangelo, Rafael e Botticelli, que nos cercaram durante toda a meia hora passada no interior da Capela Sistina.

No pátio octogonal do Museu Pio-Clementino, paramos para admirar a escultura de mármore branco Laocoonte e Seus Filhos, provavelmente da segunda metade do século 1º.

E nosso passeio terminou tão furtivamente quanto começou. Os guardas abriram a porta, nos colocaram para fora e a fecharam rapidamente.

COMO IR

Passagem aérea: SP-Roma-SP: R$ 1.966 na Alitalia (0--11-2171- 7600), direto, ou R$ 1.674 na Iberia (0--11- 3218-7130), R$ 1.733 na KLM (4003-1888) e na Lufthansa (0--11-3048-5800), R$ 1.793 na TAP (0--11-2131- 1200) e R$ 1.880 na Air France (4003-9955).

Com a Italy With Us (italywithus.com/vatican-after-hours.php), o tour noturno pelos museus do Vaticano e Capela Sistina ocorre uma vez por semana. Reservas devem ser feitas com um mês de antecedência - atualmente, há vagas para os meses de abril a junho

Outras operadoras fazem excursões idênticas: Viator (viator.com/Rome/d511/vatican-tours); e Context Travel (contexttravel.com).

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